Acompanhe o nosso liveblog sobre a guerra na Ucrânia

Uma fábrica localizada em Yelabuga, a cerca de mil quilómetros de Moscovo, na Rússia, está a produzir mensalmente milhares de drones de longo alcance para utilizar contra o território ucraniano, recorrendo parcialmente à mão de obra de adolescentes.

De acordo com o The Insider, este complexo industrial, que recebeu a visita de Vladimir Putin, é uma peça fundamental na estratégia russa de intensificação dos ataques noturnos. Num vídeo partilhado pela televisão do Ministério da Defesa russo, é possível observar filas de jovens, muitos com apenas 14 ou 15 anos, a trabalhar na montagem dos drones Geran-2 (a versão russa dos Shahed iranianos).

Os adolescentes são integrados na produção após completarem o nono ano de escolaridade. Imagens da reportagem mostram dezenas de jovens a montar peças de drones e a operar computadores. “Para onde quer que se olhe, veem-se jovens a trabalhar”, diz o narrador do vídeo. A câmara também mostra uma faixa no interior da fábrica com a frase “Kurchatov, Korolyov e Estaline vivem no vosso ADN”, evocando figuras históricas ligadas ao programa nuclear e espacial soviético.

Paralelamente à produção industrial, foi revelado que crianças e adolescentes têm sido envolvidos desde cedo em programas estatais de formação tecnológica com fins militares. Iniciativas alegadamente lúdicas, como videojogos e concursos escolares, servem para identificar talentos promissores que depois são recrutados por empresas ligadas ao setor da defesa, muitas sob sanções internacionais.

Tudo começa com um videojogo chamado “Berloga”, lançado em 2022, no qual os “ursos inteligentes” têm de se defender de enxames de abelhas, usando drones para as afastar. O sucesso no jogo, que entretém centenas de milhares de jovens russos, pode levar a créditos extra em exames no final do ensino secundário. Os jogadores mais bem-sucedidos passam para competições mais avançadas, como a chamada “Big Challenges”, que procura alunos promissores para serem recrutados por empresas russas.

Vários participantes indicam que lhes é pedido que ocultem os verdadeiros objetivos militares dos seus projetos, apresentando aplicações civis como fachada. “Fomos proibidos de dizer que [o projeto] era necessário para a guerra e inventámos as candidaturas civis para um programa infantil. Um projeto deve ter sempre um duplo propósito, especialmente quando se é estudante. É uma regra não escrita que observei em todas as competições”, contou um dos jovens ao Insider.

Os drones produzidos pelos jovens, com alcance de até 1.800 quilómetros e capacidade para transportar ogivas de 50 quilos, têm sido largamente utilizados nos ataques em massa ao território ucraniano. Estima-se que a produção mensal na unidade de Yelabuga já ultrapasse os cinco mil aparelhos.

As autoridades europeias da área da defesa acreditam que a Rússia pretende intensificar os ataques ao ponto de lançar mil drones por noite, o que representaria uma pressão sem precedentes sobre os sistemas de defesa aérea da Ucrânia, que, além de limitados, são significativamente mais dispendiosos. Um míssil do sistema Patriot, por exemplo, custa cerca de 5,5 milhões de dólares (cerca de 4,6 milhões de euros), enquanto cada drone russo pode custar entre 30 a 45 euros.

Estas práticas, que incluem menores na construção e desenvolvimento de tecnologia militar, têm sido denunciadas por violarem normas internacionais e por colocarem os jovens em risco, uma vez que estas fábricas constituem alvos legítimos em contexto de guerra. A unidade de Yelabuga já foi alvo de ataques com drones por parte das forças ucranianas e foi incluída nas listas de sanções da União Europeia.

A instalação de Yelabuga foi criada em 2023 na Zona Económica Especial de Alabuga, situada perto da cidade de Kazan. Localiza-se nas margens do rio Kama, que está ligado ao Mar Cáspio através do rio Volga — o que proporciona uma linha direta de comércio com o Irão.