Desde 1837 que a receita dos Pastéis de Belém permanece inalterada e secreta. Ao longo de quase 200 anos, pelo menos três cofres abrigaram o segredo e um deles está prestes a ser exibido ao público.”Vai ser a primeira vez que vamos ter à vista o cofre onde se esconde a receita”, conta ao Observador Gracinha Viterbo, designer de interiores responsável pela intervenção que já começou e deve decorrer ao longo do próximo ano no espaço icónico em Belém. “Quando olhei para este cofre, que faz parte da história dos pastéis, senti que é o cofre para uma receita e não para encher de coisas. Imaginei o papel com a folha escrita lá dentro, que ninguém podia ver”.
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O cofre será, para a designer, a peça chave da nova loja dos Pastéis de Belém que abriu portas no final de junho.”Há uma sala em que ninguém entra, ninguém, só eles, porque é uma receita única que ninguém no mundo pode replicar. Podem tentar, mas nunca vão fazer igual”, diz a designer, que encontrou os cofres nos escritórios da empresa e pediu para que um deles fosse usado no projeto. “Há ideias de que eu não desisto”, brinca Gracinha, que revela que vai ser preciso esperar até setembro para ver a peça exposta. “Eles têm vários andares em cima da pastelaria daquele prédio, que agora vão mudar. Portanto, o cofre tinha coisas lá dentro e eu tive que esperar que tirassem, que vai ser agora em julho e agosto, para poder descer o cofre a esse tempo, por isso é que ele não está lá já.”
A nova loja é mesmo junto ao espaço já conhecido, numa sala com portas para a rua e acesso ao pátio da pastelaria. “Era uma sala branca, não tinha absolutamente nada lá dentro, nenhum pormenor, não havia estuque, não havia madeira, não havia nada”, diz a designer de interiores, que usou objetos históricos para trazer a identidade dos Pastéis de Belém ao projeto, como caixas de ovos de madeira antigas, caixas de chá ou de café. “Gosto muito de fazer obras históricas, sejam elas privadas ou públicas. Para a nossa equipa o essencial é respeitar o legado de um ícone nacional, porque eles estão ali desde 1837. Fizemos uma pesquisa do local e da história arquitetónica não só dos pastéis, mas também de casas icónicas europeias similares aos pastéis em outros contextos. Para mim é essencial ter referências que fazem parte da história do lugar”, explica Gracinha Viterbo, que diz que teve a intenção de passar “da sala branca para uma sala que parece que esteve sempre ali.”
▲ A sala antes da intervenção e as imagens dos trabalhos em andamento
Para a missão a equipa pesquisou os materiais usados nos palacetes da zona de Belém para reproduzir e manter o aspeto histórico. As paredes e tetos foram revestidos em azulejos azuis e madeira — Cerâmica São Vicente e carpintarias feitas no norte, com desenhos do atelier Viterbo — enquanto o piso é quadriculado preto e branco. “Não há absolutamente nada que esteja ali que existia, mas foi sempre com a intenção de parecer que sempre esteve lá, respeitando o resto da arquitetura e da história que se vê nas outras salas. Portanto os azulejos têm uma patina antiga, e ainda vão com os próximos meses e anos envelhecer mais um bocadinho, porque estão preparados para isso. A própria madeira tem um tratamento, uma patina envelhecida. O chão é de lioz e de uma pedra cinzenta escura também envelhecida.”
O resultado já visível é só a primeira parte da intervenção, que deve continuar ao longo do próximo ano nas demais salas da pastelaria, ao mesmo tempo em que esta continua em funcionamento. Entre janeiro e março o acesso passa a ser pela nova loja para que o balcão principal seja remodelado, e depois os outros espaços de forma faseada. “Este novo espaço não compete com o original, e o original não vai competir com este. Vão interagir um com o outro. Dizem que aquilo parece um labirinto. Acho que também há aquele sentido de descoberta. A pessoa quer sempre ir ver o que é que está na outra sala. Nós queremos respeitar esse sentido de história.”
▲ A nova loja inaugurou no final de junho e vai servir de acesso à pastelaria durante a intervenção ao balcão principal em janeiro
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Respeito e história são palavras que insistem em aparecer quando Gracinha Viterbo fala da inspiração para este projeto, mas também a emoção e a ternura. “Fomos para lá, eu e a minha equipa à abertura às oito da manhã, a todas as horas, para perceber quem eram as pessoas que frequentam a loja. Os turistas já sabemos, mas o que mais me comoveu foram os portugueses. As senhoras que se vestem com o chapéu e vão tomar o seu cafezinho, as pessoas que vão lá há 40 anos e que estão lá às oito da manhã para tomar o seu pastel e o seu café. É um ritual. O que mais me inspirou foi respeitar essas pessoas. Não lhes posso tirar o que elas têm.”