Discurso de Vladimir Putin no Dia da Vitória
Cidadãos da Rússia, veteranos, convidados, militares, felicito-vos pelo 80.º aniversário da Vitória na Grande Guerra Patriótica! Hoje, estamos todos unidos pelos sentimentos de alegria e luto, orgulho e gratidão, e admiração da geração que esmagou o nazismo, conquistando a liberdade e a paz para toda a Humanidade a custo de milhões de vidas.
O Presidente da Rússia, Vladimir Putin, começa o discurso a falar sobre o nazismo. Desde o início da guerra na Ucrânia, o chefe de Estado tem falado na tentativa de “desnazificar” o país vizinho, acusando o regime liderado por Volodymyr Zelensky de ser neonazi. Assim, o líder russo começa logo com este tópico para demonstrar que a Rússia esteve em várias etapas da História no combate àquela ideologia, para “conquistar a liberdade e a paz”. E agora continua a ser necessário.
Nós preservamos fielmente a memória desses eventos históricos e gloriosos. Como herdeiros das vítimas, hoje celebramos o Dia da Vitória como o feriado mais importante do país, que uma nação inteira e todas as famílias prezam. Os nossos pais, avôs e bisavôs salvaram a pátria. E deixaram-nos o legado da defesa da Pátria, para que nos mantenhamos unidos e defendamos firmemente os nossos interesses nacionais, a nossa história milenar, a cultura e valores tradicionais — tudo o que prezamos, o que é sagrado para nós.
O chefe de Estado russo enfatizou o quão importante o Dia da Vitória é para a Rússia. O “feriado mais importante do país” serve para demonstrar o que o regime considera essencial para a sua sobrevivência: umas Forças Armadas fortes e um povo “unido”, disposto a defender os “interesses nacionais”. Vladimir Putin recordou o exemplo dos “pais, avôs e bisavôs” na Segunda Guerra Mundial — e como as gerações atuais devem fazer o mesmo.
Nós lembramo-nos das lições da Segunda Guerra Mundial e nunca vamos concordar com a distorção da data desses eventos ou a tentativa de justificar os assassínios ou difamações das verdadeiras vítimas.
Vladimir Putin reivindica, nesta passagem, que a versão correta de como se deve celebrar a vitória na Segunda Guerra Mundial é a 9 de maio. É também uma indireta à Ucrânia: em 2023, o Presidente ucraniano decidiu que o país ia celebrar o “Dia da Vitória sob o Nazismo na Segunda Guerra Mundial” a 8 de maio. A diferença entre as duas datas prende-se com o facto de que a rendição alemã foi assinada na noite do dia 8 de maio de 1945, mas, com a diferença horária, na Rússia já passava da meia-noite. A União Europeia refere-se agora a esta data como “Dia da Europa”. Para o chefe de Estado russo, isso é intolerável.
O nosso dever é defender a honra dos soldados e comandantes do Exército Vermelho e o heroísmo dos combatentes de diferentes etnias, que para sempre se manterão soldados russos na História mundial.
Recordando a União Soviética, o Presidente russo lembrou a sua extensão, que diminuiu substancialmente após a independência de várias repúblicas nos anos 90, na sequência da queda do Muro de Berlim. Para Vladimir Putin, isso não interessa: esses soldados serão “russos” para sempre e nunca terão outras nacionalidades, como a ucraniana. Com um tom imperialista, o chefe de Estado ignora a autonomia de vários países e dá corpo a vários receios de que deseja uma espécie de União Soviética ou Império Russo de volta.
A Rússia vai continuar a ser um obstáculo indestrutível ao nazismo, à russofobia e ao antissemitismo. Vamos impor-nos à violência perpetrada pelos campeões dessas ideias agressivas e destrutivas.
Tal como na Segunda Guerra Mundial, a Rússia deve combater todas as ideologias que Vladimir Putin considera nefastas. É uma referência à Ucrânia, que o Presidente russo já caracterizou como um Estado neonazi. E também há uma menção ao Ocidente e a uma luta ideológica. O Presidente da Rússia tem acusado os países ocidentais de serem “russófobos” — e há que lutar contra essas “ideias agressivas”.
