A morada privada do primeiro-ministro sueco, a sua localização diária — em trabalho e lazer — e muitos outros dados que comprometeram a sua segurança e a de outros membros do governo, bem como da família real da Suécia, foram, ao longo de anos, partilhados pelos profissionais de segurança que acompanham diariamente estas altas figuras estatais. Tudo aconteceu através da aplicação de fitness Strava, que permite registar os percursos de atividade desportiva feitos pelos seus utilizadores.

A notícia foi avançada pelo jornal sueco Dagens Nyheter, que investigou sete guarda-costas que, no total, partilharam mais de 1.400 atividades de treino na aplicação, com a informação da partida e chegada dos percursos tornada pública. O jornal sueco garante que todos estes profissionais dos serviços secretos suecos protegeram diversas figuras do governo central e da realeza da Suécia no ano passado.

No que respeita a Ulf Kristersson, o chefe do governo sueco, os seus guarda-costas partilharam pelo menos 35 vezes informações diretamente relacionadas com o paradeiro do primeiro-ministro e os locais que habitualmente frequenta, incluindo a sua residência privada, cuja morada é suposto ser mantida em segredo por ordem do próprio governo sueco, que alerta com frequência para o risco de ameaças ou violência caso seja divulgada.

Este endereço e o de outros locais estratégicos acabaram por se tornas acessíveis, mas não só. Através do cruzamento de pontos de partida e chegada eram detetáveis padrões de movimento que poderiam ter entregado facilmente informações privilegiadas a quem planeasse um ataque contra a integridade física de um dos membros do governo ou da família real da Suécia.

Localização de altas figuras suecas rastreável em visitas à Ucrânia, Israel e Mali

Segundo o jornal sueco, até mesmo as rotas de corrida de Kristersson acabaram por ser reveladas publicamente, já que treinava na companhia dos seguranças. Para lá da rotina diária, o jornal conseguiu descobrir o local onde o primeiro-ministro e a família ficaram, numa viagem privada para Åland, uma região autónoma da Finlândia, em outubro de 2024.

Descobriu-se igualmente que as informações confidenciais envolviam outros membros importantes da sociedade sueca, incluindo a família real, a líder dos social-democratas e antiga primeira-ministra Magdalena Andersson e ainda o líder dos democratas suecos, Jimmie Åkesson.

Fora da Suécia, há registos de treinos de seguranças do primeiro-ministro e de outros membros do governo sueco enquanto estes representavam o país em bases militares no Mali, perto da fronteira ucraniana na Polónia e até na marginal de Telavive. No último caso, o Dagens Nyheter conseguiu perceber que as corridas começaram e terminaram sempre perto do mesmo hotel de quatro estrelas, revelando o local da estadia do primeiro-ministro sueco quando estava na cidade israelita.

Esta não é a primeira vez que a aplicação Strava está envolvida num caso de divulgação de informação confidencial. Em 2018, foi revelado pela BBC que na “rede social para os atletas” foi publicada informação de corridas em bases norte-americanas na Síria e no Afeganistão, numa base britânica nas ilhas Malvinas, numa francesa no Níger e numa base russa na Síria — todas as localizações ficaram comprometidas graças a esta divulgação pública de informação.

Em 2023, como recorda o The Guardian, um ex-comandante de submarino russo foi morto, alegadamente com a ajuda da informação que partilhava no seu perfil aberto no Strava.