Uma carta de aniversário dirigida a Jeffrey Epstein e atribuída ao Presidente dos EUA, uma queixa por difamação contra o jornal que a avançou e um pedido do Departamento da Justiça a um tribunal para divulgar novos documentos sobre o magnata acusado de tráfico sexual e pederastia. No último mês tem sido impossível à administração de Donald Trump escapar ao caso Epstein, que deixou uma fação dos devotos apoiantes do líder norte-americano a lançar-lhe críticas e a exigir a desclassificação de mais materiais.

“Temos uma administração perfeita, somos falados no mundo todo, e pessoas egoístas estão a tentar prejudicar-nos, tudo por causa de um tipo que nunca morre, o Jeffrey Epstein“, desabafou Trump, no início do mês, na rede social que fundou. Nessa altura, tinha sido conhecida a decisão da administração norte-americanas de não avançar com a publicação da “Fase 2” dos documentos sobre o magnata que morreu em 2019 na prisão.

Para descontentamento do Presidente — “não gosto do que está a acontecer” — o tema não se esgotou e ganhou nova força quando esta quinta-feira o Wall Street Journal noticiou o conteúdo de uma carta que Trump teria enviado ao magnata. Afinal, que carta é esta que levou o líder norte-americano a avançar com um processo em tribunal e que motivou o jornal a garantir que se vai “defender vigorosamente” contra qualquer ação judicial?

O que diz a carta que Donald Trump terá enviado a Jeffrey Epstein?

“Temos certas coisas em comum”, “os enigmas nunca envelhecem”, “que todos os dias sejam mais um segredo maravilhoso”. As palavras, escritas em 2003, surgem numa carta que terá sido endereçada pelo atual Presidente norte-americano a Jeffrey Epstein e que faz parte de um livro com mensagens de amigos e familiares do magnata por ocasião do seu 50.º aniversário. A notícia foi avançada esta quinta-feira pelo Wall Street Journal, que teve acesso ao livro, criado por Ghislaine Maxwell, a britânica com ligações a Epstein que está a cumprir pena de prisão por crimes como tráfico sexual e abuso sexual de menores.

A relação entre os dois homens é por demais conhecida. Entre os anos 1990 e 2000, Trump e Epstein foram fotografados por diversas vezes em eventos sociais. Numa gravação da NBC de 1992, por exemplo, são vistos no resort de Mar-a-Lago, com Trump a encaminhar uma mulher na direção de Epstein. “Conheço o Jeff há 15 anos. É um tipo incrível. É muito divertido estar com ele. Dizem até que ele gosta de mulheres bonitas tanto quanto eu, e muitas delas são mais jovens. Não há dúvida: o Jeffrey gosta da vida social”, descrevia Trump numa entrevista à New York Magazine, em 2002. A carta agora divulgada podia ser mais um sinal dessa amizade, mas o líder norte-americano nega ser o autor. Afinal, o que diz em concreto?

“Um maravilhoso segredo” e “certas coisas em comum”. A polémica carta de aniversário que Trump terá enviado a Jeffrey Epstein

A mensagem surge datilografada dentro de um esboço de uma mulher nua, aparentemente desenhada com um marcador. A assinatura — apenas o primeiro nome, Donald — aparece “rabiscada” no corpo, “abaixo da cintura, imitando pelos pubianos”, descreveu o Wall Street Journal. O texto trata-se, na verdade, de um diálogo imaginário entre os dois homens.

Narração: Deve haver mais na vida do que ter tudo.
Donald: Sim, existe, mas não te vou contar o que é.
Jeffrey: Nem eu, porque eu também sei o que é.
Donald: Temos certas coisas em comum, Jeffrey.
Jeffrey: Sim, temos, agora que penso nisso.
Donald: Os enigmas nunca envelhecem, já reparaste.
Jeffrey: Na verdade, isso tornou-se claro para mim da última vez que te vi.
Donald: Um amigo é uma coisa maravilhosa. Feliz Aniversário — e que todos os dias sejam mais um segredo maravilhoso.

Segundo o jornal norte-americano, o livro está entre os documentos analisados pelo Departamento de Justiça dos EUA que investigaram Epstein e Maxwell — os chamados “ficheiros de Epstein”. Durante a campanha presidencial de 2024, Donald Trump admitiu a possibilidade de torná-los públicos, juntamente com os relacionados com o Presidente John F. Kennedy e com o ativista dos direitos civis Martin Luther King Jr, entretanto já desclassificados. Ao podcast de Lex Fridman, nomeadamente, garantiu que “não teria problemas” em divulgá-los.

