Os líderes de França, Alemanha, Reino Unido e Polónia foram a Kiev juntar a sua voz à de Volodymyr Zelensky para deixar um ultimato à Rússia: ou aceita um cessar-fogo incondicional de 30 dias na guerra com a Ucrânia ou irá enfrentar mais sanções.
Com o Presidente francês Emmanuel Macron, o chanceler alemão Friedrich Merz, o primeiro-ministro britânico Keir Starmer e o primeiro-ministro polaco Donald Tusk juntos pela primeira vez na capital ucraniana, representando quatro das maiores potências militares europeias, o líder ucraniano fez também uma chamada de cerca de 20 minutos ao Presidente dos EUA, Donald Trump, para o inteirar dos planos para o cessar-fogo.
“É evidente que o derramamento de sangue tem de acabar. A Rússia tem de parar a sua invasão ilegal”, afirmaram os líderes europeus numa declaração conjunta.
De acordo com os governantes, a paralisação das hostilidades deve começar na segunda-feira, dia 12 e prevê algumas condições, nomeadamente o fim dos combates em terra, no mar e no ar, com Macron a aludir inclusivamente a um possível envio de tropas estrangeiras para assegurar a pacificação da situação no terreno. O Presidente de França anunciou ainda que os EUA assumirão a liderança no controlo do cessar-fogo, contando com o apoio dos países europeus.
Por outro lado, os líderes europeus deixaram um aviso: caso a Rússia não aceite o acordo para o cessar-fogo, isso poderá significar um reforço das sanções, sobretudo contra os setores energético e bancário russos.
Macron, Starmer, Merz e Tusk unidos no aviso a Putin
A demonstração de apoio à Ucrânia por parte de França, Alemanha, Reino Unido e Polónia teve um objetivo cimeiro: o aumento da pressão sobre Vladimir Putin, na sequência do desafio lançado antes por Donald Trump na sua plataforma Truth Social.
“Se ele [Putin] virar as costas à paz, responderemos, trabalhando com o Presidente Trump, com todos os nossos parceiros, reforçaremos as sanções e aumentaremos a nossa ajuda militar à defesa da Ucrânia para pressionar a Rússia a sentar-se de novo à mesa das negociações”, afirmou o primeiro-ministro do Reino Unido, Keir Starmer.
Já Emmanuel Macron, que regressou a Kiev pela primeira vez desde o verão de 2022, sublinhou que o cessar-fogo deve contemplar a “possibilidade de prolongamento, monitorização e retirada das forças em torno da linha de controlo”, assegurando que um “novo pacote de sanções está pronto” para ser aplicado contra a Rússia. “Nos próximos dias iremos decidir, juntamente com os Estados Unidos”, continuou.
Quanto a Friedrich Merz, que tomou posse como chanceler alemão esta semana e cumpriu a sua primeira visita à capital ucraniana, a mudança de poder no país não vai mudar o apoio aos ucranianos na guerra. “Apoiamos militarmente a Ucrânia na medida das nossas possibilidades e assumimos a responsabilidade por isso. E estamos a fazer isto para pôr fim a esta guerra”, observou, assinalando que a Alemanha vai deixar de divulgar pormenores sobre o envio de armamento para evitar dar potenciais vantagens estratégicas às forças russas.
Donald Tusk esclareceu que se a Rússia “aceitar a proposta de ânimo leve”, será confrontada com “uma nova vaga de sanções”, acentuando a coordenação com os EUA para a eficácia das negociações de paz.
Zelensky diz que potenciais condições russas visam prolongar a guerra
Starmer, Emmanuel Macron e Friedrich Merz chegaram a Kiev no mesmo comboio na manhã deste sábado, enquanto Donald Tusk viajou num comboio separado. De seguida, os líderes europeus foram ao encontro de Volodymyr Zelensky no centro da capital ucraniana, num encontro realizado no dia seguinte às festividades russas em homenagem ao Dia da Vitória, na qual Putin contou com uma parada militar para assinalar os 80 anos da vitória soviética sobre a Alemanha nazi na II Guerra Mundial.
