Tal como fez em 2024, Jerónimo de Sousa volta a juntar-se a Paulo Raimundo na campanha para umas legislativas. Mas desta vez sem direito a desfilar lado a lado com o secretário-geral do PCP, seu sucessor no cargo.
A entrada de Jerónimo no pavilhão Carlos Lopes, em Lisboa, foi discreta. Falou com os jornalistas já dentro do pavilhão, mas fora isso reclamou pouca atenção do milhar de pessoas que preenchia a plateia. Entrada tímida, principalmente quando comparada com a entrada de Paulo Raimundo. O secretário-geral do Partido Comunista Português foi escoltado por jovens da JCP, com bandeiras erguidas bem alto e as palavras de ordem que seguem – praticamente todos os momentos de campanha da CDU.
Aos jornalistas, Jerónimo de Sousa começaria por deixar rasgados elogios a Paulo Raimundo, seu sucessor nos comandos do PCP. “É uma surpresa extraordinária.” Admite Jerónimo que “as pessoas estavam preocupadas” com a escolha de Raimundo, pelo atual secretário-geral “não ser conhecido” e que lhe diziam “você é que fazia falta”. Mas hoje acredita o histórico comunista: a história é outra.
Há um ano, na campanha para as eleições legislativas (as primeiras de Paulo Raimundo e que acabaram numa derrota grande para os comunistas) também a convergência à esquerda tinha sido um dos principais temas.
E este ano não foi diferente. A CDU está com “uma vontade muito grande” de “não virar a cara à luta, de não baixar a bandeira, de não fugir às responsabilidades”. Entende Jerónimo de Sousa que o PCP é um “partido” diferente dos restantes, com mais de 100 anos de “História única e ímpar do nosso país”. E isso, agora, não muda. “Estamos dispostos para continuar a nossa luta”.
Questionado sobre se no dia 18 de maio, os eleitores também vão lutar pela democracia, Jerónimo concorda, mas diz que o essencial é “resolver os problemas do povo” com a solução que sair das eleições.
E que solução será essa? Apesar de Paulo Raimundo ter evitado comentar cenários pós-eleitorais, Jerónimo entende que o PCP “fez mais do que a sua parte” para estabelecer um diálogo à esquerda.
O antigo secretário-geral do Partido Comunista Português (PCP), Jerónimo de Sousa, em declarações à comunicação social durante um comício/festa da CDU no âmbito das eleições legislativas, em Lisboa, 11 de maio de 2025. RODRIGO ANTUNES/LUSA
Mas agora, dado os novos protagonistas (BE com Mariana Mortágua, PS com Pedro Nuno Santos, PCP com Paulo Raimundo e Livre com Rui Tavares), entende que é preciso, primeiro, “construir uma alternativa política” – num quadro que reconhece é “muito complexo”.
Acabadas as declarações aos jornalistas, Jerónimo de Sousa foi a passo apressado para se sentar na primeira fila, para ouvir o momento musical do dia e os discursos de intervenientes como Paulo Raimundo e António Filipe (número 1 e número dois por Lisboa, respetivamente). Mas no final, não subiria sequer ao palco para estar ao lado do secretário-geral do partido enquanto se cantava a Grândola Vila Morena e o hino nacional – p protagonista nestas eleições é outro.
“Socialismo na gaveta” e o verdadeiro “porto seguro” para todas as marés
O discurso mais aceso da tarde acabaria por pertencer a António Filipe. Tinha críticas a apontar a (quase todos os partidos), da AD à Iniciativa Liberal (partido a que chamou de “extrema-direita fofinha”) e ao PS, muitas críticas ao PS.
Primeiro, atira ao ainda primeiro-ministro: “Dizia Montenegro” e é interrompido por um longo assobio. “Deixem-me lá dizer o que ele dizia” responde António Filipe bem humorado. “Se viram o que fizemos em 11 meses, imagem em 8 anos. Não seria preciso melhor argumento para não votar neles”. Para o deputado do PCP, o Governo da AD tem cadastro, ganho durante os últimos meses. “querem privatizar o SNS, a Segurança Social, querem mais borlas fiscais às muito grandes empresas”.
A Luís Montenegro junta-se Pedro Nuno Santos. “Também sabemos o que o PS fez estes 11 meses, viabilizou o Orçamento do Estado, votou contra a moção de censura e suplicou ao Governo que retirasse a moção de confiança”.
Acusa Pedro Nuno Santos de ter roubado a expressão de Paulo Raimundo, quando diz que o PS é um “porto seguro”. Mas entende António Filipe “falta o essencial” ao líder socialista. “A firmeza e a coragem, só na CDU”. O combate à direita “não se faz debitando banalidades, em nome de convergências imaginárias e fazendo promessas à esquerda”.
E termina, com a proposta que a Iniciativa Liberal – traz a estas eleições: rever a Constituição para retirar a palavra socialismo. “Há quem queira tirar o socialismo da constituição. Não é da constituição que temos de tirar o socialismo, temos é que tirar o socialismo da gaveta onde o PS o meteu”.
O secretário-geral do Partido Comunista Português (PCP), Paulo Raimundo (2-D), acompanhado de António Filipe (E) e Francisco Lopes (D), durante um comício/festa da CDU no âmbito das eleições legislativas, em Lisboa, 11 de maio de 2025. RODRIGO ANTUNES/LUSA
Paulo Raimundo seria mais brando nas críticas. Ao encerrar o maior comício da campanha, o secretário-geral do PCP seguiu o exemplo de António Filipe para ensaiar um apelo ao voto. Pede “bom ambiente” em torno da campanha da CDU acabe dar um “resultado eleitoral expressivo”.
A CDU é, no entender de Paulo Raimundo, “o verdadeiro porto seguro”. Antes, António Filipe tinha acusado Pedro Nuno Santos de se apropriar da expressão, mas sem a “coragem e a firmeza” dos comunistas. Por isso, o líder do PCP insiste: “Este porto seguro, o verdadeiro porto seguro” independentemente da intensidade da maré “grande ou pequena”.
O apelo ao voto, quando a campanha entra oficialmente na segunda semana, estender-se-ia ao eleitorado mais jovem. “A juventude é uma força imensa. Peguem nessa força, abram o caminho da esperança e imponham o rumo dos vossos direitos. Este país precisa da vossa força, da vossa criatividade, do vosso conhecimento e da vossa garra”.
O secretário-geral do PCP assegura que o “apoio e a simpatia” pela campanha comunista cresce a olhos vistos. Mas o apoio que se tem de traduzir em votos, para Raimundo inverter a tendência negativa da CDU nas urnas. “É este o grande desafio que está aqui colocado. Vamos à mobilização, com a razão do nosso lado”.
[Leão XIV é um progressista ou um conservador? No podcast “A História do Dia“, só precisa de 15 minutos para ficar bem informado. Conversamos com os jornalistas da redação do Observador e com especialistas para lhe explicar tudo sobre a história mais importante do dia. E ainda lhe damos um resumo rápido das notícias que tem mesmo de saber. Pode ouvir aqui, na Apple Podcasts, no Spotify ou no Youtube Music]