O Novo Banco vai passar para as mãos do banco francês BPCE, que venceu a concorrência dos espanhóis do CaixaBank e, com uma proposta de 6,4 mil milhões de euros, levou o fundo norte-americano Lone Star a desistir da opção da venda (parcial) através da bolsa. A operação, que foi confirmada oficialmente nesta sexta-feira, vai entregar 75% do valor da venda ao Lone Star e os restantes 25% ao Estado (Direção-Geral do Tesouro e Finanças e, por outro lado, o Fundo de Resolução), o que signfica receberem, respetivamente 4,8 mil milhões e 1,6 mil milhões de euros (733 milhões para a participação direta do Estado).
Em comunicado, o Ministério das Finanças assume que “o Governo português vai acompanhar a venda da Lone Star, alienando a posição que o Ministério das Finanças controla diretamente”, realçando que, esta venda, “associada à distribuição de dividendos do Novo Banco que ocorreu este ano, permite ao Estado recuperar quase 2 mil milhões de euros dos fundos públicos injetados na instituição”. Já o Fundo de Resolução indica que a venda da sua participação resultará num encaixe bruto de cerca de 866 milhões de euros, que “irá acrescer às verbas já recebidas do Novo Banco a título de distribuição de dividendos relativos aos resultados de 2024 (valor bruto: 30 milhões de euros) e no âmbito da redução de capital realizada já em 2025 (149 milhões de euros)”. O Fundo diz que este encaixe será utilizado no reembolso da dívida ao Estado.
O Groupe BPCE “assinou um Memorando de Entendimento para a aquisição de uma participação acionista de 75% no Novo Banco à empresa de private equity Lone Star Funds”, afirmam os franceses em comunicado difundido esta sexta-feira. “A transação, que representa um valor em dinheiro de aproximadamente 6,4 mil milhões de euros (por 100% das ações) e um múltiplo de cerca de nove vezes o lucro anual, é a maior aquisição transfronteiriça na zona euro em mais de 10 anos”. Nicolas Namias, CEO do BPCE, em videoconferência, realça isso mesmo: “Acredito que esta aquisição é totalmente em linha com aquilo que o BCE tem defendido”.
Após a criação da BPCE Equipment Solutions no início do ano, este projeto marca uma nova etapa fundamental na execução do plano estratégico “Visão 2030″, visando o desenvolvimento e a diversificação do BPCE em França, na Europa e no mundo. Após a conclusão da transação, Portugal passará a ser o segundo maior mercado retalhista doméstico do Grupo”, acrescenta o grupo francês.
Em conferência de imprensa, Nicolas Namias, CEO do BPCE, realça quer o banco quer ser um sócio de longo prazo para a economia portuguesa. “Seremos investidores de longo prazo. Na verdade, não somos investidores, olhamos para o Novo Banco como parte de um grande grupo”, salienta o responsável.
A negociação foi liderada pelo fundo Lone Star, dono de 75% do Novo Banco, mas o Estado e o Fundo de Resolução irão acabar por vender os restantes 25% por causa de cláusulas contratuais que obrigam o Estado a vender no caso de o LoneStar vender toda ou quase toda a sua participação, mas o grupo francês fala em negociações com o Estado para a venda da sua posição. “Não é uma formalidade, nunca é, tenho muito respeito pelas autoridades portuguesas”, diz o CEO do BPCE, salientando que já foram iniciadas negociações e “esperamos que o Estado veja com bons olhos este movimento que é um movimento amigável”. Não será uma questão de preço, assume, uma vez que o valor é público. “Para as autoridades portuguesas é uma garantia de que irão ter um Novo Banco muito seguro nos próximos tempos. Será um banco forte e resiliente”.
O Ministério das Finanças já fez saber que irá vender, realçando ser uma solução que agrada ao Governo, uma vez que impede, como diz em comunicado, uma concentração geográfica “desnecessária”, caso o Novo Banco ficasse com os espanhóis do Caixabank.
“A compra por parte do BPCE representa para Portugal um sinal muito importante de confiança dos investidores internacionais no nosso país e na economia nacional. O BPCE é um banco de elevada credibilidade, solidez e performance. A proposta do BPCE permitirá a criação de valor e o apoio à economia nacional e às empresas portuguesas”, indica o comunicado do gabinete de Miranda Sarmento.
“Adicionalmente, esta operação garante uma maior diversificação dos investidores e acionistas dos bancos que operam em Portugal, evitando assim uma desnecessária concentração geográfica, como o Governo advertiu e se mostrou contra. Também garante a manutenção da atual estrutura do mercado bancário nacional, sem que ocorram problemas resultantes de um eventual processo de concentração, nomeadamente de uma reestruturação, e salvaguarda os níveis de concorrência no sistema bancário português”, diz o Governo.
