Os Estados Unidos bombardearam alvos dos houthis, no Iémen, no passado dia 15. Um jornalista da revista The Atlantic, porém, já sabia com duas horas de antecedência que os ataques iam acontecer, os meios que seriam mobilizados pelas forças norte-americanas e os alvos a atacar, graças à sua inusitada inclusão num grupo de chat que envolvia vários elementos de topo da Casa Branca.

O vice-presidente dos EUA, JD Vance, o secretário de Estado, Marco Rubio, o secretário da Defesa, Pete Hegseth, o secretário do Tesouro, Scott Bessent, ou o conselheiro de segurança nacional, Michael Waltz — estes eram apenas alguns dos nomes presentes no grupo criado na aplicação Signal, um serviço de mensagens encriptadas desenvolvida em código aberto.

A história é contada pelo jornalista Jeffrey Goldberg, diretor da publicação norte-americana, que relata as diferentes perceções que teve da conversa naquele grupo. Da desconfiança de poder estar a ser alvo de manipulação, à surpresa por ver oficiais de topo comunicarem sobre uma operação secreta numa plataforma aberta, passando pela incredulidade de ninguém, aparentemente, ter reparado na sua presença naquele grupo.

Tudo começou no dia 11 de março, quando o jornalista recebeu um pedido de contacto de Michael Waltz. Apesar de já ter contactado anteriormente com o conselheiro de segurança nacional, Jeffrey Goldberg mostrou-se cético de que se tratasse do verdadeiro Michael Waltz, face à relação tensa da atual administração americana com diversos meios de comunicação.

Dois dias depois, na quinta-feira, dia 13, pelas 16h28 (hora local de Washington), o diretor da The Atlantic recebeu uma notificação de que tinha sido adicionado a um grupo naquela plataforma sobre os houthis. Logo a seguir, uma mensagem de Michael Waltz a todos os membros para indicarem representantes para a coordenação das operações para os próximos dias.

Dos membros da administração de Trump a outros elementos de topo da estrutura da Casa Branca, todos responderam. Jeffrey Goldberg estava por esta altura convencido de que se tratava de uma campanha de desinformação externa ou uma ação de manipulação contra a imprensa e os jornalistas.

Sexta-feira de manhã: a conversa avançou entre os membros do grupo. Michael Waltz deu várias instruções sobre os passos a seguir e JD Vance assumiu ter dúvidas sobre o ‘timing’ da operação contra os rebeldes no Iémen.

“Acho que estamos a cometer um erro”, lê-se numa das mensagens do vice-presidente, que acrescentou: “3% do comércio dos EUA passa pelo Suez. 40 por cento do comércio europeu passa por lá. Há um risco real de que o público não compreenda isto ou porque é que é necessário”.

JD Vance admitiu ainda não ter a certeza de que Donald Trump estivesse “consciente da incoerência desta atitude com a sua mensagem sobre a Europa neste momento”, alertando também para uma possível subida dos preços do petróleo. Contudo, mostrou-se disponível para guardar as suas reservas sobre a operação e apoiar os responsáveis.

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Pete Hegseth interveio então e partilhou o seu desdém por uma iniciativa americana sobre os houthis poder ter ganhos mais significativos para o comércio europeu do que para os EUA. Ainda assim, lembrou que ainda havia uma janela de 24 horas para o Presidente americano tomar uma decisão.

Um outro membro, “S M”, que se crê ser Stephen Miller, chefe de gabinete adjunto e conselheiro para a segurança interna, tomou a palavra e sinalizou que um ataque era consentâneo com a orientação de Trump para aquele tema, sobretudo face às críticas de inação com que a atual administração visou Joe Biden nesta matéria.

Hegseth subscreveu a última mensagem e, assim, estava aberto o caminho para os ataques que iriam decorrer no sábado. Às 11h44 desse dia 15, o secretário da Defesa enviou os detalhes dos ataques que foram concretizados, sensivelmente, duas horas depois. Em poucos minutos sucederam-se as mensagens de felicitações com emojis de diferentes responsáveis daquele grupo de chat, sempre com Jeffrey Goldberg a ‘assistir’ em silêncio à conversa.

Depois desta sequência e dos ataques, o jornalista da The Atlantic acabou por deixar o grupo. Ninguém expressou uma reação ao ver a notificação da sua saída do grupo. Esta segunda-feira, Goldberg contactou diferentes elementos do grupo, como Michael Waltz e Pete Hegseth, entre outros, e enviou uma série de questões. As respostas viriam duas horas depois, pela mão de Brian Hughes, porta-voz do Conselho de Segurança Nacional.

Esta parece ser uma cadeia de mensagens autêntica, e estamos a analisar a forma como um número inadvertido foi adicionado à cadeia“, respondeu.

O caso pode ainda suscitar problemas jurídicos para os membros do grupo, nomeadamente Hegseth ou Waltz, face à troca de informação confidencial numa plataforma não licenciada pelas autoridades americanas para comunicações internas oficiais.

Entretanto, Donald Trump já reagiu e declarou desconhecer este caso. “Não sei nada sobre isso”, garantiu o Presidente norte-americano aos jornalistas nesta segunda-feira, na sala Roosevelt, quando foi questionado sobre o artigo da revista.

“Não sou um grande fã da Atlantic. Para mim, é uma revista que está a desaparecer. Acho que não é uma grande revista. Mas não sei nada sobre ela”, concluiu.

Secretário da Defesa ataca jornalista e nega partilha de planos de ataque

Pete Hegseth foi o primeiro dos visados no grupo de chat a quebrar publicamente o silêncio sobre o caso da inclusão de um jornalista num grupo de conversação na aplicação Signal e procurou descredibilizar o relato feito pela revista The Atlantic.

“Estamos a falar de um pseudo-jornalista enganador e altamente desacreditado que se dedicou a vender boatos”, afirmou o Secretário da Defesa.

Em declarações aos jornalistas após aterrar no Hawaii, Pete Hegseth não abordou o conteúdo das mensagens trocadas, mas deixou uma garantia: “Ninguém estava a enviar mensagens de texto com planos de guerra, e é tudo o que tenho a dizer sobre isso”.

(Notícia atualizada às 00h15 de terça-feira com as declarações de Pete Hegseth)