“É uma coisa falsa”, “não são as minhas palavras”. Como é que Trump responde à polémica carta?

O Wall Street Journal questionou o Presidente norte-americano sobre a carta. “Isto não sou eu. É uma coisa falsa. É uma história falsa do Wall Street Journal”, começou por afirmar. “Eu nunca escrevi uma imagem na minha vida. Eu não desenho imagens de mulheres. Não é a minha linguagem. Não são as minhas palavras“, continuou.

Donald Trump ameaçou também que iria processar o jornal norte-americano se o artigo fosse para a frente. Na sexta-feira, um dia depois da sua publicação, avançou mesmo com um processo por difamação contra o índice Dow Jones & Co, a sua empresa mãe (News Corp), assim como o seu proprietário, Rupert Murdoch, chefe executivo, Robert Thomson, e os dois autores da peça (Khadeeja Safdar e Joe Palazzolo).

Na queixa, de 18 páginas e apresentada num tribunal da Florida, a equipa legal de Trump descreve o artigo do Wall Street Journal como “falso, difamatório, infundado e depreciativo”. Exige cerca de dez mil milhões de dólares em danos. Antes de avançar com o processo, Trump denunciou na rede social de que é proprietário que tentou impedir a publicação. “Eu disse ao Rupert Murdoch que era uma fraude, que não devia publicar esta história falsa. Mas ele fê-lo e agora vou processá-lo e ao seu jornal de terceira categoria”, escreveu na Truth Social.

Noutra publicação o líder norte-americano revelou que, devido à “quantidade absurda de publicidade dada a Jeffrey Epstein”, pediu à procuradora-Geral para tornar públicos todos os documentos “pertinentes” relativos à acusação contra o magnata. “Este GOLPE, perpetuado pelos democratas, deve acabar, agora mesmo!”, sublinhou. A decisão foi seguida pela líder do Departamento da Justiça, mas está agora dependente da aprovação de um juiz.

E como reagiu o Wall Street Journal à queixa de difamação?

O jornal norte-americano, garantiu que se vai “defender vigorosamente contra qualquer ação judicial”. “Temos total confiança no rigor e exatidão das nossas informações”, sublinhou na sexta-feira um porta-voz do grupo proprietário do Wall Street Journal num comunicado publicado horas depois de Donald Trump ter avançado com um processo em tribunal.

Esta foi até agora a única declaração pública do jornal sobre a queixa do Presidente norte-americano. O proprietário, Rupert Murdoch, também mantém por agora o silêncio.

De onde vêm as críticas dos apoiantes de Trump, entretanto apaziguadas?

Alguns dos apoiantes do movimento que suporta o Presidente, o Make America Great Again (Tornar a América Grande de Novo, MAGA), têm atacado a administração de Donald Trump pela gestão dos ficheiros de Epstein. As críticas começaram antes da publicação do artigo do Wall Street Journal, depois de o Departamento de Justiça dos Estados Unidos e o FBI comunicarem que não existem provas de que o magnata tenha sido assassinado, tenha chantageado figuras poderosas ou mantido uma “lista de clientes”, desmistificando assim teorias que envolviam o empresário que tirou a própria vida no verão de 2019 (quando estava detido por tráfico sexual).

Na sequência do memorando, tornado público pelo Axios, as autoridades norte-americanas explicaram que não iriam divulgar mais documentos da investigação, por considerarem que não seria “apropriado ou justificado”. O site escreve que esses documentos incluem pormenores sobre as vítimas ou informações que exporiam inocentes a “alegações de irregularidades”.

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Alguns apoiantes, porém, mostraram-se descontentes com as conclusões e com a decisão de não divulgar mais informações. Isto porque Trump, a procuradora-geral, Pam Bondi, e o vice-diretor do FBI, Dan Bongino, prometeram divulgar “a verdade” sobre os ficheiros. Aliás, em fevereiro deste ano já tinham sido desclassificados alguns documentos, como parte da primeira fase prometida pela administração Trump.

“Este Departamento de Justiça está a cumprir o compromisso do Presidente Trump com a transparência e está a levantar o véu sobre as ações repugnantes de Jeffrey Epstein e dos seus conspiradores”, disse a procuradora-Geral a propósito da primeira fase do plano. “O FBI está a entrar numa nova era — uma era que será definida pela integridade, responsabilidade e pela busca inabalável por justiça”, garantiu também o Diretor do FBI, Kash Patel.

