Foi um “confronto de projetos” e tanto o líder da AD como o da CDU tudo fizeram para que isso ficasse bem vincado. Luís Montenegro ainda tentou aproveitar a divisão de águas para pôr também o líder do PS na margem de lá, ao lado do PCP — mesmo que Pedro Nuno Santos não estivesse neste debate.

Foi o primeiro frente-a-frente dos 28 que estão alinhados para as próximas semanas, com os dois líderes políticos mais apostados em falar para os seus eleitorados, do que em tentar entrar no outro lado — ainda que Montenegro tenha recorrido à ironia para dizer que “é cada vez mais difícil para um comunista não votar” na AD, tendo em conta os aumentos das pensões e salários.

No entanto, foi a divisão que mais saltou à vista, sobretudo no confronto sobre o IRC, com Paulo Raimundo a trazer o assunto para cima da mesa para marcar diferenças e dizer que a redução que a AD aprovou, com a anuência do PS, “pagaria uma rede pública de creches”. “É um problema de opções”, disse para se separar dessa linha: “Há um confronto entre dois projetos”.

Montenegro nem hesitou e concordou de imediato com o distanciamento, aproveitando a deixa para dizer que “o PS pensa como o PCP”, apontando o exemplo do IRC. E disse a Raimundo que a medida de redução do imposto para as empresas só retiraria receita se ela “fosse estanque”: “Apesar da taxa baixar, a capacidade de arrecadar receita aumenta”, garantiu. Mas para o comunista, a questão central era a da desigualdade com que são taxadas as grandes empresas.

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Na Saúde, a linha que os dividiu continuou a estar vincada, com Raimundo a atirar ao “negócio” com os privados, que acusa o Governo da AD de pretender estimular no sector. Já Montenegro contestou e puxou pelas medidas de valorização das carreiras dos profissionais de saúde, o aumento do investimento público e a diminuição dos tempos de resposta nas consultas e cirurgias. Ainda assim, assumiu que “está por cumprir” a promessa de ter todos os utentes com médico de família.

A Defesa também contribuiu para o cavar do fosso entre as partes, com Raimundo a ser o primeiro a falar do tema e a tentar evitar, logo à cabeça, acusações sensíveis sobre de que lado está o PCP nos conflitos em curso, nomeadamente na Ucrânia. Evitou que a conversa fosse por aqui ao defender que “investir recursos públicos na guerra não é nenhuma necessidade do país”: “Não precisamos nada disso. Não precisamos de construir armas, nem bombas, mas de medicamentos e comboios”.

Já Luís Montenegro, não deixou de tocar no nervo comunista e disse que “quando apoiamos a Ucrânia, apoiámos a defesa dos Direitos Humanos, a integridade de um território europeu. Estamos a apoiar a democracia”. Depois garantiu: “Não trocamos as políticas sociais por investimento em Defesa. São duas coisas cumulativas.”

A sensibilidade maior para Montenegro era — já se sabe — o caso Spinumviva e ouviu Raimundo repetir por diversas vezes a ideia de que o que teria sido “nobre” era o primeiro-ministro ter-se demitido. Montenegro ainda admitiu ser “normal” que o PCP tenha dúvidas, mas Raimundo disse que não tem, tem antes a “certeza” da existência de incompatibilidades”. Neste tema, Montenegro foi apostando em deixar três garantais a quem os via: cumpriu “todas as obrigações”, “não há nenhuma incompatibilidade”, teve “zero benefícios da empresa” desde que lidera o PSD.

Diálogo mais revelador:

Paulo Raimundo: Qual foi a consequência da baixa do IRC na vida de quem trabalha?. É pai. Eu sou pai. Os filhos dos portugueses chegam a casa com 774 euros de salário, que é o líquido do salário mínimo.

Luís Montenegro: IRS Jovem, isenção de IMT…

Paulo Raimundo: Já que falou dos dados do IRC, qual o valor da taxa efetiva paga pelas grandes empresas? 18,5? Então acha que isto é assim?

Luís Montenegro: 63% do IRC é pago pelas pequenas e médias empresas.

Paulo Raimundo: A baixa do IRC que PSD, CDS e PS viabilizaram permitia uma rede pública de creches. Isto é um problema de opções. Temos um confronto entre dois projetos. É uma questão de fundo.

Luís Montenegro: É verdade. Consigo e com o PS, que pensa exatamente como Paulo Raimundo.

Paulo Raimundo: Não traga para aqui o PS. Terá oportunidade de bater a sua propaganda com a do PS. Mas não o traga para este debate que não lhe fica bem.

Luís Montenegro: Mas nesse particular pensam o mesmo e, se me permite, a resposta é para os dois.

Paulo Raimundo: Não lhe permito. Vai fazer contar a minha vontade.

Luís Montenegro: Mas a resposta é válida para o mesmo efeito: a consequência de ter baixado o IRC, de ter aumentado os rendimentos do trabalho e valorizado carreiras é libertar liquidez nas empresas para investirem em tecnologia, equipamento e salários.

Paulo Raimundo: Sempre amanhã, sempre amanhã. Num dia que há-de vir.