As eleições para a Duma Estatal decorrerão na Rússia de 18 a 20 de setembro de 2026. Estas são as primeiras eleições parlamentares realizadas em tempo de guerra: os soldados votarão a partir das suas unidades; aplicam-se regras especiais para a votação na linha da frente e nos territórios ocupados; e foram criados onze círculos eleitorais uninominais no território ucraniano ocupado, alguns dos quais, curiosamente, se estendem a cidades que, na realidade, não se encontram sob controlo russo. Moscovo está a utilizar as próximas eleições para transformar a anexação russa do território estatal ucraniano numa rotina administrativa.
As eleições como ponto fraco
Esta tentativa de normalizar a guerra sublinha o paradoxo central com que Moscovo se depara. A guerra contra a Ucrânia já se arrasta há mais de 12 anos. No entanto, o Kremlin tem-se mantido, em grande medida, fiel à sua estratégia de proteger a maioria dos russos da invasão.
Qualquer oposição significativa foi esmagada há anos, e o «Yabloko», o único partido registado que se opõe abertamente à guerra, foi retirado da lista eleitoral em agosto. Os resultados do «Yabloko» nas sondagens já tinham começado a subir mesmo antes de o partido ter lançado a sua campanha eleitoral. O que resta não é uma disputa entre o regime e os seus críticos, mas sim uma disputa entre candidatos que o regime já aprovou.
No entanto, um resultado predeterminado não torna a eleição sem sentido. O Kremlin precisa das eleições para dois objetivos contraditórios: tanto para transmitir e manter uma sensação de normalidade controlada, como para demonstrar o apoio público aos objetivos de guerra do Kremlin. A guerra deve ser suficientemente visível para legitimar o papel dos veteranos de guerra, as anexações territoriais e os sacrifícios contínuos, mas suficientemente distante para que a eleição ainda pareça estar a decorrer em tempo de paz. Uma eleição predeterminada pode esclarecer como o Kremlin tenciona integrar a guerra no sistema político da Rússia e onde esses esforços poderão encontrar dificuldades.
Os veteranos como a nova nomenklatura da Rússia?
Putin já utilizou eleições no passado para sinalizar legitimidade e controlo, e para orientar as elites concorrentes. Desta vez, porém, tem também de abordar o problema crescente da classe dos veteranos que regressam.
A «Novaya Gazeta Europe» estima que um total de 2,5 milhões de pessoas foram recrutadas, das quais pelo menos 400 000 já regressaram a casa das linhas da frente, com outras 700 000 prestes a seguir-lhes os passos caso a guerra termine. O contingente soviético total no Afeganistão, na década de 1980, ascendeu a 620 000 pessoas ao longo de um período de nove anos.
Os veteranos regressam com a expectativa de um estatuto privilegiado, mas também com redes de contactos forjadas durante o tempo que passaram na linha da frente e queixas que se acumularam ao longo da guerra. A questão política para Moscovo é, portanto: como impedir que este novo e vasto eleitorado desenvolva os seus próprios interesses e organizações?
O Kremlin já por duas vezes se viu perante a alternativa: os «Afgantsy» (veteranos da guerra do Afeganistão), cujas associações se desviaram para a economia e o crime organizado após o colapso do Estado soviético, e Prigozhin, cuja organização de veteranos marchou sobre Moscovo em junho de 2023. A sua resposta consiste em recompensar a lealdade individual em vez de permitir a organização coletiva — através de programas de emprego, cargos reservados na função pública, reciclagem profissional e incentivos aos empregadores, sendo grande parte dos custos transferida para os orçamentos regionais que já se encontram no vermelho. O Estado, que pagou aos homens para irem para a guerra, tem agora de lhes pagar novamente para que regressem a casa tranquilamente e sem alarido.
Putin foi ainda mais longe, sugerindo que os veteranos se tornassem uma nova classe política — essencialmente uma «nova elite» que poderia formar a futura liderança do país. Em 2024, lançou o projeto «Tempo dos Heróis», que visa acelerar a integração de veteranos (bem como de outros envolvidos na guerra, como os funcionários do complexo militar-industrial) em cargos governamentais. A nomenklatura soviética era uma lista de cargos controlados pelo Partido. «Tempo dos Heróis» é uma lista controlada pela Administração Presidencial. Agora que o regime eliminou o sistema de promoção comunista através de uma nomenklatura, já não dispõe de nenhuma instituição capaz de formar uma nova elite. Reta-lhe, apenas, nomear uma.
