O Ministério Público (MP) e a Inspeção Geral das Atividades em Saúde (IGAS) estão a investigar o caso da cirurgia a que foi submetido o líder parlamentar do PSD no Hospital de Santo António, no Porto, avançou o Expresso e confirmou o Observador junto do MP e da IGAS. Em causa está a forma como Hugo Soares foi referenciado para cirurgia com caráter prioritário e o curto período que decorreu entre a consulta de especialidade e a operação, em 2024.
“Confirma-se a instauração de inquérito a correr termos no DIAP [Departamento de Investigação e Ação Penal] Regional do Porto. O mesmo encontra-se sujeito a segredo de justiça”, informa o MP.
A investigação do MP foi desencadeada por uma denúncia anónima, que sugere que a referenciação para a cirurgia tinha começado com uma consulta no privado. A denúncia também levantava suspeitas sobre Eurico Castro Alves, que ficou conhecido como “ministro-sombra” da Saúde (pela forma próxima como colaborou com o governo na elaboração do Plano de Emergência) e que é diretor do Serviço de Cirurgia do Hospital de Santo António.
Também a IGAS confirma ao Observador que está a investigar o caso, no âmbito de um processo de inspeção que visa o próprio serviço de Cirurgia do Hospital de Santo António, aberto em novembro de 2024. “Temos um processo à atividade cirúrgica daquela departamento, e entrou uma participação sobre o Hugo Soares. Vamos ver se tudo decorreu de acordo com as regras“, referiu o inspetor-geral da Saúde, Carlos Carapeto.
A denúncia refere o que diz ter sido a “forma discreta e bastante acelerada” com que Hugo Soares foi tratado, sendo que o caso do deputado e líder parlamentar social-democrata foi classificado como prioritário no sistema de prioridade clínica, quando a situação não o justificaria. Hugo Soares foi inscrito para cirurgia no 21 de julho de 2024, e operado a 29 de agosto ao cólon.
[A polícia é chamada a uma casa após uma queixa por ruído. Quando chegam, os agentes encontram uma festa de aniversário de arromba. Mas o aniversariante, José Valbom, desapareceu. “O Zé faz 25” é o primeiro podcast de ficção do Observador, co-produzido pela Coyote Vadio e com as vozes de Tiago Teotónio Pereira, Sara Matos, Madalena Almeida, Cristovão Campos, Vicente Wallenstein, Beatriz Godinho, José Raposo e Carla Maciel. Pode ouvir o 3.º episódio no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music. E o primeiro episódio aqui e o segundo aqui.]
Ao Observador, o Hospital de Santo António esclarece que Hugo Soares deu entrada no serviço de urgência no dia 13 de julho de 2024. Foi triado com pulseira amarela e referenciado para consulta de Cirurgia Geral, que terá ocorrido uma semana depois, no dia 21.
Ao Correio da Manhã, o diretor clínico do Santo António, Jorge Barros, admitiu que não sabe se algum médico do departamento de cirurgia deu consultas no privado a Hugo Soares, mas sublinhou que “a denúncia anónima tem pressupostos errados ou grosseiramente adulterados” e que tudo decorreu de forma “perfeitamente normal”.
O Hospital de Santo António garante que o “tempo máximo de resposta garantido” para prioritários não oncológicos é de dois meses. “O cidadão foi intervencionado em 1 mês e 8 dias“, refere a unidade hospitalar, acrescentando que “a lista de inscritos para esta cirurgia, a 21/07/2024, tinha um único utente prioritário, no conjunto de todas as patologias do cirurgião, que foi intervencionado antes”, afastando, assim, a ideia de que Hugo Soares tenha sido beneficiado.
Segundo o portal dos Tempos de Espera do SNS, o tempo médio de espera para uma cirurgia na especialidade de Cirurgia Geral é de 9 dias (no caso dos doentes prioritários) e de 33 dias (no caso de não prioritários). Qualquer um destes tempos está abaixo do registo no caso de Hugo Soares.