“A República reparará um erro”. Assim anteviu Charles Sitzenstuhl, deputado francês do Renaissance, relator da proposta de lei para promover, a título póstumo, Alfred Dreyfus. A homenagem ao capitão — aprovada na Assembleia francesa, esta segunda-feira com 197 votos a favor e zero contra — que morreu há 90 anos foi considerada essencial para combater o antissemitismo “que não pertence a um passado distante”.

“O antissemitismo que atingiu Alfred Dreyfus não pertence a um passado distante. A República [Francesa] deve reafirmar constantemente a sua vigilância, firmeza e compromisso absoluto contra todas as formas de discriminação”, escreveu Gabriel Attal, ex-primeiro-ministro e líder do Renaissance, citado pelo Le Figaro.

Em 1894, Dreyfus foi condenado por traição e forçado ao exílio na Ilha do Diabo, na Guiana Francesa, sob acusações, posteriormente confirmadas como falsas, de que estaria a vender informações à Alemanha. O caso surgiu depois de os serviços secretos franceses encontrarem um memorando de um oficial francês que tinha como destino um funcionário da embaixada alemã em Paris.

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Todo o julgamento, de acordo com o jornal francês, foi alimentado pelo antissemitismo muito presente na sociedade da época. Em 1906, o Supremo Tribunal francês anulou a condenação de Dreyfus, que voltou ao Exército e prestou serviço militar durante a Primeira Guerra Mundial — no entanto, chegou a pedir uma reavaliação da carreira mas não conseguiu ganhar essa causa.

“Foi reintegrado abaixo da patente à qual poderia ter aspirado. Ainda é penalizado, impedido de progredir”, recorda Charles Sitzenstuhl, que elogia o “compromisso republicano” do militar agora homenageado.

Apesar da aprovação unânime desta promoção a general de brigada, o debate entre os deputados no parlamento foi acirrado e com trocas de acusações, sobretudo no que diz respeito ao “antissemitismo”.

“O antissemitismo ainda ataca a nossa democracia. (…) Esse ódio deve ser combatido inequivocamente”, defendeu, citada pelo Figaro, a ministra delegada para a Memória e os Veteranos franceses. Já Thierry Tesson, deputado do Rally Nacional, elogiou o “poder do símbolo” que esta decisão “traz para o presente”. “É útil lembrar às novas gerações este momento em que a República vacilou. (…) Num contexto preocupante, quando as fachadas das sinagogas estão cobertas de tinta verde, é importante lembrar a urgência de defender nossos princípios fundadores”, acrescentou. O caso, recordado como um exemplo de antissemitismo institucional em França, é lembrado como sinónimo de condenação injusta de inocentes.

Quando Gabriel Amard, deputado do LFI (fundado por Jean-Luc Mélenchon) discursou, a discussão subiu de tom. A olhar para os deputados do Rassemblement National (de Jordan Bardella e Marine Le Pen), Amard acusou o partido de utilizar o “antissemitismo” como “arma política”.