Quando o cardeal Jorge Mario Bergoglio surgiu na varanda da Basílica de São Pedro, no dia 13 de março de 2013, e se apresentou pela primeira vez como Papa Francisco, as roupas que escolheu utilizar deram logo a entender que teria um pontificado moderno. Vestido de branco com sapatos pretos e uma cruz de prata, Francisco quebrou com a tradição e fez da moda um reflexo da sua mentalidade progressista.
Passados doze anos, o novo Papa Leão XIV mostrou-se mais tradicional e apareceu à varanda com as mesmas roupas de João Paulo II ou Bento XVI. Ainda assim, as suas primeiras palavras — e o agradecimento direto a Francisco — aproximaram-no do seu antecessor. Entre o que mostrou e o que disse, Leão XIV fez da sua primeira aparição uma ponte entre as palavras modernas de Francisco e as tradições que este pôs de lado.
Batina, faixa, pellegrina e solidéu brancos
Estes elementos do traje papal foram os únicos que o Papa Francisco utilizou na sua primeira aparição na Praça de São Pedro. A batina é o traje diário dos padres que, no caso do Papa, é branca. A faixa aperta a batina à cintura, enquanto a pellegrina é o manto curto, colocado sobre os ombros, numa alusão às capas que os peregrinos utilizavam.
O solidéu é a cobertura da cabeça que também é utilizada pelos sacerdotes e que, mais uma vez, é utilizada pelo bispo de Roma na cor branca.
A mozeta e a estola vermelha bordada
Estes dois elementos são os que mais distinguem a roupa escolhida por Leão XIV do seu antecessor. O Papa Francisco surgiu apenas de branco, cor que representa a pureza espiritual. Mas a segunda cor do Papa é o vermelho, visível na mozeta e na estola bordada que os padres utilizam à volta do pescoço, que representa a responsabilidade de liderar a igreja, como “um bom pastor leva uma ovelha aos ombros”, escreve a Agência Noticiosa Católica (CNA). Já a mozeta é a capa vermelha, mais pesada, que representa a autoridade temporal do Papa.
Francisco olhava para a mozeta como um símbolo do “tradicionalismo e rigidez” de algumas fações da Igreja Católica, lembra o Washington Post, e nunca utilizou este traje. Já João Paulo II tinha uma leitura diferente, que foi herdada por Bento XVI: um símbolo da responsabilidade do cargo e a humildade e obediência às normas por parte de quem o ocupa, interpreta o Catholic Herald. Leão XIV escolheu honrar a tradição e utilizar ambos os elementos.
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A cruz peitoral
Jorge Mario Bergoglio escolheu utilizar a cruz que já possuía como arcebispo de Buenos Aires: com 10 centímetros, em prata e sem ornamentos e com uma imagem de Jesus como pastor e não crucificado, como é habitual. Esta cruz peitoral, o crucifixo que os cardeais utilizam, não podia ser mais diferente da escolha de Joseph Ratzinger: uma cruz de cerca de 15 centímetros, em prata banhada a ouro e com uma pedra preciosa verde, incrustada no centro.
A escolha de Robert Prevost é um meio termo entre as duas opções. A sua cruz é dourada, tal como a dos antecessores de Francisco, e diferente daquela que utilizou nos últimos dias no Vaticano. Contudo, é visivelmente menos ornamentada que a cruz utilizada por Bento XVI. Se a cruz for um indício do seu pontificado, poderá ser uma ponte entre duas visões diferentes da Igreja.
E os sapatos?
Nas horas após a nomeação do Papa Francisco, houve uma notícia que correu o mundo: o sul-americano tinha escolhido utilizar o seus sapatos ortopédicos pretos em vez dos sapatos de couro vermelho, que representam o sangue dos mártires, explica a CNA. O Papa Bento XVI, pelo contrário, foi sempre visto em público com estes sapatos tradicionais.
Recuando mais no tempo, João Paulo II começou por utilizar estes sapatos mas, no final do pontificado, passou a trajar com outros, mais escuros e mais simples. Também João Paulo I e Paulo VI utilizaram os sapatos vermelhos. E Leão XIV? Se as diferenças na mozeta ou na cruz foram óbvias assim que apareceu na varanda, os sapatos continuam desconhecidos. Afinal, a varanda cobriu os pés do novo Papa. Só com as próximas aparições de Leão XIV se irá descobrir se os icónicos sapatos vermelhos papais voltaram a sair da gaveta.
Notícia atualizada às 23h40 com referência à estola usada pelo Papa.