Luís Montenegro reconheceu esta terça-feira, mais de um mês depois da primeira notícia sobre a sua empresa familiar, que talvez pudesse ter tomado “outra opção” quando decidiu entregar a Spinumviva à mulher e aos filhos, em julho de 2022.
Em conversa com Manuel Luís Goucha, na TVI, o primeiro-ministro admitiu que talvez se pudesse ter “lembrado” do facto de estar casado em comunhão de adquiridos, pelo que poderia ter transmitido diretamente a empresa para os filhos e afastar, assim, qualquer suspeita de que estaria a beneficiar, mesmo que indiretamente, da empresa que fundou. “Talvez pudesse ter sido a melhor opção. Mas achei isto tudo perfeitamente normal.”
Apesar de tudo, Luís Montenegro entende que as críticas de que foi alvo por parte da oposição ultrapassaram em muito os limites aceitáveis. “Tenho ficado chocado com as insinuações que têm sido lançadas. Não pode valer tudo. Pode-se fazer perguntas, não se podem é tirar conclusões na base de raciocínios que são perversos”, atirou.
Montenegro foi ainda desafiado a comentar o cartaz do Chega, onde a sua figura surge ao lado da de José Sócrates, e não conseguiu esconder a indignação. “Nunca tive nenhum ato de corrupção. Nunca fui suspeito, nem posso aceitar a ninguém que diga uma coisa dessas”, insurgiu-se o social-democrata.
Nesta conversa com Manuel Luís Goucha, que foi assumido apoiante de Montenegro nas últimas eleições legislativas, o primeiro-ministro voltou a recusar a ideia de que procurou ativamente a crise política e as eleições antecipadas, ainda que tenha sido efetivamente o Governo a apresentar uma moção de confiança que sabia, de antemão, que o PS iria chumbar.
[Já saiu o segundo episódio de “O Misterioso Engenheiro Jardim”, o novo Podcast Plus do Observador que conta a história de Jorge Jardim, o empresário que, na verdade, era um agente secreto que liderou missões perigosas em todo o mundo, tentou criar um país e deu início a um clã de mulheres aventureiras. Pode ouvir aqui, no Observador, e também na Apple Podcasts, no Spotify e no YoutubeMusic. E pode ouvir aqui o primeiro episódio]
Para o primeiro-ministro, a oposição estava na verdade empenhada numa “estratégia de degradação” do Governo e, como tal, era importante ouvir o Parlamento para saber se o Executivo tinha ou não condições para continuar a governar. “Foi o Parlamento que disse que não”, começou por dizer Montenegro, antes de concluir: “Prefiro dois meses para a clarificar a situação do que um ano a estragar aquilo que foi feito”.
Num registo naturalmente mais intimista, Montenegro acabou por se comover quando desafiado a falar sobre o impacto que este caso teve e está a ter na sua família. “Têm reagido com uma força que só me dá mais força. Estou absolutamente siderado com a força que a minha família me está a transmitir.”
A terminar, e pela primeira vez, o líder social-democrata comentou o momento em que Marcelo Rebelo de Sousa se referiu a ele como sendo “uma pessoa que vem de um um país profundo, urbano-rural, com comportamentos rurais”.
“Achei essa caracterização altamente elogiosa. Sou mesmo uma pessoa com múltiplas vivências. Não posso ser mais urbano-litoral do que uma pessoa que vive em frente ao mar. Sou de Espinho, nasci no Porto, estudei no Porto, trabalhei em Lisboa. Mas tenho raízes transmontanas da parte do meu pai, de uma família muito humilde, e durienses do lado da minha mãe, uma família mais abastada, é verdade. Tenho essas características todas, felizmente.”
“Tanto entro numa tasca como num palácio. Falo com todas as pessoas da mesma maneira. Sou uma pessoa normal. Como pai ou como primeiro-ministro, ponho-me sempre no lugar da pessoa que tenho pela frente”, rematou.