As partes apontam para a conclusão da compra durante o primeiro semestre de 2026. E fica, assim, colocada de lado a intenção de ir para a bolsa, como também não põe na agenda aquisições futuras no mercado português.
O grupo BPCE formou-se através de uma grande fusão bancária em França em 2009, em que se uniram duas instituições bancárias de índole mutualista/cooperativa com largas décadas de história: o Banque Populaire e a Caisse D’Epargne. Este banco aumentou em 2024 os lucros 25% para cerca de 3,5 mil milhões de euros e já tem presença em 50 países mas sobretudo através da banca de investimento e outras operações. Com a compra do Novo Banco, Portugal torna-se o primeiro país fora de França onde o grupo passa a ter uma operação de banca comercial. O grupo emprega 100 mil trabalhadores em todo o mundo e serve cerca de 35 milhões de clientes, de acordo com a informação no seu site.
Porém, noutras áreas, o BPCE já está presente no mercado financeiro português há vários anos, sobretudo através de três empresas: o banco de investimento Natixis, que tem desde 2017 um centro tecnológico no Porto, o Banco Primus, sediado em Paço de Arcos e que é especializado em crédito para a compra de automóveis e motos, e a Oney, muito focada no crédito ao consumo. No total, o banco francês tem 3000 trabalhadores em Portugal.
O CEO do BPCE, em conferência de imprensa, garante que, como não se trata de uma fusão, mas antes uma aquisição não tem planos para corte de postos de trabalho. “Não temos outro banco em Portugal para fazer cortes. Não estamos a falar de cortes de postos de trabalho. Estou a investir para fortalecer o novo banco. Não é uma sinergia de custos. Vamos continuar a estratégia do Novo Banco como ela é”. Por isso diz que conta com o compromisso da gestão atual e assume também não haver planos para mudar a marca. “É uma marca que foi construída ao longo dos últimos 10 anos”, por isso mudá-la “não está na agenda”.
Ao acolher o Novo Banco no Grupo, juntamente com as redes bancárias Banque Populaire e Caisse d’Epargne, que já servem a economia francesa, o BPCE irá reforçar ainda mais o seu papel como um importante parceiro de desenvolvimento para a economia portuguesa, reconhecida pelos seus sólidos fundamentos e resiliência. Com a transação, o BPCE pretende facilitar o financiamento de empresas e projetos de particulares locais, bem como alargar o leque de serviços oferecidos aos clientes portugueses. O BPCE utilizará toda a sua expertise para reforçar a criação de valor em estreita colaboração com o Novo Banco”, afirma o grupo francês.
O negócio marca a saída de Portugal do fundo Lone Star, que investiu mil milhões de euros no momento da compra do Novo Banco. Esses mil milhões não foram um preço pago pelo Lone Star ao Fundo de Resolução – porque esse foi nulo – mas foram, sim, o valor que o fundo aceitou injetar no Novo Banco para o capitalizar, após a compra. O Lone Star recuperou praticamente todos esses mil milhões só com a distribuição de dividendos que foi feita no final do ano passado. E, agora, recebe mais cerca de 4,8 mil milhões de euros pela posição maioritária que detinha no banco cujo saneamento promoveu nos últimos anos, contando com injeções públicas para compensar as perdas registadas num conjunto alargado de ativos “tóxicos” previamente delimitados.
Até se concretizar esta venda, o Estado tem 11,46% do Novo Banco e, indiretamente, é dono de mais 13,54% através do Fundo de Resolução. Este começou por ter 25% mas a sua posição foi diluída (ao contrário da participação do Lone Star, que o contrato de venda blindou) à medida que se foram convertendo os créditos fiscais gerados pelos prejuízos do Novo Banco nos primeiros anos após a venda. A diluição do Fundo de Resolução teria sido ainda maior caso a entidade liderada por Luís Máximo dos Santos não tivesse, há poucos meses, exercido um direito de conversão e pago 128 milhões de euros por 4,14% do Novo Banco.
Máximo dos Santos, numa audição parlamentar em fevereiro, afirmou que “não está na génese do fundo ter participações estratégicas”. “A nossa preocupação é gerar receita. Temos muito dinheiro a pagar”, acrescentou o presidente do Fundo de Resolução (e administrador do Banco de Portugal), em referência à situação líquida negativa da entidade que resgatou o Banco Espírito Santo e o Banif, que em 2023 superava os 6.700 milhões de euros – resultado dos empréstimos públicos que recebeu para injetar nas instituições financeiras e que serão reembolsados ao longo das próximas décadas.