O julgamento de Sean “Diddy” Combs avança em Nova Iorque com revelações inéditas sobre a atuação do rapper que, segundo testemunhou uma das suas ex-assistentes esta terça-feira, a obrigou a participar na invasão da casa do rapper Kid Cudi. A ideia seria matar o rival na música, mas também no amor, já que nessa altura descobriu que este tinha uma relação com Cassie Ventura — aquela que foi a namorada de Combs, numa relação intermitente que durou mais de uma década.
Capricorn Clark, a ex-assistente de Combs, recordou que o então patrão apareceu no seu apartamento, acompanhado de um segurança, em 2011. Os dois terão, por via da força, obrigado a assistente a ir com eles até à casa de Cudi. “Veste-te, vamos acabar com ele“, recordou ao tribunal Clark, citada pela BBC, de entre as palavras que lhe foram dirigidas na altura.
Quando chegaram à mansão de Scott Mescudi, o verdadeiro nome de Kid Cudi, a colaboradora de “Diddy” ficou no carro enquanto os dois homens se dirigiram ao interior da casa (onde Kudi não estava), para supostamente vingar a honra do rapper. Clark ficou no carro e ligou de imediato a Cassie Ventura para lhe relatar o que estava a acontecer.
A ex-assistente disse ainda ao tribunal que quando Combs voltou e viu o telefone ficou ainda mais alterado por se aperceber do contacto entre as duas. Saíram pouco depois do perímetro privado da casa de Cudi, assim que houve sinal de este estar a regressar a sua casa.
Mas o episódio não ficou por aqui. “Se vocês não o convencerem, eu mato-vos a todos“, terá ameaçado “Diddy”, quando falava com a assistente, mas também com a própria Cassie Ventura. Queria que elas garantissem ao rival que não tinha estado envolvido na invasão de sua casa em Los Angeles.
Além deste episódio em concreto — que interessa à acusação uma vez que prova o padrão de ação violenta de Combs — Clark também descreveu o difícil relacionamento de trabalho que teve com o superior hierárquico ao longo de muitos anos. Foi ameaçada por mais de uma vez, principalmente devido aos seus trabalhos anteriores com outros artistas.
O produtor de música está acusado de crimes de tráfico sexual, violações e ofensas à integridade física. O palco para a maioria destes crimes, ou pelo menos a sua motivação, eram os “freak-offs”, festas de sexo e droga das quais era anfitrião nas suas várias mansões de luxo, mas também em hóteis.
Rapper rival de Combs acusa-o de lhe ter incendiado o carro
Desde a semana passada que as ações de Sean Combs contra Kid Cudi, alimentadas pelos ciúmes que tinha do um alegado envolvimento romântico com a namorada Cassie Ventura, estão a tomar conta do julgamento do rapper em Manhattan.
O próprio Cudi foi arrolado como testemunha da acusação, tendo detalhado que, além de ter sido responsável pela suposta invasão da sua casa, o rapper Sean Combs terá danificado um dos seus carros, um Porsche, com recurso a um cocktail molotov.
Depois de o rapper inimigo de Combs ter sido escutado em tribunal, também vários agentes da polícia e membros do corpo de bombeiros testemunharam sobre a invasão de propriedade e o tal incêndio no carro de Scott Mescudi.
Chris Ignacio, um agente da polícia em Los Angeles ao tempo dos factos, disse que ele e um colega foram chamados à casa, localizada nas Hollywood Hills, na manhã de 22 de dezembro de 2011, por suspeitas de um assalto.
Um dos carros que identificaram no local era um Cadillac preto com vidros escuros. Souberam depois que o carro estava registado em nome da Bad Boy Productions, Inc., uma das empresas de Combs.
Segundo o polícia, que inspecionou o local, a casa parecia estar intacta. Mescudi também não conseguiu identificar nada que tivesse sido roubado. No seu testemunho, Cudi recordou, que, semanas depois do incêndio no seu Porsche, encontrou Combs numa discoteca em Los Angeles. Confrontado com os danos do carro, “Diddy” terá respondido: “‘Não sei do que estás a falar'”.
Mas tudo mudou três anos depois, garantiu a testemunha, que recorda um pedido de desculpa vago por parte do antigo rival. “Era a última coisa que eu esperava receber dele”, assumiu até Mescudi.
Este alegado rebate de consciência de “Diddy” pode agora influenciar o modo como o júri, responsável por decidir pela sua responsabilidade ou não no caso, irá olhar para estes factos — já que terá existido uma assunção indireta.
[A polícia é chamada a uma casa após uma queixa por ruído. Quando chegam, os agentes encontram uma festa de aniversário de arromba. Mas o aniversariante, José Valbom, desapareceu. “O Zé faz 25” é o primeiro podcast de ficção do Observador, co-produzido pela Coyote Vadio e com as vozes de Tiago Teotónio Pereira, Sara Matos, Madalena Almeida, Cristovão Campos, Vicente Wallenstein, Beatriz Godinho, José Raposo e Carla Maciel. Pode ouvir o 2.º episódio no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music. E o primeiro episódio aqui.]
Defesa pediu anulação do julgamento
Esta quarta-feira, a defesa de Sean “Diddy” Combs pediu a anulação de todo o julgamento, alegando má conduta do procurador, citando o testemunho de um investigador, arrolado pela acusação, que afirmou em tribunal que as evidências de impressões digitais retiradas da casa de Kid Cudi, após o incidente de invasão, foram destruídas, ficando em aberto que “Diddy” poderia ter sido responsável por esta destruição.
Segundo a CNN, o advogado responsável pela defesa de Combs, Marc Agnifilo, disse que esta sugestão era “ultrajante”. Já a procuradora Christy Slavik disse que a anulação do julgamento era “absolutamente injustificada”.
O juiz Arun Subramanian, responsável pelo julgamento, negou a moção de anulação do julgamento e instruiu o júri a ignorar “as questões relativas à destruição das impressões digitais”. “As respostas dadas são irrelevantes para este caso e para este arguido e não devem ser consideradas por vós”, assegurou ao painel de oito homens e quatro mulheres a cumprir serviço de jurados.