Uma expressão, três intervenções, uma comunicação entre linhas que começou em teoria nos EUA e ganhou forma na chegada ao Porto. Quando André Villas-Boas inaugurou a Casa dos azuis e brancos de Nova Jérsia na antecâmara do decisivo encontro com o Al Ahly no Mundial de Clubes e falou de “altura de dar um murro na mesa”, deixou quase um ultimato no plano interno para aquilo que teriam de ser os resultados e a imagem deixada pelos dragões em campo – no futebol e nas outras modalidades, acrescente-se. “É preciso dar um murro na mesa mas temos de saber que murro se quer dar e não dar por dar. E o primeiro murro tem de ser com o Al Ahly”, “respondeu” de forma indireta Martín Anselmi. O tal “murro na mesa” transformou-se em quatro murros no estômago numa igualdade frente aos egípcios que expôs todas as fragilidades do projeto futebolístico do argentino. A conversa virou para paragem e reflexão. A saída estava mais próxima.

Mais do que a contestação de cerca de 50 adeptos na chegada ao aeroporto Francisco Sá Carneiro, algo que nem a saída pela zona VIP conseguiu evitar apontada não só ao técnico e aos jogadores mas também a toda a estrutura do futebol incluindo o próprio presidente portista, Villas-Boas queria chegar para perceber até que ponto o Mundial de Clubes tinha sido a causa ou a consequência de uma temporada falhada. Era aí que o futuro de Martín Anselmi estava em jogo. Mais: a própria maneira como o plantel foi montado, a forma como a estrutura foi conseguindo blindar ou não o balneário e o rendimento dos jogadores encontravam-se agora em análise com o objetivo de detetar problemas para encontrar soluções. O grupo não passou ao lado do que se passou a nível de resultados mas o treinador tornou-se o elo mais fraco. Era só uma questão de tempo.

Aqui começavam os dilemas de Villas-Boas. Depois de auscultar várias partes, da estrutura aos jogadores, passando por outras pessoas de confiança, o líder dos azuis e brancos, também ele conhecedor profundo de um balneário, entendeu que o antigo técnico do Cruz Azul deixara de ter condições para dar a volta ao atual momento dos dragões. Ou seja, colocando tudo nos pratos da balança, pontos como a identificação com a ideia de jogo ou ter ou não as peças indicadas para interpretar o sistema tático pesavam menos do que essa capacidade para inverter os maus resultados já pensando em 2025/26. Anselmi, por seu turno, não achava o mesmo. Além da necessidade de reforços que considerava serem fulcrais para o rendimento ser melhor, o técnico entendia que não teve o tempo que considerava merecer para fazer vingar o “seu” projeto.

Com isso, as possíveis negociações ficavam mais complicadas. Além dos 3,1 milhões de euros acordados com o Cruz Azul aquando da sua transferência, Martín Anselmi tinha um vencimento até junho de 2027 à razão de um milhão de euros por época (dois milhões brutos de encargos da SAD azul e branca) e não pretendia abdicar dessa verba ao contrário do que aconteceu com Vítor Bruno, que prescindiu de metade do valor que tinha a receber pelo vínculo assinado até 2026 em duas tranches, num acordo extensível aos adjuntos que saíram. Sem esse acordo com o argentino, que ainda para mais assinou por dois anos e meio, o FC Porto corria o risco de estar a pagar a dois treinadores em simultâneo. Era isso que Villas-Boas queria também evitar, numa fase em que a situação económico-financeira continua frágil no Dragão.

Ainda assim, e apesar de haver agora duas semanas de férias antes do regresso aos trabalhos do plantel (que antes do Mundial de Clubes teve também alguns dias de descanso, menos no caso dos internacionais), aquilo que se saiu de mais importante da reunião entre a estrutura dirigente dos portistas passava apenas pela saída do treinador, que quando se encontrou com a SAD já se fez acompanhar por um representante. O acordo final para a rescisão, que pode ser comunicada nas próximas horas num modelo semelhante ao de Roger Schmidt (início de conversações para a saída mas sem assumir a assinatura para a desvinculação, o que só aconteceu alguns meses depois no caso do alemão), ainda pode demorar, o que dá também margem para encontrar o nome que irá assumir o comando técnico do FC Porto na temporada de 2025/26.

