Melhor urdidor que qualquer Nobel, o destino do autor de A Civilização do Espectáculo haveria de surpreender tudo e todos alguns anos depois da sua radiografia duríssima dos tempos, desnorteando os melhores discípulos de Ortega y Gasset ou Guy Debord, colocando o gigante das letras a medir forças com títulos garrafais. “A crescente banalização da arte e da literatura, o triunfo do sensacionalismo na imprensa e a frivolidade da política são sintomas de um mal maior que aflige a sociedade contemporânea: a ideia suicida de que o único propósito da vida é se divertir.”, escrevia em 2009 Mario Vargas Llosa, ele próprio um permanente repórter que gostava de espremer todas os cantos da vida.
Até que um dia o seu caminho se voltou a cruzar com o da mulher mais fotografada de Espanha e todos os corredores das redações e academias desembocaram nas páginas da ¡HOLA!, para uma peculiar defesa da tese. No verão de 2015, o magnus opus do social enceta um conjunto de capas que haveria de dar o tom para os tempos seguintes e alimentar todos os estratos, entretidos com o sumo da mundanidade. O vínculo afetivo entre o escritor, então com 79 anos, e Isabel Preysler, de 64, começava a ser destapado na edição de dia 17 de junho, à boleia de um evento da Porcelanosa em solo britânico que tinha o então príncipe de Gales como anfitrião, pouco depois da publicação de umas fotos que ilustravam um romântico almoço em Madrid, e adensavam os rumores, tão cara expressão às revistas da especialidade.
Uma semana depois, chegava por fim a confirmação em exclusivo sobre o mais recente par. De uma lado, a socialite de origem filipina a quem a história moderna reservou a cátedra de “rainha dos corações”. Do outro o discreto e erudito peruano que saltava para a linha da frente do protagonismo mediático. Em julho daquele ano, Lisboa foi o destino escolhido para extinguir dúvidas e incendiar ainda mais as crónicas do social, quando surgiram de mãos dadas na festa do 80.º aniversário do empresário português e então presidente da Câmara do Comércio, João Flores. “É verdade que nos tornámos inseparáveis, e não podemos perder nem mais um minuto”, confessaria Preysler, que segundo a Caras esbanjou glamour com o seu macacão branco.
Mais do que o estrondo, a relação com a celebridade, que ficara viúva há alguns meses, acendia polémica, desde logo no seio do clã Llosa, que garantia que à época da revelação do caso Mario era ainda casado com Patricia Llosa, a prima direita a quem se unira em segundas núpcias cinco décadas antes. Nem de propósito, teriam inclusivamente acabado de celebrar as bodas de ouro quando o escritor e Preysler se cruzaram no Reino Unido, trinta anos depois de se terem conhecido — em 1986, a modelo Isabel entrevistava Mario Vargas Llosa, evidência cabal de que a melhor ficção consegue ser sempre mais débil que a pior realidade. “Eu vi o Mario pela primeira vez em St. Louis, Missouri, quando o entrevistei para ¡HOLA! A partir daí, eu e o Miguel [seu então marido] estabelecemos uma boa amizade com o Mário e a sua mulher, que se manteve durante todos estes anos.”, contou a própria Londres, no jantar da Porcelanosa a que compareceu como convidada do futuro rei Carlos III.
O casal nos Prémios Goya, em 2016
De volta a julho de 2015, Gonzalo Vargas Llosa defendia ao ABC que a relação do seu pai com Isabel Preysler era “uma relação que nasceu de uma infidelidade”. Um dos filhos lamentava ainda o “exibicionismo desnecessário” que circundava a relação, cuja responsabilidade atribuía aos “fortes interesses económicos” em redor do caso. Apenas o mais velhos dos três filhos do autor de Conversa na Catedral surgia em público a apoiar a decisão paterna. Num comunicado publicado após uma entrevista que deu à televisão espanhola Mediaset (que escreveu por achar que a entrevista “é um resumo incompleto do que disse”), Alvaro manifestava o seu apoio não apenas à mãe mas também ao pai: “O meu pai falou comigo, explicou-me a situação e eu disse-lhe que respeitava muito a sua decisão. Ele foi, como sempre, muito honesto connosco”, podia ler-se no comunicado. E acrescentava: “Respeito profundamente a sua decisão, exatamente como respeitaria a decisão da minha mãe se ela decidisse refazer a sua vida com outra pessoa”. Aliás, quando as primeiras capas vieram a lume já a prole de Vargas Llosa estaria a par do affair extraconjugal.