Descontente com as críticas vindas da fação que o apoia, Donald Trump partiu para o ataque nas redes sociais. “O novo golpe dos democratas chama-se ‘farsa Jeffrey Epstein’, e os meus antigos apoiantes caíram neste disparate completo. Não aprenderam a lição e provavelmente nunca vão aprender”, escreveu na rede Truth Social. O chefe de Estado lamentou que, apesar de ter tido “mais sucesso em seis meses do que talvez qualquer Presidente na história dos Estados Unidos”, as pessoas só estarem preocupadas com o caso em torno do magnata. “Deixem esses fracos seguirem em frente e fazerem o trabalho dos democratas”, afirmou, acrescentando que já não está interessado no apoio desse grupo.

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A publicação do WSJ parece, no entanto, ter contribuído para voltar a unir os apoiantes do MAGA em torno de Trump, noticiaram o jornal Politico e a emissora ABC na sexta-feira. Um exemplo disso é Laura Loomer, uma voz influente da direita online, que na sequência das conclusões do Departamento da Justiça e do FBI disse que a administração geriu mal o caso e que Epstein poderia “consumir” a presidência de Trump. “A melhor coisa que o Presidente pode fazer é nomear um procurador especial para lidar com a investigação dos arquivos de Epstein”, disse ao jornal sediado em Arlington. Horas depois da notícia do WSJ estava a sair em defesa de Trump, descrevendo a história como “falsa”.

Loomer não é o único exemplo. Também Charlie Kirk, fundador do grupo conservador Turning Point, que pediu a Trump mais transparência sobre o caso Epstein, afirmou que o artigo do WSJ “não passa no teste do cheiro”. Já Elon Musk, que no mês passado escreveu nas suas redes sociais que Trump estava nos ficheiros de Epstein, uma publicação entretanto apagada, afirmou: “Parece falso”.

“Este é um lugar muito melhor do que ontem”, comentou ao Politico um aliado influente do movimento MAGA que falou em anonimato. “E parece certo criticar os media novamente”, acrescentou. “O ‘novo’ alvo é o alvo ‘original’ — o Estado Profundo e seus parceiros dos media”, disse também Steve Bannon, antigo conselheiro de Trump e apresentador do podcast War Room.

A administração norte-americana vai divulgar mais informações sobre os ficheiros Epstein?

Na quinta-feira em que o WSJ publicou o artigo de Epstein, Trump anunciou que ia pedir à procuradora-geral que solicitasse a um juiz federal a divulgação dos documentos do grande júri relacionadas com a acusação de 2019 contra Epstein. Pam Bondi cumpriu e, na sexta-feira, dirigiu um pedido ao tribunal federal de Manhattan.

Os grandes júris em processos criminais federais ouvem depoimentos de testemunhas e analisam documentos fornecidos em resposta a intimações para determinarem se os procuradores têm provas suficientes para acusar alguém de um crime. Esse é o tipo de material que pode vir a ser desclassificado com o pedido da administração Trump, mas é apenas uma pequena porção dos milhares de documentos relacionados com Epstein.

O New York Times salienta que esse material “não é exaustivo” e que não incluiria todo o material apreendido pelo FBI durante a investigação a Epstein e Maxwell, como o acervo de fotos encontrado num cofre na casa de Manhattan. O Politico aponta no mesmo sentido, acrescentando que informações sobre as buscas à sua ilha particular, à sua residência em Palm Beach e em muitas outras propriedades só foram realizadas depois de ter sido indiciado e também estarão fora da lista.

Independentemente disso, a decisão está agora nas mãos de um juiz federal, mas não há certezas de que a informação será mesma publicada. Segundo a imprensa norte-americana, é raro as transcrições de processos perante o grande júri serem divulgadas. Outro aspeto importante, destaca a CNN, é que antes de decidir sobre o caso o juiz deve consultar as vítimas e qualquer pessoa citada, mas não acusada. É um processo que pode levar semanas, meses ou anos para ficar concluído, acrescenta.

Nos últimos anos, juízes têm desclassificado centenas de documentos relacionados com Epstein. Muitos têm sido retidos por se considerar que seria inadequado e violaria às leis federais que protegem a privacidade das vítimas do magnata e de pessoas que, embora citadas, nunca foram acusadas de crimes. Caso um juiz acabe por autorizar a divulgação de novos documentos, é muito provável que parte do conteúdo seja redigido ou ocultado por motivos de privacidade ou segurança.