A verdade e a justiça estão do nosso lado. Toda a Rússia, a nossa sociedade e todo o povo apoiam os participantes da operação militar especial. Estamos orgulhosos da sua coragem e a sua determinação de aço que sempre nos trouxe a vitória.
Neste discurso, esta é a alusão mais direta à guerra na Ucrânia, que Vladimir Putin continua a adjetivar como uma “operação militar especial”. O Presidente russo mantém a opinião de que fez bem em começar a invasão, uma vez que a “verdade está do lado” de Moscovo. E ainda acredita na vitória, demonstrando orgulho nos militares.
Amigos, a União Soviética aguentou os ataques mais selvagens e cruéis do inimigo. Milhões de pessoas, outrora dedicadas exclusivamente ao trabalho pacífico, pegaram nas armas e aguentaram-se firmes perante a morte em cada colina, ponte ou linha defensiva. O desfecho da Segunda Guerra Mundial foi determinado pelas vitórias decisivas das grandes batalhas de Moscovo e Estalinegrado [atual Volgogrado]. [Pelas vitórias] da Batalha de Kursk e no rio Dnieper.
A escolha destas localidades não é aleatória. Nesta parte do discurso, Vladimir Putin foca-se em como os militares do Exército Vermelho aguentaram as tropas nazis, em particular em alguns pontos geográficos. Um deles é Kursk, a região russa que foi alvo de uma incursão ucraniana em meados do ano passado, que a Rússia já garantiu ter repelido. Outra localização é o rio Dnieper, que divide o território da Ucrânia. Desde o início da invasão, as tropas de Moscovo têm ocupado grandes partes a leste daquele rio e ainda continuam a tentar fazê-lo.
Pela coragem dos defensores da Bielorrússia, que foram os primeiros a enfrentar o invasor.
A Bielorrússia continua a ser o maior aliado da Rússia e é até considerado como um Estado satélite da Rússia. E Vladimir Putin prestou homenagem ao país liderado por Alexander Lukashenko, com quem mantém uma excelente relação.
Pela resistência firme no Forte de Brest e em Mogilev, Odessa, Sebastopol, Murmansk, Tula e Smolens.
Vladimir Putin volta a mencionar pontos geográficos, misturando territórios que pertencem à Bielorrússia (Brest), à Rússia (Tula) e à Ucrânia (Odessa e Sebastopol, na Crimeia). O Presidente volta a sugerir que aqueles territórios bielorrussos e ucranianos historicamente pertencem à Federação Russa, não os encarando como integrantes de outras nações independentes.
Pelo heroísmo dos residentes do cerco de Leningrado [atual São Petersburgo] e pela bravura de todos aqueles que lutaram nas linhas da frente, em unidades de guerrilheiros — e na resistência clandestina —, bem como pelos esforços altruístas de todos aqueles que saíram de fábricas e centrais sob fogo inimigo e que trabalharam na frente doméstica, dando tudo o que tinham, trabalhando até ao limite das suas habilidades, os planos dos nazis de conquistar a União Soviética foram destruídos pela unidade inquebrável da nação.
A menção ao cerco de Leningrado reflete um trauma de muitos russos, incluindo o próprio Vladimir Putin. O Presidente russo, natural da cidade, viveu a tragédia na pele. O irmão morreu em criança durante o cerco (antes de Vladimir nascer) e a mãe chegou a estar numa fila de cadáveres — só sobreviveu porque o pai do líder russo a encontrou e percebeu que ela estava viva. Isto ajuda a explicar o quão importante é a vitória na Segunda Guerra Mundial pessoalmente para o chefe de Estado e o destaque que sempre atribuiu ao cerco desde que está à frente dos desígnios da Rússia.
O heroísmo do povo soviético era unânime e todas as repúblicas carregavam o imenso fardo partilhado da guerra. A contribuição dos povos da Ásia Central e do Sul do Cáucaso foi imenso. Dessas regiões veio um fluxo constante de comboios que entregavam tudo o que a frente precisava. Foram criados hospitais e centenas de milhares de refugiados encontraram uma segunda casa ali. Foi-lhes oferecido abrigo, comida e uma compaixão sentida.
