É mais um capítulo da nova era do turismo espacial privado pela mão da SpaceX. E desta vez para ver o que ninguém viu de perto antes: os pólos a partir do espaço. Mas a ideia dos quatro tripulantes da nave Crew Dragon Resilience que tem lançamento agendado para a próxima segunda-feira não é apenas passear. A “Fram2”, a primeira missão tripulada destinada a sobrevoar as regiões polares da Terra — nas mais de seis décadas de voos espaciais ninguém tentou uma órbita polar — tem um vasto caderno de encargos científico (e não só).

Os astronautas estreantes — Chun Wang, milionário pioneiro na criptomoeda chinês de nacionalidade maltesa, Jannicke Mikkelsen, cineasta norueguesa, Eric Philips, explorador australiano e Rabea Rogge, investigadora alemã —  passaram por oito meses de formação, com várias simulações da missão e preparação para diversas situações de emergência. Do programa de treino, fez parte uma uma excursão a áreas selvagens no Alasca, para experimentarem situações adversas e de confinamento antes de partirem para o espaço.

“A equipa da Fram2 completou esta semana os treinos na Califórnia, e, ao início desta manhã [sábado passado], a nave Dragon chegou à Flórida”, antes da descolagem no dia 31 de março”, anunciou a empresa nesse dia na rede social X.

O lançamento já tinha sido anunciado pelo financiador da missão, Chun Wang, na mesma rede social. O empresário mencionou ainda dois lançamentos alternativos (em caso de falha) no dia 1 de abril às 00h53 e às 02h26h do horário de verão de leste (04h53 e 06h26 em Lisboa).

Não é para menos. Este não é primeiro agendamento da partida da missão. Nomeada em homenagem ao navio norueguês que levou pela primeira vez exploradores até às regiões do Ártico e da Antártida entre 1893 e 1912, a Fram2 esteve planeada para descolar no final de 2024, o que não aconteceu porque não estavam reunidas as condições para o fazer.

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Agora estará tudo a postos para que parta do Centro Espacial Kennedy, na Flórida, e permaneça na órbita polar durante três a cinco dias. O empresário Chun Wang, cofundador das empresas de bitcoin F2pool e Stakefish, não só financia como comanda a missão, acompanhado pelos seus três amigos que conheceu em Svalbard, arquipélago ártico norueguês. A comandante da nave é a realizadora Jannicke Mikkelsen, enquanto a investigadora em robótica Rabea Rogge será o piloto e o explorador polar Eric Philips, o especialista da missão.

Serão os primeiros a observar de perto os pólos a partir do espaço. Na página oficial da missão pode ler-se que estas regiões não são visíveis para os astronautas na Estação Espacial Internacional (ISS), nem foram observadas em qualquer missão espacial realizada até ao momento, com exceção das missões lunares Apollo, mas que apenas o conseguiram fazer à distância.

No seu site oficial, a Space X explica que o objetivo desta missão é observar as regiões polares terrestres de uma perspetiva de 360º, através da cúpula que irá viajar acoplada à escotilha dianteira da Crew Dragon Resilience, a uma altitude de entre 425 a 450 quilómetros.

Para além de estudarem as emissões de luz incomuns, semelhantes a auroras e comparáveis ao fenómeno conhecido como STEVE (Strong Thermal Velocity Enhancement), a equipa irá ainda conduzir 22 experiências que visam desenvolver novos métodos de melhoria da saúde e performance humana no espaço, que incluem a captura das primeiras imagens de raio-x humanas no espaço, exercícios de restrição do fluxo sanguíneo para preservar massa muscular e óssea e o cultivo de cogumelos em microgravidade como potencial cultura espacial, para além de estudos adicionais aos padrões de sono e stress dos astronautas. Espera-se que os resultados sejam cruciais para o desenvolvimento de ferramentas de preparação para futuros voos espaciais de longa duração.

A Dragon vai voar do pólo Norte ao pólo Sul em pouco mais de 46 minutos, trinta vezes mais rápido do que a missão One More Orbit em 2019, na qual Jannicke Mikkelsen foi especialista de carga útil, que circunvagou o planeta azul num jato Gulfstream G650ER batendo o recorde mundial do Guinness.

Este não será o único recorde conquistado pela Fram2, caso seja bem sucedida: o lançamento da Crew Dragon Resilience para uma órbita circular de 90º ultrapassará em muito a inclinação de 65º alcançada pela missão soviética Vostok 6.

Não admira que Chun Wang, que tem escrito bastante nas últimas semanas no X esteja muito animado:

“Falta apenas uma semana para o lançamento. As pessoas perguntam-me: ‘Estás entusiasmado?” Não, de todo. Dormi durante todo o fim de semana”, escreveu Wang nesta terça-feira. “Se houve um momento em que me senti verdadeiramente entusiasmado, terá sido em maio de 2023, quando estava em Miami, a apresentar pela primeira vez o Fram2 à SpaceX, e por acaso ouvi alguém a cantar Fly Me to the Moon no átrio do Ritz-Carlton, em South Beach. Foi nesse momento que senti verdadeiramente: desta vez pode ser que resulte e que eu consiga mesmo voar para o espaço”.