Uma equipa de especialistas forenses irlandesa iniciou esta segunda-feira um processo de escavação de uma vala comum nos arredores de um antigo convento em Tuam, no oeste da Irlanda, onde se acredita que estão os restos mortais de 796 bebés e crianças, vítimas de décadas de abusos e negligência por parte de uma ordem religiosa que estava ao serviço do governo.
A investigação remonta a 2014, quando a historiadora Catherine Corless descobriu sinais de uma vala comum em Tuam, no condado de Galway. As autoridades iniciaram, então, uma análise e descobriram que entre as décadas de 1920 e 1960 a instituição St Mary’s Mother and Baby recebeu cerca de 56 mil raparigas grávidas e solteiras para dar à luz em segredo. As mulheres eram, depois, separadas à força dos bebés. Algumas crianças foram acolhidas por famílias britânicas, irlandesas ou norte-americanas, mas muitas morreram e os corpos foram enterrados, sem lápide nem caixão, nas imediações do convento.
Em 2017, realizaram-se as primeiras escavações no local. Foi descoberta uma estrutura subterrânea com 20 câmaras que continham, segundo o The Guardian, “quantidades significativas de restos mortais humanos” e também sapatos e objetos de bebés.
A nova escavação deve, agora, durar dois anos, segundo a imprensa irlandesa, que cita as autoridades. O coordenador dos peritos forenses, Daniel MacSweeney, afirmou em conferência de imprensa que os trabalhos irão ser “incrivelmente complexos” e que vão contar com a ajuda da Colômbia, Espanha, Reino Unido, Canadá, Austrália e Estados Unidos: “Devem ser envidados todos os esforços para proporcionar aos que morreram um local de descanso digno”. “O que estou a tentar fazer é formar uma equipa multidisciplinar para que possamos obter o máximo de informações possível sobre os restos mortais das crianças”, sublinhou.
Esta casa — uma das muitas que na época acolhia mães solteiras — era gerida pela irmãs do “Bom Socorro”, uma ordem religiosa criada durante a Revolução Francesa para acolher “os inválidos”. No início da década de 20 do século passado, as autoridades do condado de Galway encarregaram a ordem de tomar conta de dezenas de “filhos do infortúnio”. Lá dentro, as mães e os bebés estavam separados. Muitas mulheres foram enviadas para as Lavandarias de Madalena (casas de trabalho geridas pelos católicos, onde eram detidas como trabalhadoras sem receber salário). As crianças que sobreviveram terão sido vítimas de fome, maus-tratos e trabalhos forçados dentro do orfanato.
Maggie O’Connor estava grávida quando chegou ao convento, aos 17 anos. Uma das filhas, Annette McKay, conta à CNN que a mãe foi violada por um funcionário da escola industrial onde cresceu e só soube que o bebé tinha morrido seis meses depois de ter sido enviada para outra instituição. “A filha do teu pecado está morta”, disseram, na altura, as freiras.
Após a história ter sido revelada, o governo da Irlanda apresentou um pedido de desculpas formal pelo “capítulo obscuro, difícil e vergonhoso da história irlandesa muito recente”. “Peço desculpa pelo profundo dano causado às mães irlandesas e aos seus filhos acolhidos nestes estabelecimentos administrados por freiras católicas e pelo Estado”, afirmou o primeiro-ministro, Micheál Martin, em 2021.