Não era a primeira vez que Oleh, ucraniano de apenas 19 anos, recebia uma proposta de trabalho pelo Telegram. Depois de ter recusado incendiar um edifício na sua cidade natal por não ser terrorista, o novo desafio, a troco de 800 euros, parecia simples. O que o jovem não sabia é que a mochila com supostas latas de tinta com as quais deveria pintar a fachada da esquadra da polícia, tinha, afinal, uma bomba artesanal.

Uma investigação do Serviço de Segurança da Ucrânia, revelada pelo The Guardian, detalha que Oleh não é o primeiro ucraniano a ser recrutado por russos para esta guerra de bastidores na Ucrânia, onde a Rússia quer fazer parecer que há uma forte contestação interna. O plano passa pelo aproveitamento de jovens que, como Oleh, precisam urgentemente de dinheiro — seja para pagar contas ou para responder a vícios — e já fez pelo menos uma dúzia de vítimas, entre mortos e feridos. Até ao momento, a mais jovem recrutada foi uma menina de 11 anos na região de Odessa.

A precisar de dinheiro, Oleh foi um alvo fácil dos russos

Desempregado, “sem fazer nada” há três anos, desde que saiu da escola, e pai desde 2024, os 800 euros oferecidos a Oleh apenas numa manhã pareciam ser uma boa solução para as dificuldades do ucraniano que tinha, então, um recém-nascido para sustentar.

Passava muito tempo no Telegram, onde recebia várias propostas de trabalho na Ucrânia para ganhar dinheiro rápido. A primeira missão foi simples: “Ele [o recrutador] disse que tinha empregos fáceis e que o pagamento era em dólares. Pediu-me para tirar fotografias do tribunal, do cartório de alistamento militar e da esquadra da polícia [da minha terra natal]”, relatou Oleh, que aceitou e recebeu pouco mais de 42 euros numa carteira de criptomoedas.

O procedimento é comum com vários angariadores russos que começam com tarefas simples, como tirar fotografias de locais sensíveis, imprimir/pendurar panfletos. Conquistada a confiança do jovem, sobem a parada.

É comum não revelarem que são russos e em vez disso alegarem que são ucranianos “cansados da guerra” e com vontade de mostrar que há oposição interna. Por vezes usam calão para tentarem passar por jovens e, não raras vezes, seduzem os recrutados, ou aproveitam-se da sua fragilidade emocional, explica o The Guardian.

Quando os jovens mostram alguma relutância, fazem chantagem e ameaçam enviar provas da cooperação anterior para as autoridades. Noutro caso, um russo ameaçou publicar vídeos e imagens íntimas de uma ucraniana.

Oleh não sabia que transportava uma arma e chamou a polícia assim que reparou que tinha uma bomba nas mãos

A insistência para subir o patamar das tarefas também se verificou com Oleh, que recusou incendiar um prédio da sua terra natal, por não se considerar um terrorista. Face à insistência do recrutador, o ucraniano bloqueou-o no Telegram.

Conscientes da necessidade de Oleh em ganhar dinheiro, os recrutadores voltaram à carga com outra conta e propuseram um simples trabalho a troco de 800 euros. Convencido de que tinha apenas de levar uma lata de tinta para uma esquadra, onde esta iria explodir, o ucraniano aceitou e partiu para a missão na companhia de um amigo, com quem dividiria o dinheiro.

Apesar de ter sido proibido pelo recrutador de abrir a saca, Oleh acabou por fazê-lo e ficou assustado ao encontrar um engenho que parecia uma bomba. Em pânico, correu para os polícias e revelou tudo o que se tinha passado. Os agentes imobilizaram os dois suspeitos, que saíram ilesos, e desativaram a bomba.

Oleh e amigo escaparam à morte, mas podem ter pena de prisão até 12 anos

Sorte diferente de Oleh e o amigo teve uma jovem desempregada de 21 anos que, também recrutada pelo Telegram, morreu quando a bomba que transportava explodiu em frente a um edifício militar na cidade ucraniana de Rivne — oito militares ficaram feridos.

Os serviços secretos ucranianos não conhecem a identidade do recrutador, mas acreditam que trabalha para os serviços russos. Ao The Guardian, as autoridades ucranianas dizem que a bomba de Oleh não detonou porque os serviços secretos estavam a monitorizá-lo há algum tempo e bloquearam o sinal para explodir o engenho.

Os suspeitos russos, com este sistema, podem facilmente detonar uma bomba em solo ucraniano sem terem que passar a fronteira. Para combater este recrutamento de jovens, que começou na passada primavera e tem moldes semelhantes ao caso de Oleh, as autoridades da Ucrânia lançaram um programa de sensibilização nas escolas para avisar as crianças dos perigos do Telegram.

Apesar de terem evitado a morte certa, os dois amigos ucranianos estão agora presos e aguardam julgamento que os pode levar à cadeia por 12 anos.