Os protestos dos últimos dias contra as operações anti-imigração do Serviço de Imigração e Fronteiras (Immigration and Customs Enforcement, ICE) nas ruas e nos locais de trabalho deixaram a cidade de Los Angeles e a Califórnia em estado de sítio e já levaram a que Donald Trump mobilizasse dois mil soldados para a cidade contra aquilo a que chamou “invasão imigrante”, entrando em guerra aberta com as autoridades locais. Dois jornalistas foram atingidos com balas de borracha e a polícia local pede aos moradores para que registem os danos em fotografia.

Ruas cortadas, lojas destruídas ou vandalizadas e intensos confrontos, com recurso a gás lacrimogéneo, granadas de atordoamento ou balas de borracha tornaram-se o cenário mais comum dos últimos dias de protestos. Apenas este domingo pelo menos 56 pessoas foram detidas, avança a NBC.

Apesar da atuação das autoridades locais para tentar conter os protestos, Donald Trump anunciou no sábado à noite a mobilização de 2.000 soldados da Guarda Nacional. Esta força de reserva integrada nas forças armadas dos Estados Unidos (e que pode ser mobilizada pelos Estados ou pelo Presidente) começou a chegar este domingo de manhã a Los Angeles, segundo o New York Times.

No sábado à noite, a autarca de Los Angeles, Karen Bass, tinha defendido que as autoridades da cidade teriam capacidade para gerir os protestos sem precisar dos reforços da Guarda Nacional. À ABC7, disse que estava “confiante” na capacidade das autoridades locais: “Rejeito a ideia de que eu e o governador [de Los Angeles] não conseguimos fazer o nosso trabalho. Também tenho estado em comunicação com a Casa Branca”. Frisando que as operações anti-imigração têm sido “muito, muito difíceis”, Bass defendeu também que “a violência não é aceitável em nenhuma circunstância”.

Já este domingo, Bass considerou que a mobilização das forças da Guarda Nacional representa uma “escalada caótica” da situação: “Isto é a última coisa de que a nossa cidade precisa, e apelo aos manifestantes para que se mantenham pacíficos. Los Angeles irá sempre ficar do lado de quem chama ‘casa’ à nossa cidade”. Ainda assim, durante este domingo já chegaram 300 elementos da Guarda Nacional a diferentes locais em Los Angeles.

Em resposta a esta publicação, feita na rede social X, o Departamento de Segurança Interna dos Estados Unidos respondeu dizendo que a “proteção de amotinados violentos e imigrantes ilegais criminosos” supostamente feita por Bass é “doentia”.”Trump vai restaurar a lei e a ordem em Los Angeles, caso os seus líderes não o façam”, lia-se na mesma resposta.

A mesma conta foi defendendo, durante o dia, que os “corajosos” agentes estão a retirar “os piores dos piores das ruas de Los Angeles, enquanto os líderes da cidade trabalham sem parar contra eles”. E publicou fotografias dos imigrantes com registo criminal que ia detendo, acrescentando o histórico de cada um.

Já Trump escreveu na rede social Truth Social, este domingo à noite, que a “outrora grande cidade” tem sido “invadida e ocupada por imigrantes ilegais e criminosos”, classificando os manifestantes como “violentos” mas acrescentando que isso só “reforça a determinação” do Executivo norte-americano. “A ordem será reposta, os ilegais serão expulsos e Los Angeles será liberta”.

Polícia de Los Angeles pede a moradores e lojistas que fotografem danos

Também este domingo à noite, 22 governadores democratas emitiram um comunicado conjunto condenando a decisão de mobilizar a Guarda Nacional e classificando-a como “um abuso de poder alarmante” do Presidente norte-americano. “Os governadores são os comandantes-chefes da sua Guarda Nacional, e o Governo federal a ativá-la nas suas fronteiras sem os consultar ou trabalhar com eles é ineficaz e perigoso”.

A Presidente mexicana, Claudia Sheinbaum, também reagiu à situação, defendendo que “não é com rusgas e violência” que o fenómeno se resolve: “É sentando-se e trabalhando numa reforma da imigração extensa, que tenha em conta todos os mexicanos do outro lado da fronteira”, disse este domingo, citada pela CNN. E lembrou que Los Angeles “não seria o que é” sem os mexicanos que lá vivem e trabalham: “Imigram por necessidade e mandam recursos de lá para as suas famílias”, “não são criminosos”.

Entretanto, o Comando Norte confirmou que mobilizou tropas da 79.ª Brigada de Infantaria da Guarda Nacional da Califórnia e que já estão no terreno.

Protestos contra rusgas a imigrantes. Trump realçou “grande trabalho da Guarda Nacional” antes dos soldados chegaram a Los Angeles

Entretanto, na manhã desta segunda-feira, a Divisão Central da Polícia de Los Angeles apelou a todas as empresas ou residentes para “que comuniquem qualquer vandalismo, dano ou pilhagem”. “Por favor, fotografe todos os vandalismos e danos antes da limpeza“, pediu a polícia.

Esta não é a primeira vez que a Guarda Nacional é destacada para Los Angeles. Entre as ocasiões anteriores contam-se os protestos desencadeados em 2020 pela morte de George Floyd contra a violência policial, o sismo de 1994 que abalou a cidade ou os motins de 1992, na sequência da morte de Rodney King às mãos de uma operação policial.

As manifestações começaram na última sexta-feira, 6 de junho, depois de 44 pessoas serem presas num dia marcado por múltiplas operações do ICE. Num comunicado, o Departamento de Homeland Security (segurança interna), diz que mil pessoas terão “cercado os agentes do ICE, furando pneus e destruindo propriedades dos contribuintes”. Na rede social X, a secretária assistente do Departamento de Justiça, Tricia McLaughlin, confirma que as operações do ICE prenderam 118 imigrantes esta semana, incluindo “pessoas com antecedentes criminais como tráfico de drogas, assédio, crueldade com animais, violência doméstica, roubo, tráfico humano e cinco membros de gangues”.

Pelo menos dois jornalistas atingidos por balas não letais durante a cobertura dos protestos

Um fotojornalista britânico teve de ser operado de urgência depois de ter sido atingido por uma bala não letal disparada nos protestos que decorreram em Los Angeles durante o fim-de-semana. Segundo o The Times, Nick Stern estava a documentar os confronto entre manifestantes e a polícia quando uma “bala de esponja” o atingiu na coxa.

Foi transportado para o Long Beach Memorial Medical Center e foi submetido a cirurgia para remoção da bala. “Tinha uma identificação de imprensa ao pescoço, uma máquina fotográfica grande e uma câmara de vídeo. Estava a fazer questão de me tornar visível como meio de comunicação social”, garantiu em declarações ao The Times.

Uma jornalista australiana foi igualmente atingida por uma bala de borracha enquanto reportava as manifestações nas ruas de Los Angeles. O momento foi captado em vídeo pelo repórter de imagem que acompanhava Lauren Tomasi. Nas imagens vê-se um polícia a atirar na sua direção e a jornalista acaba por ser atingida numa perna.

(Atualizada às 8h38 de segunda-feira com a informação no número de detidos no domingo)