O nome No Mercy, em português “Sem piedade”, é indicativo da premissa de um jogo que encoraja os protagonistas masculinos a tornarem-se no “pior pesadelo das mulheres” e a “nunca aceitarem um não como resposta”. Lançado a 22 de março pela empresa Zerat Games e disponível até quinta-feira numa das maiores distribuidoras mundiais de videojogos, a Steam, o jogo tem gerado polémica e foi removido em alguns países, após algumas notícias. Em Portugal continuava disponível até há poucas horas, mediante um pagamento de 11,79 euros, mas esta sexta-feira já não. “Este produto já não está disponível no teu idioma local”, lê-se na página.
“Tomámos a decisão de retirar o No Mercy da Steam”, lê-se num comunicado da Zerat Games, responsável pela criação disponibilizada na Steam. No comunicado, a Zerat pede desculpas a quem considera que “o jogo não devia ter sido criado”, solicitando maior abertura “aos fetiches humanos que não prejudicam ninguém, mesmo que te pareçam nojentos”. “Isto continua a ser apenas um jogo e, embora muitas pessoas estejam a tentar transformá-lo em algo mais, continua a ser e continuará a ser um jogo”, acrescentam.
Na descrição do jogo, numa página onde constam imagens pornográficas explícitas, os criadores avisam que contém “sexo e violência, linguagem adulta, nudez, representações gráficas de atividades sexuais orais, vaginais e outras”, bem como “incesto, chantagem, sexo não consensual inevitável” e “consumo de drogas, álcool e cigarros”. O No Mercy é indicado para jogadores maiores de 18 anos, mas pode não ser difícil que menores consigam ter acesso (se adulterarem a idade na conta da Steam).
O Reino Unido é um dos países que já removeu o título. Ainda antes dessa decisão ser tornada oficial, o ministro da Tecnologia, Peter Kyle, já tinha descrito o jogo como “profundamente preocupante”. “Esperamos que cada uma dessas empresas [tecnológicas] remova o conteúdo o mais rápido possível depois de ter conhecimento dele. É o que a lei exige, é o que eu exijo enquanto ministro, e é certamente o que esperamos das plataformas que operam e têm o privilégio de aceder à sociedade britânica e à economia britânica, façam”, tinha avisado o governante, citado pela rádio LBC. Na Austrália e no Canadá, o No Mercy também já não está disponível para download.
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Nos Estados Unidos, o Centro Nacional de Exploração Sexual (National Center on Sexual Exploitation, no nome original) foi um dos primeiros a reagir e a condenar “veementemente” o jogo. Em comunicado, a organização pediu à Steam para remover o título e alertou que a “violência sexual não é um jogo — é uma realidade grave que devasta vidas”. “Plataformas como a Steam têm de deixar de lucrar com conteúdos que não só glorificam o abuso e a exploração, como também os encorajam”, afirmou Haley McNamara, uma das responsáveis do centro, que é citada na nota divulgada esta quarta-feira.
Em Portugal, o humorista Nuno Markl foi uma das vozes que se insurgiu ao criticar a Steam por aceitar “vender um jogo independente manhoso, grotesco, cujo objetivo é, exclusivamente, abusar do máximo de personagens femininas”. “Percebemos uma vez mais o quão desigual é este braço de ferro que temos de fazer com o mundo para que os miúdos não se tornem psicopatas”, escreveu, na rede social Instagram.
“Juro-vos: nunca pensei viver para ver este estado das coisas. Machismo e misoginia sempre houve. Mas agora é trendy, comercializável, nem que acabe em violência e morte. Isto é uma distopia criada por homens de merda para formar novos homens de m****. Rapazes querem ser Homens a sério? Sejam contra isto. Ser a favor disto é ser mais fraco que um inseto”, defendeu Nuno Markl.
Esta não é a primeira vez que a Steam vê o seu nome envolvido em polémica por permitir a venda de jogos que têm conteúdos sexualmente explícitos e/ou promovam a violência contra as mulheres. Em 2019, a plataforma teve de cancelar a distribuição de um jogo chamado Rape Day, que permitia matar e abusar sexualmente de mulheres durante um apocalipse zombie, após petições online exigirem que fosse banido.
Segundo a BBC, a Valve, empresa que detém a Steam, disse que removeu o jogo por apresentar “custos e riscos desconhecidos”. Ao contrário do que aconteceu nessa altura, a firma ainda não emitiu qualquer comunicado ou decisão sobre o No Mercy, nem tem respondido a pedidos de comentário apresentados pela imprensa internacional.
Movimento Democrático de Mulheres faz queixa junto do Ministério Público
Já depois de o jogo ter deixado de estar disponível, o Movimento Democrático de Mulheres (MDM) anunciou que vai apresentar queixa ao Ministério Público e junto da Comissão para a Igualdade de Género contra os autores do videojogo que, defende, “promove a violência sexual e misoginia” e exige, por isso, que as plataformas tecnológicas sejam responsabilizadas.
Nesse sentido, o MDM “avança com a participação (…) com vista à responsabilização dos autores e à salvaguarda dos direitos fundamentais das mulheres”.
Sustenta que o conteúdo do videojogo constitui “uma grave incitação à violência contra as mulheres, normalizando práticas de ódio e discriminação que violam princípios constitucionais e legais fundamentais”.
“A existência de jogos como “No Mercy”, recentemente disponível na plataforma “Steam”, é reveladora de uma cultura que alimenta e normaliza a violência sexual contra as mulheres e raparigas, e com ela lucra economicamente”.
Na opinião do MDM, o mundo vive atualmente “num sistema económico que transforma tudo em lucro” e que “não hesita em disseminar conceções que objetificam, mercantilizam e violentam as mulheres, ignorando e violando valores e direitos humanos fundamentais”.
“O referido ‘jogo’, apesar de não usar a palavra ‘violação’ de forma explícita, constrói uma narrativa centrada na coação, na promoção da violação e na objetificação violenta das personagens femininas. Frases como ‘nunca aceites um não como resposta’ e ‘torna-te no pior pesadelo de qualquer mulher’ são suficientes para compreender a gravidade deste conteúdo profundamente misógino”, apontou o MDM.
A associação refere que não é caso único e que esta lógica de lucro através da promoção da violência sexual “alimenta o lucro de plataformas tecnológicas”, atacando a integridade, dignidade e segurança das mulheres.
“É preciso deixar de compactuar com os gigantes tecnológicos. Quem promove, aloja ou lucra com conteúdos que alimentam a violência contra as mulheres deve ser responsabilizado, sem exceções”, defende o MDM.
Acrescenta que só a indignação não basta e defende, por isso, que as entidades competentes tomem as medidas adequadas para interromper a proliferação de conteúdos que promovem e banalizam a violência contra as mulheres.
Querem também a responsabilização das plataformas digitais que alojam, divulgam e lucram com este tipo de conteúdos, e uma resposta institucional firme, que proteja as raparigas e mulheres.