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Do lado de Preysler, que ficara viúva do ex-ministro Miguel Boyer há poucos meses, a paz também não terá reinado de forma absoluta, sobretudo no que tocava à filha em comum, Ana. Os restantes quatro filhos de Isabel resultam de anteriores casamentos com o cantor romântico Júlio Iglésias e o marquês Carlos Falcó — Tamara Falcó, aliás, outra presença assíduas nas revistas cor de rosa sempre falou do carinho e da proximidade mantida com Mario, que apoiara até a sua participação no reality show Masterchef Celebridades.
Isabel, Mario e Tamara Falcó em 2017, no Teatro Real, em Madrid.
Nada travou a progressão do novo casal, que pouco a pouco foi exibindo com cada vez mais naturalidade a sua ligação. Após várias capas de passeios e planos juntos, além da confirmação do escritor da sua separação de Patricia Llosa, os protagonistas posavam com pompa para a ¡HOLA!, numa extensa reportagem do casal em Nova Iorque, onde se tinha realizado outra festa da Porcelanosa. “Estamos muito seguros de decisão que tomámos”.
Vargas Llosa mudara-se inicialmente para um dos apartamentos do hotel Eurobuilding, e em pouco tempo para a mansão de Isabel em Puerta de Hierro, onde segundo o El Mundo se perdeu também de amores pela biblioteca. Entre o Teatro Real e a praça de touros de Las Ventas, os pararazzi tiveram matéria de sobre nas semanas e meses seguintes. Junte-se as viagens do casal pelo sudoeste asiático, EUA, América do Sul e inúmeros destinos europeus.
Em 2016, numa corrida de touros em Las Ventas, em Madrid
Em 2016, o Nobel da Literatura de 2010 ficava formalmente divorciado de Patricia, enquanto as revistas abriam espaço para o possível novo matrimónio, renovando-se e multiplicando-se as primeiras páginas à medida que as campainhas soavam (apesar de tal nunca ter chegado a concretizar-se). Recatado nas suas intervenção sobre Preysler, Vargas Llosa abriu uma rara exceção dez anos depois do galardão concedido pela academia sueca, numa homenagem do Instituto Cervantes. “Quero agradecer a Isabel, a sua companhia, a sua presença, aqueles anos maravilhosos que ela me fez passar ao seu lado e que renovaram muito em mim aquela vocação que eu acho que é a melhor coisa que me aconteceu na vida. Muito obrigada, Isabel”, confessou.
Em outubro de 2022, numa das últimas imagens juntos
“Eu estava muito apaixonado por Isabel. Mas digamos que esse mundo não era o meu mundo”, diria anos mais tarde o famoso romancista ao jornal espanhol El Mundo numa entrevista no rescaldo do controverso conto Los Vientos, que o obrigou a negar que tivesse querido ridicularizar a sua ex-companheira numa passagem do texto, protagonizado por um homem mais velho amargurado com o presente e por ter deixado uma namorada de infância, Carmencita (associada a Patricia Llosa, que se casou com o escritor quando tinha apenas 18 anos), por uma explosão sexual “violenta e temporária” da qual ele se teria até esquecido do nome, o que as más línguas logo associaram a Isabel Preysler.
Coube à omnipresente ¡HOLA!, anunciar o desenlace, ao fim de quase oito anos de convivência, no último mês de 2022. “O Mario e eu decidimos por fim à nossa relação definitivamente”, confirmava a própria Preysler à publicação. “Não quero prestar nenhuma declaração, mas agradeço aos amigos e aos meios de comunicação que nos ajudem com esta decisão”, contava ao telefone com publicação. A revista espanhola dava ainda conta de que “os últimos meses não foram fáceis” e os seus diferentes trabalhos estariam na origem das dificuldades na convivência de ambos, segundo fontes próximas. Mas o enredo não ficava por aqui. O escritor deixara a casa da companheira em meados de dezembro “depois de uma cena de ciúmes infundados”, para se instalar no apartamento que mantinha na capital espanhola, perto das Portas do Sol. De acordo com a Vanity Fair, as discussões seriam diárias. “Não valia a pena continuar a apostar numa relação que não tem futuro e em que nenhum dos dois é feliz”, acrescentou Isabel.
Naquele mesmo ano, o escritor nascido em Arequipa, em 1936, instalou-se no Peru, e a ficção voltou a perder o duelo quando retomou a relação com a ex-mulher Patricia. Terá mantido notável atividade intelectual até aos últimos anos e ao progressivo esboroar da saúde. A 28 de março, o derradeiro aniversário foi assinalado em privado, tais como quaisquer detalhes sobre os seus momentos finais. Morreu esta segunda-feira, aos 89 anos, em Lima. Isabel Preysler soube da notícia rodeada pela família.