Escudado pelo apoio dos líderes europeus, Zelensky salientou que o cessar-fogo tem de ser incondicional e que Vladimir Putin não deverá apresentar novas exigências sobre a proposta agora formulada. “As tentativas de apresentar quaisquer condições seriam prova de uma intenção de prolongar a guerra e minar a diplomacia”, frisou, agradecendo a presença dos congéneres europeus na tentativa de construção de uma “segurança real e duradoura”.
Além do cessar-fogo de um mês em todas as frentes, o Presidente ucraniano — que manteve igualmente reuniões bilaterais com Macron e Starmer — vincou que o acordo para a paralisação da guerra deve abrir a discussão sobre as “bases de segurança, políticas e humanitárias para a paz”.
No entanto, Zelensky também mostrou pragmatismo perante um eventual ‘sim’ de Moscovo à proposta: “Não temos ilusões de que o cessar-fogo será violado”.
Joint Statement by the Leaders of France, Germany, Poland, the United Kingdom, and Ukraine Following the Meeting in Kyiv.
On Saturday, May 10, 2025, the leaders of France, Germany, Poland, the United Kingdom and Ukraine met in Kyiv.
They agreed that starting Monday, May 12,… pic.twitter.com/afDURGGIxG
— Volodymyr Zelenskyy / Володимир Зеленський (@ZelenskyyUa) May 10, 2025
Na declaração conjunta divulgada após o encontro deste sábado, os líderes europeus presentes em Kiev e Zelensky congratularam-se com “o facto de o apelo a um cessar-fogo e a negociações significativas ser apoiado tanto pela Europa como pelos Estados Unidos”.
“Os Ministros sublinharam a importância crucial de reforçar as Forças de Defesa e Segurança da Ucrânia como principal garantia da soberania e segurança da Ucrânia. Um elemento-chave das garantias de segurança para a Ucrânia deverá ser também uma força de tranquilização”, lê-se na declaração, que foi partilhada pelo Presidente da Ucrânia na rede social X.
Os estados presentes em Kiev assumiram ainda um compromisso para “continuar a trabalhar na utilização efetiva dos ativos russos congelados”, prometendo voltar a debater o tema na próxima cimeira do G7.
Moscovo anuncia que vai “pensar” na proposta
O Kremlin disse que iria “pensar” sobre uma proposta de cessar-fogo na Ucrânia apresentada pelos líderes europeus aliados de Kiev.
Em declarações à CNN, o porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov não se comprometeu com qualquer resposta à tentativa de parar a guerra, quando faltam pouco mais de 24 horas para o desejado início desse cessar-fogo na segunda-feira.
“Temos de refletir sobre isto. É um novo desenvolvimento. Mas tentar pressionar-nos é completamente inútil”, alertou Peskov.
Dmitry Peskov falou também ao canal de notícias norte-americano ABC este sábado, considerando que um aval russo exigiria uma paragem na entrega de armamento pelos aliados da Ucrânia.
Caso tal não aconteça, Peskov defendeu que um cessar-fogo seria apenas uma “vantagem para a Ucrânia” quando as “tropas russas estão a avançar (…) de forma bastante confiante” na frente de guerra. “A Ucrânia vai continuar a sua mobilização total, trazendo novas tropas para [a] linha da frente. Não está pronta para negociações imediatas”, atirou.
Paralelamente, o porta-voz russo criticou os países europeus pelo que disse serem declarações “contraditórias” e hostis. “Ouvimos muitas declarações contraditórias da Europa. São geralmente de natureza conflituosa e não têm como objetivo tentar reavivar as nossas relações. Nada mais”, disse Peskov à agência noticiosa Interfax, citada pelo jornal inglês The Guardian.
Apoio dos EUA à proposta de cessar-fogo, mas com silêncio
Os líderes europeus e Volodymyr Zelensky destacaram a chamada de cerca de 20 minutos com o Presidente dos EUA, Donald Trump, este sábado, enfatizando a sintonia de Washington com os planos de cessar-fogo para 30 dias, como Trump já tinha defendido anteriormente.
Contudo, e depois de ter anunciado um cessar-fogo entre Índia e Paquistão nas redes sociais este sábado, Donald Trump manteve-se publicamente em silêncio sobre a proposta de cessar-fogo entre a Rússia e a Ucrânia.