Depois do Signal, o Gmail. O conselheiro de Segurança Nacional dos EUA, Mike Waltz, terá usado o serviço de email da Google para trocar informações oficiais com outros funcionários da Casa Branca, revelou esta terça-feira o The Washington Post.
Segundo o jornal norte-americano, que teve acesso às comunicações trocadas, Waltz usou este serviço para ter “conversas extremamente técnicas” com funcionários de outras agências do Governo federal, incluindo, lê-se, “posições militares sensíveis e sistemas de armamento potentes relacionados com um conflito em curso”.
A agenda de trabalho de Waltz, segundo fontes próximas que falaram anonimamente com o jornal, também era enviada para este endereço do Gmail. Só o próprio conselheiro terá usado este serviço para receber e enviar e-mails, de acordo com os cabeçalhos dos e-mails. Todos os funcionários com quem trocou e-mails usaram os endereços oficiais do governo.
Este é o segundo caso em que Waltz surge a usar o meios não convencionais para fazer comunicações internas do governo norte-americano, depois do caso do diretor da revista The Atlantic que foi adicionado a um grupo no Signal onde se discutiam os bombardeamentos do país aos houthis do Iémen.
Porém, ao contrário do Signal, o Gmail não é um serviço de troca de mensagens encriptado, sendo considerado um meio de comunicação muito menos seguro. “O email não é encriptado ponta-a-ponta e os conteúdos de uma mensagem podem ser intercetados e lidos em vários pontos, incluindo nos servidores de correio eletrónico da Google”, afirmou Eva Galperin, diretora de cibersegurança da organização de direitos digitais Fundação Fronteira Eletrónica ao Washington Post.
O porta-voz de Waltz negou que o conselheiro tenha usado o serviço de correio eletrónico para trocar “informações confidenciais”. “Waltz não enviou nem enviaria informações confidenciais numa conta aberta”, disse ao jornal.
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As semelhanças deste caso com o chamado caso dos e-mails de Hillary Clinton, muito usado por arma de arremesso por Donald Trump e pelos republicanos, são evidentes. A então secretária de Estado da administração de Barack Obama trocou vários emails sobre assuntos oficiais relacionados com o governo dos EUA usando o seu endereço pessoal de email. A investigação sobre o tratamento dos e-mails foi altamente mediática desde a sua revelação, em 2015, e subsequente investigação pelo FBI.
Ao contrário do caso de Waltz, o servidor usado por Hillary Clinton era um servidor pessoal, com morada na residência pessoal da família Clinton. Dos 30 mil emails enviados pela ex-secretária de Estado para serem investigados, o FBI disse ter encontrado 110 emails com informações consideradas confidenciais, secretas ou mesmo ultrassecretas.
Entre os vários republicanos que atacaram Clinton durante o processo, estava o próprio Mike Waltz, agora o foco de críticas por ter assumido a responsabilidade por adicionar o jornalista da The Atlantic ao grupo do Signal. “Como é que Hillary Clinton pode apagar 33.000 emails do governo num servidor privado e o Presidente Trump é acusado por ter documentos que poderia desclassificar?”, criticou Waltz na rede social X em 2023, numa altura em que o atual Presidente tinha sido acusado pela justiça num caso que envolve o tratamento de documentos confidenciais.
How is it Hillary Clinton can delete 33,000 government emails on a private server yet President Trump gets indicted for having documents he could declassify?
— Mike Waltz (@michaelgwaltz) June 9, 2023
Waltz em risco?
Depois do caso do Signal, a estabilidade de Mike Waltz no cargo foi posta em xeque. Vários membros do Partido Democrata apressaram-se a criticar a atuação do conselheiro e a pedir a sua demissão. “Quando o que está em jogo é tão importante, a incompetência não é uma opção”, escreveu então o senador democrata Mike Warner, apelando a Waltz e ao secretário de Defesa, Pete Hegseth, para se demitirem.
When the stakes are this high, incompetence is not an option.
Pete Hegseth should resign.
Mike Waltz should resign.
— Mark Warner (@MarkWarner) March 25, 2025
Em resposta, o Presidente dos EUA manteve-se do seu lado, defendendo o seu conselheiro de Segurança Nacional e afirmando esta tinha sido a “única falha” do seu governo. “Não, não acho que tenha de pedir desculpa”, disse Trump na terça-feira passada, sublinhando que Waltz estava “a fazer o seu melhor”. “Não despeço pessoas por causa de notícias falsas e caças às bruxas”, disse depois o Presidente, no domingo.
A porta-voz da Casa Branca, Karoline Leavitt declarou mesmo que o “caso está encerrado” dentro do Governo norte-americano.
Porém, internamente, o Presidente dos EUA terá discutido essa possibilidade na passada quarta-feira com o vice-presidente JD Vance e a sua chefe de gabinete Susie Wiles, entre outros membros da Casa Branca, de acordo com a notícia desta terça-feira do Washington Post.
No dia seguinte, Trump tomou a sua decisão de não demitir o conselheiro, muito para evitar dar “uma arma” aos “media liberais”.