Investigadores do Instituto de Tecnologia Química e Biológica (ITQB), da Universidade Nova de Lisboa, descobriram que bactérias existentes no trato respiratório superior, fora do tórax, inibem “Streptococcus pneumoniae”, causa de várias infeções respiratórias, foi divulgado nesta quinta-feira.
Num estudo publicado na revista científica Applied and Environmental Microbiology, da Sociedade Americana de Microbiologia, os investigadores revelam que “algumas bactérias que vivem na nasofaringe e orofaringe – isto é, nas regiões logo atrás da cavidade nasal e da boca, respetivamente – conseguem inibir a maioria das variantes de ‘S. pneumoniae'”, segundo um comunicado do ITQB.
A bactéria “Streptococcus pneumoniae” e as suas variantes, conhecidas como pneumococos, é uma das principais causas de infeções como otites e sinusites, mas também meningites, sépsis e pneumonias.
Segundo os cientistas, são conhecidas mais de 100 variantes de “S. pneumoniae” e não existem vacinas que protejam as pessoas de todas elas, algumas das quais “já são resistentes aos antibióticos”.
Entre os mais vulneráveis aquelas infeções estão os idosos, os que têm o sistema imunológico enfraquecido e as crianças, 300 mil das quais morrem anualmente em todo o mundo devido a este agente patogénico.
“Ao estudar a frequência de colonização por ‘S. pneumoniae’ reparámos que algumas pessoas que não eram colonizadas por este agente patogénico estavam, no entanto, colonizadas por outras bactérias inofensivas, particularmente ‘Streptococcus oralis’ e ‘Streptococcus mitis'”, explica, citada no comunicado, Raquel Sá-Leão, responsável pelo laboratório de Microbiologia Molecular de Patógenos Humanos, que liderou este estudo.
Os cientistas decidiram então investigar se outros micróbios que residem na nasofaringe e orofaringe poderiam limitar a presença de “S. pneumoniae”, tendo recolhido amostras de 300 crianças e 300 adultos sem pneumococos.
“Da extensa lista de micróbios identificámos sete estirpes de ‘S. oralis’ e ‘S. mitis’ com uma forte atividade inibitória contra ‘S. pneumoniae'”, revela Sara Handem, investigadora do ITQB e uma das autoras do estudo, acrescentando que aquelas bactérias “conseguem impedir a formação de biofilmes pneumocócicos – grupos de bactérias que se agarram à mucosa respiratória, formando uma comunidade mais resiliente ao sistema imunitário e aos antibióticos”.
As estirpes de bactérias protetoras produzem moléculas antimicrobianas chamadas bacteriocinas, toxinas com atividade antipneumocócica.
João Lança, também do ITQB e autor do estudo, explica que, “além de agirem contra a maioria das variantes dos pneumococos, é expectável que as bacteriocinas induzam menos resistência que os antibióticos e que sejam mais específicas atuando contra pneumococos, mas preservando a restante microbiota”.
Ou seja, poderá ser possível desenvolver probióticos com aquelas bactérias, a serem aplicados através de sprays nasais, e que teriam “o potencial de reduzir a colonização por parte dos pneumococos”.
A equipa “já apresentou um pedido de patente provisório que abrange produtos farmacêuticos que contenham estas bactérias ou as suas moléculas inibidoras de pneumococos (PT119647)” e pretende “explorar o mecanismo de ação das bacteriocinas e avaliar a eficácia e segurança destas e dos micróbios que as produzem, utilizando modelos ‘in vivo'”.
“O nosso estudo apresenta uma estratégia promissora, tanto para complementar tratamentos já existentes, como de forma independente, de forma a reduzir a doença pneumocócica. Esta abordagem está alinhada com as recomendações da Organização Mundial da Saúde que destaca a importância de prevenir a colonização para combater a doença e a transmissão do pneumococo”, assinala Carina Valente, outra das investigadoras participantes.