O Departamento de Segurança Interna dos EUA está a avaliar uma proposta de um produtor televisivo para criar um reality show onde um conjunto de imigrantes compete para obter uma potencial cidadania norte-americana.
Com nome provisório The American (O Americano), a ideia para este reality show partiu de Rob Worsoff, produtor televisivo de origem canadiana responsável pelo famoso programa Duck Dynasty, tendo como premissa juntar um grupo de imigrantes a competir numa série de desafios em todo o país “pela honra de acelerar o seu processo de cidadania americana”.
A informação, inicialmente avançada como um exclusivo pelo tablóide britânico Daily Mail, que teve acesso a um documento de 35 páginas com a proposta em detalhe, foi entretanto confirmada pelo The Wall Street Journal (WSJ).
A notícia deste programa surge numa fase em que não só os EUA têm endurecido a sua política anti-imigração e a retórica quanto aos imigrantes ilegais, como a secretária do Departamento de Segurança Interna, Krisi Noem, tem sido criticada pelo seu estilo de gestão teatral e sensacionalista.
Noem é acusada de protagonizar momentos mediáticos — como aquele em que surgiu a posar numa prisão em El Salvador em frente a venezuelanos deportados — ao invés do funcionamento eficaz do departamento que lidera, sendo apelidada como “Barbie ICE” pela sua predileção por oportunidades fotográficas.
Questionada pelo WSJ, a porta-voz do Departamento de Segurança Interna, Tricia McLaughlin, não comentou quanto ao envolvimento de Noem no assunto do reality show, adiantando apenas que a ideia para o programa está “na fase inicial do processo de verificação”, sendo que “cada proposta é submetida a verificação minuciosa antes de ser recusada ou aprovada.”
No entanto, o Daily Mail apresenta outra versão dos factos, noticiando não só que Noem apoia o projeto e deseja que vá para a frente, como tem tentado nas últimas semanas aprovar um programa semelhante junto de plataformas de streaming como a Netflix, sem sucesso. Mais ainda, o tablóide revela que a secretária de Segurança Interna já chegou mesmo a oferecer os serviços de funcionários dos Serviços de Cidadania e Imigração para registar os votos para o concurso televisivo.
Segundo o Mail, a proposta de Worsoff é para que o programa consista numa competição entre 12 concorrentes pré-selecionados a chegar a Ellis Island, em Nova Iorque, a bordo do “The Citizen Ship” — um trocadilho entre “cidadania” e “barco do cidadão”.
[Quem vai ganhar e perder nas eleições? No podcast “A História do Dia“, só precisa de 15 minutos para ficar bem informado. Conversamos com os jornalistas da redação do Observador e com especialistas para lhe explicar tudo sobre a história mais importante do dia. E ainda lhe damos um resumo rápido das notícias que tem mesmo de saber. Pode ouvir aqui, na Apple Podcasts, no Spotify ou no Youtube Music]
Com um formato de eliminação de episódio para episódio, os participantes concorreriam em atividades tidas como tradicionais e com uma forte componente histórica ligada aos EUA, como recolher ouro numa mina em São Francisco, tentar construir um foguetão no centro da NASA em Cabo Canaveral ou manter o equilíbrio em cima de troncos no Wisconsin.
O programa teria como anfitrião um “americano famoso e naturalizado”, como a colombiana Sofia Vergara ou o canadiano Ryan Reynolds e os prémios para os concorrentes derrotados seriam “iconicamente americanos”, como receber um milhão de pontos na companhia aérea American Airlines, um cartão de oferta da cadeia Starbucks no valor de 10 mil dólares ou o fornecimento vitalício de gasolina, além de terem o seu processo de naturalização facilitado. No entanto, o objetivo último do grande vencedor é mesmo ser “empossado como cidadão americano” nas escadas do Capitólio dos EUA, em Washington DC, por “um importante político ou juiz americano”.
Para Worsoff, não obstante toda a polémica à volta das deportações levadas a cabo pelos EUA, este é um programa apartidário, revelando ao WSJ que já tinha tentado aprovar algo semelhante desde os tempos da Administração de Barack Obama.
“Não estou filiado em nenhuma ideologia política. Como imigrante, estou apenas a tentar fazer um espectáculo que celebre o processo de imigração, celebre o que significa ser americano e tenha uma conversa nacional sobre o que significa ser americano, através dos olhos das pessoas que mais o querem”, refere na proposta.
Instado a comentar o programa pelo WSJ, o produtor defende que este reality show não seria “Os Jogos da Fome para imigrantes”, referindo-se à saga distópica da escritora Suzanne Collins. Além disso, o contrário do que é sugerido na proposta de 35 páginas, Worsoff afirmou ao mesmo jornal que os concorrentes, sendo pessoas já integradas no sistema de imigração dos EUA, não serão deportados se perderem. “Isto não é: ‘Ei, se perderes, vamos enviar-te num barco para fora do país’”, sublinhou.