As contas ainda não estão todas feitas, mas os produtores do setor agroalimentar já sabem que a fatura do apagão não será baixa. Sobretudo nos setores da carne e dos laticínios, onde as associações antecipam perdas “avultadas”. Uma vez que os sistemas são todos automatizados e dependentes de frio, a falha prolongada de energia teve consequências para as empresas, mesmo para as que têm geradores. O resultado: toneladas de carne e de laticínios para o lixo.
Esta terça-feira, Rafael Alves Rocha, diretor-geral da CIP, já antecipava os estragos do setor agroalimentar em resposta ao Observador, com setores a sofrerem “bastante com a longa paragem das linhas de produção, nomeadamente no que concerne aos produtos perecíveis”, precisamente o leite e a carne.
No setor dos laticínios, as primeiras contas apontam para prejuízos na ordem dos três milhões de euros, avança ao Observador o presidente da Fenalac (Federação Nacional das Uniões das Cooperativas de Leite e Lacticínios). “O que aconteceu foi um estrangulamento da cadeia de frio, que originou uma falta de capacidade de armazenamento dos produtores, falta de capacidade de recolha das cooperativas e falta de capacidade para dar escoamento e de transformação das fábricas”, explica Idalino Leão.
No setor da carne ainda só há estimativas iniciais, que apontam para perdas avultadas, diz ao Observador Graça Mariano, diretora-executiva da Associação Portuguesa dos Industriais de Carnes (APIC). A associação enviou esta terça-feira um email às 121 empresas associadas, que têm 43 matadouros, para aferir as perdas de cada uma. Segundo a informação recolhida até ao início da tarde desta quarta-feira pela APIC, os prejuízos deverão atingir, no máximo, cerca de sete milhões de euros. Entre as 58 maiores empresas da indústria da carne, estimam-se que cada uma terá registado prejuízos entre 50 mil a 100 mil euros. Já as 63 PME do setor representadas pela APIC antecipam perdas, em cada empresa, entre 10 mil a 20 mil euros.
Graça Mariano dá uma ideia do que aconteceu nas empresas. “Está tudo automatizado” nas linhas dos matadouros, que podem demorar até meia hora a completar todas as etapas de um abate. “Se há uma avaria e os animais já estão na linha, têm de ser rejeitados”, explica. E foi isso que aconteceu em muitos casos.
“Alguns matadouros tinham geradores e outros não”, admite Graça Mariano. “Mesmo quem tinha gastou balúrdios em combustível”. Além dos matadouros, “nas salas de produção dos enchidos as máquinas são todas elétricas” e “os produtos que não puderam ser confecionados e que já estavam na sala também ficaram estragados”. E nas empresas que não têm matadouros “o prejuízo deu-se porque as salas de desmanche precisam de frio, são empresas que consomem muita energia”. Um gerador, aponta, chega a custar 80 mil euros.
A APIC aponta ainda outras causas dos prejuízos. É preciso contar “o dia de trabalho para empresas que têm 200 ou 300 funcionários, que tiveram um dia perdido”. Para compensar, “tiveram de aumentar um dia de abate, que vai calhar no feriado, pelo que vão ter de pagar horas extra, e para isso é preciso que os funcionários queiram”. A última etapa da cadeia também poderá significar perdas para as quais ainda é preciso fazer contas. “Os supermercados estavam à espera da carne e não receberam, e têm contratos que exigem entregas… quando o matadouro não fornece a carne ou a sala de desmanche não fornece as peças já cortadas, ou a indústria dos transformados não fornece os enchidos, há contrapartidas” que têm de ser pagas. “Há várias formas de perdas económicas graves”, resume Graça Mariano.
No leite, a cadeia é menos complexa, mas nem por isso as empresas foram menos castigadas pelo apagão. As empresas trabalham em regime de laboração contínua, 24 horas por dia, e são grandes consumidoras de energia porque dependem muito da refrigeração. “Estamos a fazer um grande esforço” de logística, diz Idalino Leão, “para minimizar os prejuízos”. Nomeadamente para tentar salvar algum leite que está ordenhado e armazenado nas quintas dos agricultores. “Temos a nossa frota toda mobilizada para garantir a recolha desse leite para ser entregue nas fábricas”.
Mas houve mesmo casos em que os produtores tiveram de deitar o leite fora porque não tinham condições de armazenamento, lamenta. Em alguns casos, não foi sequer possível fazer ordenhas. Entre os três milhões de prejuízo a Fenalac contabiliza o leite que foi deitado fora, a redução dos indicadores de qualidade, as despesas com alugueres de contentores de refrigeração e o trabalho extra de colaboradores.
▲ Os produtores de leite e laticínios estimam perdas de três milhões de euros na sequência do apagão.
JOSÉ COELHO/LUSA
“Todas as empresas têm planos de contingência, mas ninguém estava à espera de um apagão desta magnitude, o que prova que enquanto sociedade não estamos preparados para uma coisa destas”, sublinha o responsável da Fenalac, que tem cerca de 1.100 produtores associados e representa cerca de 70% da recolha de leite no continente. “Ainda estamos a recuperar, julgo que até ao final do dia desta quarta-feira conseguiremos recuperar a normalidade da recolha e da lavoração do leite [processo que vai da extração à transformação do leite]. Foi muito tempo”, sem energia.
Assim que retomaram as comunicações, federação uniu esforços e criou um grupo de crise para resolver a recolha e a transformação do leite, revela Idalino Leão ao Observador. Numa segunda fase de balanço e já com os custos apurados, os produtores esperam “sensibilidade” por parte da tutela, o Ministério da Agricultura.
“Esperamos que encontre mecanismos para minimizar estas perdas e, numa noutra fase, que sejam criadas medidas de investimento que posicionem o setor para eventuais casos semelhantes, para evitar novos constrangimentos”. Idalino Leão aponta a necessidade, a médio prazo, da criação de um “parque de frio mais capaz, mais moderno que possa minimizar este tipo de acontecimentos no futuro”.
Já esta quarta-feira, em visita à Ovibeja, o ministro da Agricultura reconheceu as perdas no setor do leite, “por causa da falha de eletricidade e da necessidade de frio”, mas afirmou que no geral “não há um grande prejuízo”. Porém, olhando caso a caso, “pode haver casos em que possa colocar em dificuldade uma pequena e média empresa ou até uma empresa”, reconheceu José Manuel Fernandes em declarações à Lusa.
O ministro não se comprometeu com a atribuição de apoios, até porque o Governo está em gestão. “Temos sempre o objetivo de ajudar. Quando há fundos europeus disponíveis, utilizá-los, e, se necessário, utilizar o Orçamento do Estado e fazê-lo também de uma forma em que não pode haver duplicação e de uma forma absolutamente transparente”, concluiu.