O chefe de Estado volta a enfatizar a união nacional que se viveu durante a Segunda Guerra Mundial e como todas as repúblicas soviéticas contribuíram para isso. Vladimir Putin parece estar a fazer um paralelismo com a situação atual — e de como, apesar das sanções aplicadas pelo Ocidente decorrentes da invasão da Ucrânia, a Rússia continua a ter aliados na “Ásia Central” (países como o Cazaquistão ou Quirguistão, cujos líderes ouviram em Moscovo este discurso) e no “Sul do Cáucaso” (países como a Arménia ou o Azerbaijão, que participaram no desfile militar).
Nós honramos todos os veteranos da Grande Guerra Patriótica e baixamos a cabeça em memória de todos aqueles que deram as suas vidas pela vitória, os filhos e filhas, os pais e mães, os avôs e bisavôs, maridos e esposas, irmãos e irmãs, ente queridos e amigos. Nós baixamos a cabeça diante de todos os camaradas de armas tombados que deram as suas vidas como heróis numa batalha justa pela Rússia. Façamos um momento de silêncio. Amigos, quase 80% da população mundial foi arrastada para a órbita ardente da Segunda Guerra Mundial. A derrota total da Alemanha nazi, do Japão militarista e dos seus satélites em todo o mundo foi alcançada através dos esforços combinados das nações aliadas.
Vladimir Putin presta homenagem aos soldados mortos na Segunda Guerra Mundial. Assinala, pela primeira vez, que a vitória da União Soviética também resultou dos esforços combinados dos aliados, ainda que não mencione nenhum deles, como o Reino Unido ou os Estados Unidos da América.
Nós nunca esqueceremos a abertura de uma Segunda Frente na Europa, que teve lugar após as batalhas decisivas no território da União Soviética, uma vitória apreciada.
A questão histórica também é realçada neste discurso — e Vladimir Putin reivindica que a União Soviética teve o papel mais importante na vitória contra a Alemanha nazi. O Presidente russo considera que apenas as vitórias do Exército Vermelho a leste permitiram a libertação da frente oeste. Sem esse contributo, sugeriu Vladimir Putin, isso talvez não tivesse acontecido.
Nós apreciamos imensamente a contribuição feita pela luta comum das Forças Armadas aliadas, membros da resistência, a coragem do povo da China, e de todos aqueles que lutaram por um futuro pacífico.
Num novo elogio aos aliados na Segunda Guerra Mundial, Vladimir Putin dá primazia à China. Não tanto por uma questão histórica, mas para sublinhar as relações entre Pequim e Moscovo. A ouvir este discurso na plateia estava o Presidente chinês, Xi Jinping, e o homólogo russo quis cortejá-lo. Ainda que mantenha uma neutralidade estratégica na guerra da Ucrânia, o apoio económico e comercial chinês continua a ser fundamental para a Rússia — e Vladimir Putin quer continuar a contar com ele.
Amigos, nós vamos continuar a cuidar dos nossos veteranos, aprendendo com o seu exemplo — o do seu amor sincero pela pátria e do seu compromisso de defender a nossa nação e os valores do humanismo e da justiça. Nós vamos atribuir a essas tradições e a essa grande herança um grande lugar no nosso coração e vamos transmiti-lo às gerações futuras.
Usando o exemplo de quem combateu na Segunda Guerra Mundial, Vladimir Putin exalta os valores do patriotismo e que os mesmos devem ser transmitidos às gerações mais novas. Os mais novos também devem honrar o “compromisso de defender a nação” e defendê-la de todas as ameaças externas, incluindo aquelas que advêm da Ucrânia.
Nós vamos sempre contar com a unidade no campo de batalha, nas tentativas pacíficas de atingir os objetivos estratégicos, na resolução dos problemas em nome da Rússia, na sua grandeza e prosperidade. Glória a nação vitoriosa! Bom Feriado! Bom Dia da Vitória!
No final do discurso, Vladimir Putin garante que a Rússia está unida. Dito doutro modo, a população russa continua a apoiar o conflito na Ucrânia, o que o Presidente russo sugeriu ser uma “tentativa pacífica de atingir os objetivos estratégicos”. No mesmo sentido, o chefe de Estado manda um recado ao Ocidente: o povo russo não vai deixar que a Rússia seja enfraquecida e que lhe seja retirada a “grandeza e a prosperidade”.