Jorge Jesus foi um dos primeiros treinadores falados como uma possibilidade, algo que começou a cair logo à nascença tendo em conta as informações de que o antigo líder do Al Hilal pode estar perto de rumar ao Al Nassr de Cristiano Ronaldo (onde um dos favoritos era Sérgio Conceição). Depois, o italiano Francesco Farioli começou também a ser ventilado, sendo que neste caso não deverá entroncar com aquilo que deverá ser o perfil procurado pela SAD azul e branca, segundo soube o Observador: alguém que conheça bem o futebol português, que perceba o momento que o FC Porto atravessa e que aceite “fazer mais com menos” sustentado pelos valores do clube. A ideia de que a próxima escolha não poderá falhar também pesa nessa decisão, tendo em conta que André Villas-Boas acabou por contradizer aquilo que tinha garantido em março.

Aí, à margem de uma cerimónia que assinalou o 130.º aniversário do primeiro jogo oficial em Portugal, o líder dos portistas catalogou Martín Anselmi como “o treinador do projeto futuro”. “Qualquer treinador tem o espaço da sua adaptação. Este é um treinador que tem que se adaptar em competição, naturalmente. Portanto, as circunstâncias são outras. À medida que vai implementando o seu modelo de jogo, está em competição. Temos muita crença nele. Nesta fase é deixá-lo continuar a trabalhar e seguramente trazer estas vitórias que nós precisamos”, referiu na altura. O que mudou em três meses? Os resultados, as exibições, uma presença no Mundial de Clubes que funcionou quase como última “machadada” e conversas que foram sendo mantidas com o grupo, entre jogadores e estrutura. O argentino é mais visto agora como problema do que como solução, uma ideia que acabou por não “acolher” no encontro desta quarta-feira.

[A polícia é chamada a uma casa após uma queixa por ruído. Quando chegam, os agentes encontram uma festa de aniversário de arromba. Mas o aniversariante, José Valbom, desapareceu. “O Zé faz 25” é o primeiro podcast de ficção do Observador, co-produzido pela Coyote Vadio e com as vozes de Tiago Teotónio Pereira, Sara Matos, Madalena Almeida, Cristovão Campos, Vicente Wallenstein, Beatriz Godinho, José Raposo e Carla Maciel. Pode ouvir o 6.º episódio no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music. E o primeiro episódio aqui, o segundo aqui, o terceiro aqui, o quarto aqui e o quinto aqui]

É com este primeiro passo que se ensaia um esboço de novo ano 1 do futebol do FC Porto, que depois das vendas de Nico González e Galeno no mercado de janeiro poderá ainda ver mais saídas de pesos pesados no verão. Há jogadores que estão na lista de “vendáveis”, casos de Otávio ou Zaidu, mas as duas grandes pérolas dos azuis e brancos, Diogo Costa e Rodrigo Mora, estão a despertar uma cobiça que poderá ser difícil de resistir. O guarda-redes não teve qualquer conversa para deixar o clube mas admite fazê-lo mediante o tipo de projeto apresentado e uma proposta que possa chegar aos 50 milhões de euros, ao passo que, em relação ao avançado, a ideia passará por aguentar pelo menos mais um ano o jogador mesmo que seja feito algum acordo para uma venda futura, confirmando-se na prática o interesse que tem vindo a ser demonstrado.

Além dessas mexidas num plantel que deixará de contar com os emprestados Tiago Djaló e Fábio Vieira e que não deverá ter o regresso de Francisco Conceição perante a possibilidade de ficar a título definitivo em Itália (a Juventus vai tentar nesta fase baixar o valor dos 30 milhões de euros), podem existir mais mudanças na estrutura que acompanha todo o futebol profissional, no sentido de dar outra robustez a qualquer opção que venha a ser tomada para o comando técnico. Andoni Zubizarreta deverá continuar como diretor desportivo, Jorge Costa irá manter o posto de diretor do futebol mas haverá mexidas noutros nomes. Nesta primeira época, o presidente portista ficou satisfeito com as melhorias em algumas áreas do clube, entende que a marca FC Porto começou a reposicionar-se mas admite que faltaram mais sucessos desportivos.

Em paralelo com o futebol, Villas-Boas vai também tentar reforçar aquilo que são as modalidades de pavilhão, que terminaram a temporada com a conquista de apenas um Campeonato (hóquei em patins), uma Taça de Portugal e uma Supertaça (ambas no basquetebol). O basquetebol irá renovar aquele que é o núcleo duro de estrangeiros, o andebol teve saídas de peso mas contratações garantidas que irão cobrir baixas como as de Iturriza, Pedro Valdés ou Fábio Magalhães (com mais aposta na formação, que continua a dar cartas nas seleções mais jovens como tem acontecido no Mundial Sub-21 de andebol), o hóquei em patins deverá ter mudança de treinador anunciada em breve e o voleibol feminino lutará por recuperar o título perdido para o Benfica. Em paralelo, há novas modalidades que podem dar os primeiros passos no clube.