O Instituto Nacional de Estatística (INE) trabalha com “calendários rigorosos, pré-anunciados e muito apertados”, pelo que o apagão elétrico, que tornou impossível o trabalho durante quase todo o dia de segunda-feira, obrigou a que a publicação das Contas Nacionais Trimestrais – que incluem a estimativa do PIB – não pudesse ser feita na manhã de quarta-feira, como estava originalmente previsto, mas só nesta sexta-feira. Ou seja, os dados que mostram uma contração da economia só foram publicados após o debate entre Luís Montenegro e Pedro Nuno Santos, que aconteceu na noite de quarta-feira.

O secretário-geral do Partido Socialista (PS), Pedro Nuno Santos, aproveitou de imediato a publicação dos dados do INE – que surpreenderam os economistas pela negativa – para atacar o Governo da Aliança Democrática. Logo ao final da manhã de sexta-feira – e, também, neste sábado, numa arruada em Barcelos – Pedro Nuno Santos afirmou que a contração de 0,5% da economia (em cadeia) no primeiro trimestre ilustra o “fracasso” da política económica da AD.

“Surpresa negativa”. Economia cresceu 1,6% no início do ano, em termos homólogos, mas caiu 0,5% face ao trimestre anterior

A aposta de Pedro Nuno Santos neste tema sugere que o líder do PS também teria usado esse argumento no debate da noite de quarta-feira, caso os dados tivessem sido publicados na manhã desse dia, como estava previsto. Mas devido ao apagão (que, recorde-se, levou ao adiamento do próprio debate, que era para ter acontecido na segunda-feira), Pedro Nuno Santos não teve oportunidade de confrontar Luís Montenegro sobre o indicador durante o confronto entre ambos nas televisões.

Questionado pelo Observador, o INE sustentou que “trabalha com calendários rigorosos, pré-anunciados e muito apertados para a conclusão dos diferentes produtos e respetivos apuramentos”. “O apagão, como é sabido, teve lugar na segunda-feira durante praticamente todo o dia”, nota o INE, acrescentando que “tinha calendarizados um total de nove destaques para 29 e 30 de abril”.

O indicador em questão era uma primeira estimativa (rápida) das Contas Nacionais Trimestrais. E, afirma a fonte oficial do INE, “no caso específico das estimativas rápidas, os prazos são particularmente curtos, e contam-se por dias, razão pela qual tendo perdido um dia de trabalho não foi possível terminar duas das estimativas rápidas agendadas para dia 30″. A saber: o Índice de Preços no Consumidor relativo a abril e as Contas Nacionais Trimestrais do primeiro trimestre 2025.

Nos dois casos referidos, 28 de abril constituía precisamente o dia crítico de cálculo das estimativas, uma vez que informação de elevada relevância apenas foi obtida no dia útil anterior”, remata o INE.

Na sexta-feira, o INE acabou, então, por revelar que a economia portuguesa cresceu 1,6% no primeiro trimestre de 2025, em termos homólogos, uma desaceleração face aos 2,8% (homólogos, revistos) do trimestre anterior. Na comparação em cadeia, ou seja, entre o primeiro trimestre de 2025 e o quarto trimestre de 2024, a economia desceu 0,5%.

“O contributo positivo da procura interna para a variação homóloga do PIB diminuiu no 1º trimestre, em resultado do abrandamento do consumo privado“, diz o INE a respeito da variação homóloga do produto económico nacional. Já “o contributo negativo da procura externa líquida para a variação homóloga do PIB foi mais acentuado, refletindo a desaceleração das exportações de bens e serviços”.

Na comparação em cadeia, o Produto Interno Bruto (PIB) teve uma variação negativa – 0,5% – depois de no quarto trimestre ter crescido 1,4% (também em cadeia, ou seja, em comparação com o terceiro trimestre). Relativamente a esta variação desfavorável registada em cadeia, o INE diz que “o contributo da procura externa líquida para a variação em cadeia do PIB foi negativo enquanto a procura interna registou um contributo nulo, após terem sido positivos no trimestre anterior”.

O desempenho negativo da economia portuguesa, em cadeia, é o primeiro a registar-se desde o terceiro trimestre de 2023, quando o PIB desceu 0,1% em relação ao trimestre anterior.