À terceira terá sido de vez. A investigação em Espanha às falhas na rede de transporte que provocaram o apagão da passada segunda-feira identificou um terceiro episódio 19 segundos antes do incidente elétrico que apagou a energia na Península Ibérica.

Já tinham sido apontados dois incidentes que provocaram o desligar de uma parte significativa da produção elétrica, maioritariamente solar, que estava a alimentar a rede elétrica, mas a investigação preliminar detetou uma terceira falha na injeção de energia. Segundo explicou a ministra da Transição Ecológica espanhola, Sara Aagesen, o sistema conseguiu superar com normalidade este primeiro incidente, que se veio a somar às outras duas perturbações que resultaram na queda, em 5 segundos, de uma grande parte da potência que estava a ser injetada na rede. Foi a queda abrupta do fornecimento de energia causado pelo desligar de centrais de produção no sul de Espanha que provocou o apagão total da rede de transporte que afetou Portugal.

Em entrevista à TVE, a ministra espanhola indicou ainda que as investigações ao incidente não se limitam a estudar o que aconteceu nos cinco segundos em que muitas centrais se desligaram da rede, mas está a verificar o que aconteceu antes. Até porque há registo de falhas na rede registadas horas e até dias antes do mega-evento do dia 28 de abril. A investigação em Espanha envolve mais de 750 milhões de dados registados e mantém, para já, todas as hipóteses em aberto, incluindo um ataque informático, opção que já tinha sido praticamente descartada pela Rede Elétrica de Espanha. Foram solicitados dados a mais empresas, de forma a envolver todos os operadores, distribuidores e centrais de produção com mais de 1.000 megawatts.

Em Portugal, a REN (Redes Energéticas Nacionais) já entregou um relatório preliminar sobre o apagão à ERSE (Entidade Reguladora dos Serviços Energéticos) na sexta-feira passada, mas nada se sabe sobre esta primeira averiguação. A REN tem 20 dias para entregar um levantamento mais completo onde identifique já as causas de interrupção de fornecimento e sua fundamentação, bem como consequências. Neste caso não parecem existir dúvidas de que a origem da falha veio de Espanha e entrou no sistema nacional através da interligação. Mas é preciso perceber se Portugal, que estava a importar energia na altura, poderia ter de alguma forma protegido pelo menos uma parte da sua rede do contágio, evitando a necessidade de rearrancar o sistema do zero através de duas centrais.

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Além das investigações nacionais, o apagão ibérico vai ser algo de investigações independentes por parte das autoridades europeias, num processo que será mais prolongado.

A ministra espanhola, tal como têm feito as gestoras da rede e o Governo português, procurou afastar a responsabilidade pelo apagão das energias renováveis, qualificando essa análise de “muito simplista e de ignorar todas as variáveis. A injeção de grandes quantidades de energia solar e eólica na rede elétrica tem sido associada a uma menor inércia no sistema, na medida em que os inversores que ligam esta produção à rede não geram a mesma inércia que os geradores das energias convencionais. Essa inércia ajuda a equilibrar oscilações de frequência na rede.

Portugal continua desligado, mas está a pagar mais pela energia que produz

Apesar da interligação entre os dois países estar operacional, Portugal mantém a suspensão de trocas comerciais com Espanha até pelo menos 6 de maio. O consumo nacional tem sido abastecido sobretudo a partir da produção hídrica e também solar.

Portugal está abastecer-se sem Espanha desde o apagão e no dia seguinte até pagou menos pela eletricidade

Mas apesar da capacidade de produção ser mais do que suficiente para abastecer a procura nacional, nos últimos dias os preços em Portugal têm estado sistematicamente acima dos espanhóis. Aliás, nas trocas realizadas para o dia de hoje (feitas ontem), o preço médio ficou três vezes acima do espanhol — 43,94 euros por MWh contra 10,9 euros por MW. Com a exceção do dia a seguir ao apagão, no qual Espanha foi muito conservadora na gestão das ofertas em rede, limitando o peso da energia solar, Portugal tem estado sempre a pagar mais pela energia elétrica injetada na rede sem o contributo do vizinho. Essa diferença ajuda a justificar a racionalidade económica de recorrer às importações de Espanha,