André Ventura entrou no debate a disparar temas que pudessem encostar Pedro Nuno Santos às cordas no seu tempo no Governo e o líder do PS fez tudo pela contenção e por “ouvir em silêncio”. Irritam-se mutuamente, assumiram-no, mas saíram do debate nessa mesma crispação, mesmo quando o tema já apontava a Luís Montenegro.

Desentenderam-se em tudo e Ventura foi carregado para atirar à TAP, à CP e a Hugo Mendes — até por duas vezes — que Pedro Nuno Santos traz para a lista de deputados depois de o seu antigo secretário de Estado ter estado no olho do furacão da polémica indemnização a Alexandra Reis. Mas o líder do Chega foi além e trouxe também para o frente-a-frente contradições entre o Pedro Nuno que fez parte de governos socialistas que foram contra a redução do Imposto Único de Circulação (IUC) ou do IVA Zero mais tempo e o Pedro Nuno líder do PS que agora apresenta um programa com estas duas medidas à cabeça. “Eleitoralismo”, atirou Ventura que acusou o socialista de avançar com estas medidas por estar à beira de eleições.

O socialista refugiou-se num “as posições do PS vão-se ajustando“. Lembrou que a sua “primeira medida” como líder do PS “foi recuar no aumento do IUC”, já que “muitos portugueses dependem do carro para trabalhar”. Mas Ventura mostrava-se pouco convencido pelo “homem novo”, comparando a situação de Pedro Nuno a uma conversão — recorreu mesmo ao perseguidor de cristãos que virou um dos apóstolos: “Isto não é São Paulo, caiu do cavalo e viu a luz.” Pegava no “herdeiro” e tentava atirá-lo contra Costa, mas o socialista foi resistindo, reconhecendo que os governos socialistas “fizeram coisas importantes”, mas “há problemas que ficaram por resolver”.

A inversão do PS no IUC ocupou boa parte do frente-a-frente, com Ventura a assumir-se “irritado” e Pedro Nuno a aconselhá-lo: “Mas tem de aguentar, a mim também me irrita muita coisa que o André Ventura diz, mas tenho de ter a maturidade suficiente para o ouvir em silêncio” (ver o diálogo completo mais abaixo neste artigo) — a tentar contrariar a imagem de “impulsivo” que tem colada à pele por vários episódios políticos do seu passado (a localização do aeroporto de Lisboa é uma delas).

Voltou a ser intenso o debate na imigração. André Ventura foi pelo chega para lá ao PS, para o lado esquerda, num tema em que Pedro Nuno tem procurado recentrar o partido. O líder do Chega começou por culpar o PS por ter acabado com a polícia de fronteira, o SEF, e atirou: “Não é Pedro Nuno Santos, Mariana Mortágua ou Paulo Raimundo que vão defender as fronteiras com cravos.” Acabou a defender a expulsão para quem comete crimes, associando imigrantes a essas práticas. Pedro Nuno pegou na tirada para a virar contra Ventura, que acusou de querer expulsar “sem garantir que cumpram pena” pelo crime cometido.

O socialista chegou a sublinhar duas vezes uma frase que bem podia ter vindo do lado de lá da mesa: “Eu quero garantir que quem cometa um crime em Portugal cumpra pena.” Isto para tentar puxar o tapete que é base do discurso de Ventura desde sempre, acusando-o de achar que os imigrantes que cometem crimes “devem ser expulsos mas sem garantir que cumpram pena lá fora. Eu quero que quem cometa um crime em Portugal cumpra pena”, repetiu, assumindo que a expulsão poderia ser aplicada depois, como pena acessória.

Por fim, a questão da ética, que podia descrispar o ambiente entre os dois e intensificá-lo para o lado de Luís Montenegro, mas nem por isso. Ventura ainda começou pelo atual primeiro-ministro, ao dizer que não aceita “que haja primeiros-ministros a enriquecer sem percebermos como”, mas depois tocou no socialista José Sócrates e rapidamente saltou para Hugo Mendes: “Pugnar pela ética e meter Hugo Mendes, o secretário de Estado da famosa indemnização da TAP nas listas do PS, é dar um péssimo exemplo de ética e transparência.”

A última palavra era para Pedro Nuno Santos que trazia a linha preparada, de ataque aos casos da bancada do Chega e de acusação a Ventura por “não ter autoridade moral” para falar, nomeadamente por manter Cristina Rodrigues nas listas de deputados. Do outro lado Ventura mostrava-lhe uma resma de folhas que dizia serem a “lista de casos do PS na Justiça”. Pedro Nuno respondeu-lhe que “a bancada com mais problemas na justiça no Parlamento é a do Chega. Não tem autoridade moral. Não tem autoridade moral nenhuma”. Enquanto Ventura foi disparando acusações avulso até a moderadora dar o apito final.

Diálogo revelador

Pedro Nuno Santos: Sobre o IUC, muito antes de pensar em eleições, fui contra o seu aumento logo quando fui eleito secretário-geral do PS.

André Ventura: Mas fazia parte do Governo.

Pedro Nuno Santos: As nossas propostas, diz André Ventura, são para distribuir por quem não quer fazer nada? A questão do IVA nos bens essenciais, no carne, no peixe, no pão… é para quem não quer fazer nada?

André Ventura: No RSI, para quem não quer pagar nada.

Pedro Nuno Santos: É para as famílias que trabalham, que enfrentam um custo de vida elevado. Quando reduzimos o IUC é para quem usa o carro.

André Ventura: Mas vocês quiseram aumentá-lo em 2023. Está-me a irritar porque tenho aqui mesmo à frente [nos papéis].

Pedro Nuno Santos: Não pode estar sempre a interromper, por falta de respeito não só para comigo e com a Sara [moderadora], é para quem nos está a ver.

André Ventura: Irrita-me, irrita-me. Debater com o PS irrita.

Pedro Nuno Santos: Mas tem de aguentar, a mim também me irrita muita coisa que o André Ventura diz, mas tenho de ter a maturidade suficiente para o ouvir em silêncio.

André Ventura: Mas custa, são 50 anos a levar convosco.