Depois de quase duas décadas de observação e análise, Catherine Corless assistiu, na segunda-feira, ao início oficial das escavações no terreno do antigo convento em Tuam, onde se estima que estejam enterrados os restos mortais de 796 crianças e bebés. “Ao olhar através de um pequeno buraco na vedação, senti uma alegria tranquila. O terreno está cheio de contentores e pequenas escavadoras. Finalmente está a acontecer”, disse à imprensa irlandesa.

Catherine Corless, antiga secretária de uma fábrica de têxteis, inscreveu-se em 2005 num curso noturno de história local, convencida de que seria apenas um “passatempo”. No entanto, o interesse pelos edifícios antigos da zona do condado de Galway levou-a a investigar o passado do convento St Mary’s Mother and Baby, gerido pelas irmãs do “Bom Socorro” — uma ordem religiosa criada durante a Revolução Francesa para acolher “os inválidos” e que durante grande parte do século XX recebeu jovens grávidas e solteiras para darem à luz.

Era nesta instituição que viviam algumas crianças “tristes e magras” que andavam na escola primária de Catherine. “As freiras diziam-nos para não nos misturarmos com eles, porque tinham uma doença contagiosa”, conta a historiadora, acrescentando que nunca mais os viu. Foram esquecidos.

O trabalho de investigação, que começou por ser uma curiosidade, depressa se transformou numa missão que viria a ser publicada num artigo em 2014: Catherine queria perceber o que tinha acontecido às crianças do convento. Ouviu relatos de vários habitantes e consultou arquivos e mapas, conseguindo obter registos de óbito de centenas de crianças (um processo que lhe custou tempo e dinheiro, uma vez que cada certidão tinha um custo de quatro euros). Depois de reunir todos os documentos, confirmou a morte de 796 bebés e crianças. Mas não havia registo de enterros.

A historiadora suspeitou, deste modo, da existência de uma vala comum e lembrou-se de um episódio que aconteceu em 1975 e que poderia estar relacionado com este casa: ossos humanos foram encontrados por dois jovens numa antiga fossa perto da instituição das irmãs do “Bom Socorro”.

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▲ A historiadora no exterior do convento St Mary’s Mother and Baby, gerido pelas irmãs do "Bom Socorro" durante grande parte do século XX

AFP via Getty Images

A investigação foi publicada em 2014, mas ninguém prestou atenção ao caso. A Igreja Católica negou qualquer responsabilidade e as freiras contrataram uma empresa de relações públicas para dizer que os ossos encontrados pelos dois jovens eram do século XIX, quando a Irlanda passou por um período de fome severa. Também a comunidade local acusou Catherine de manchar o nome de Tuam e da instituição Católica. “Disseram-me para deixar o passado em paz, que era uma vergonha, que eu estava a causar problemas”, relatou.

Embora existisse muita pressão para desistir deste caso, Corless não o fez. “Estes bebés estavam numa fossa séptica. Era tudo o que me vinha à cabeça. Tinham de sair dali”, referiu ao jornal irlandês. A atenção pública só chegou quando um familiar de uma das crianças leu o trabalho de Catherine nas redes sociais e contactou um jornalista. A história chegou a fazer manchetes da imprensa nacional e internacional.

A pressão pública levou a que o governo irlandês formalizasse um pedido de desculpas público e a que criasse uma comissão de inquérito. Em 2017, foi realizada uma escavação que confirmou a existência de uma vala comum com restos mortais de humanos.

Para Corless, a atenção pública foi um peso. “Tornar-me uma figura pública foi aflitivo, mas não podia parar. Era tudo por causa daqueles bebés. O que lhes fizeram foi tão injusto”, confessou, sublinhando que agora sente que o seu trabalho pode finalmente dar algum consolo às famílias: “Eles merecem mais do que uma placa. [Os bebés] foram tratados como se não fossem nada. Espero que agora lhes devolvam a dignidade”.

A nova escavação deve, agora, durar dois anos e, de acordo com os peritos forenses, os trabalhos irão ser “incrivelmente complexos”.