O «Rússia Unida» foi, como era de esperar, o instrumento mais importante para a criação da nova casta de guerreiros. Dos 4 374 candidatos nas primárias deste ano, 535 — ou 12 por cento — estavam registados como veteranos de guerra — uma categoria cujos resultados preliminares na votação foram automaticamente inflacionados em 25 por cento. Outros partidos também nomearam veteranos de guerra como candidatos: a Comissão Eleitoral Central aprovou 1 586 veteranos para concorrerem a cargos a nível federal, regional e local, incluindo pelo menos 200 para os 450 lugares na Duma. Em 2024, 308 veteranos da «Rússia Unida» venceram eleições locais e regionais. Estas eleições marcam a primeira vez que conseguem ter a oportunidade de conquistar lugares no parlamento federal.
O Kremlin estabeleceu uma quota para veteranos, para não ter um grupo de pressão de veteranos. O candidato ideal é um veterano leal ao governo e sem experiência política — trata-se de arranjar um historial, não uma candidatura. Nenhuma origem é excluída. Vladislav Golovin, de 29 anos, comandou um pelotão de infantaria marinha em Mariupol, foi ferido nesse local, concluiu o programa «Tempo dos Heróis» e agora lidera a lista nacional do «Rússia Unida» ao lado do ministro dos Negócios Estrangeiros, Sergey Lavrov, e do presidente da câmara de Moscovo, Sergey Sobyanin; Kiev procura-o por crimes de guerra.
Eduard Shonov, que integra a lista do partido em Moscovo, é um antigo combatente das forças especiais que participou na ocupação da região de Kiev e pode ter estado envolvido em crimes de guerra em Bucha. Estes registos são as suas credenciais. A cumplicidade une mais fortemente do que a ideologia e nunca exige um aumento salarial.
Outros «veteranos» são já quadros políticos consagrados, cujos currículos foram complementados com uma experiência militar. Seja como for, o Kremlin quer veteranos que possa controlar, não militares que possam agir por iniciativa própria. São integrados no regime de Putin sem que o próprio putinismo mude. Ssim se pretende que a guerra prossiga politicamente ainda que os combates cessem.
A Guerra Oculta
O «Rússia Unida» apresenta-se simultaneamente como o partido de guerra de Putin e como partido que protege os russos da guerra, isolando-os dela. Os seus dois principais candidatos estão a conduzir duas campanhas diferentes: o presidente da câmara de Moscovo, Sergei Sobyanin, rejeita como inúteis os apelos para colocar a economia em pé de guerra, e promete a um público exausto que nada mudará, enquanto Putin diz a esse mesmo público que os «heróis da operação militar especial» fizeram o povo russo sentir o que a Rússia realmente representa.
A velha fórmula era a estabilidade, apresentada sob forma de promessas eleitorais — estradas, escolas e infraestruturas, programadas para coincidir com as eleições. Mas esta fórmula esgotou-se: os orçamentos estão no vermelho e, mesmo em Moscovo, escolas e clínicas estão a ser encerradas.
Trata-se de «estabilidade negativa». O Kremlin já não consegue comprar a normalidade que tem de exibir; pode, no entanto, encená-la e controlá-la — daí as restrições a aplicações de mensagens como o Telegram e o WhatsApp, bem como a repressão às VPN. A guerra já está a influenciar as eleições: os deputados comunistas afirmam agora abertamente que a economia não aguenta uma guerra prolongada.
Os ataques de Kiev ao território russo estão a redefinir a geografia da incerteza e, nos territórios ocupados, estão a impedir Moscovo de normalizar a anexação — um processo que os novos círculos eleitorais se destinam a legitimar. Durante a crise da gasolina neste verão, Putin rejeitou abertamente a oferta de Zelenskyy de uma moratória mútua sobre os ataques ao interior do país: A decisão de manter a guerra na ribalta recai sobre ele — contrariamente aos instintos da própria lista do seu partido.
O Kremlin está a usar as eleições para «branquear» a guerra e a anexação, integrando-as em biografias políticas comuns. O Ocidente deve rejeitar este «branqueamento»: qualquer membro do parlamento eleito a partir dos territórios ocupados ou através da quota dos veteranos deve ser adicionado à lista negra no dia em que os resultados forem anunciados, e nela deve permanecer na vigência de todo o mandato.