A despedida foi curta, mesmo na abertura da reunião da Comissão Nacional do PS, com Pedro Nuno Santos a sair logo depois da intervenção de abertura dos trabalhos, a que já não assistiu. Terminou ali a “vida político-partidária”, mas não no espaço público. Aí promete manter a “intervenção política”, ainda que continue a ponderar o que fará com o lugar de deputado para o qual foi eleito: fica ou sai? A decisão será tomada até à posse da Assembleia da República, no início de junho. Por agora, mantém que o PS deve opor-se a Luís Montenegro e à AD — contra a linha que o seu provável sucessor segue.
“A vida não termina, a vida político-partidária termina”, disse quando saiu da reunião da Comissão Nacional do PS, já como ex-líder. Ao mesmo tempo garantia que “continuará a fazer intervenção política”. Falta saber em que palcos — e aí está tudo em aberto nesta altura. Por agora, o socialista diz que vai sem arrependimento de ter chumbado a moção de confiança do Governo, a defender que Luís Montenegro não tem condições para ser primeiro-ministro e que com ele na liderança o PS não daria a mão ao Governo da AD.
Na intervenção que fez na sala, perante os membros da Comissão Nacional, Pedro Nuno já tinha dito que “era impensável dar condições a um homem que não devia estar a exercer nenhum cargo público em Portugal”. E aos jornalistas, depois da reunião, havia de dizer o mesmo, reafirmando que não estava arrependido de ter chumbado a moção de confiança que acabou por levar a eleições. A linha do ex-líder continua a ser que o PS perde espaço se se encostar à AD, deixando o Chega sozinho a liderar a oposição.
O mesmo sobre a estratégia em relação a Montenegro. “Numa democracia avançada e qualificada o atual primeiro-ministro não seria primeiro-ministro. Não tem as condições ética mínimas”, mantém Pedro Nuno Santos que reafirmou que sob a sua liderança, “Montenegro “não podia merecer a confiança” do PS.
Quanto aos resultados, na reunião da Comissão Nacional assumiu-os à cabeça, disse que a campanha tinha corrido melhor que a de há um ano e que o partido se mobilizou, mas que nada disso foi suficiente. Mas se assumiu responsabilidades, também disse aos socialistas que as razões da derrota “são profundas”. Não o disse de forma taxativa, mas deixou claro que se há matéria onde leva arrependimentos é na forma como abordou o tema da imigração.
Quando falou do trabalho futuro que o PS tem pela frente, de “reflexão profunda”, Pedro Nuno considerou que o partido “também deve refletir sobre imigração e o que ela significa “, apontando que “uma entrada tão grande em tão pouco tempo criou tensões”. Tinha falado nisso mesmo dentro da reunião, segundo apurou o Observador, quando identificou o problema ao dizer que fechar a porta criaria problemas na economia, mas que a entrada, como aconteceu, trouxe tensões. Apontou ainda à falta de investimento no estado social, como uma das razões para estas mesmas tensões não terem sido aliviadas.
Numa altura em que já sabia que José Luís Carneiro será o nome mais forte para lhe suceder, Pedro Nuno ainda desejou, na reunião, “os maiores sucessos” a quem vier para o seu lugar. Mas à porta da reunião também não descartou andar por aí: “Continuarei a dizer o que penso”. “Uma das características do PS é não triturar líderes nem dirigentes”, disse aos jornalistas ao mesmo tempo que dizia que o partido também sabe “fazer isto ao mesmo tempo que respeita a opinião diferente dos diferentes militantes”. O “até breve” que deixou como aviso na noite eleitoral ganhará forma nos próximos tempos.