É uma decisão jurídica inédita em Espanha. O procurador-geral espanhol, Álvaro García Ortiz, vai mesmo sentar-se no banco dos réus e será julgado por alegadamente revelar segredos judiciais relacionados com o namorado da presidente da Comunidade de Madrid, Isabel Díaz Ayuso. O Ministério Público (MP) de Espanha terá revelado à imprensa e-mails em que o advogado de Alberto González Amador confessa que o seu cliente terá cometido atos ilícitos.
Esta terça-feira, o Supremo Tribunal anunciou que rejeitou o recurso apresentado Álvaro García Ortiz, que esgotou as vias jurídicas para impedir o avanço do julgamento. O processo judicial deverá ocorrer nos próximos dois meses, sendo que a decisão teve o voto a favor de três juízes — que consideraram uma “atuação coordenada e impulsionada pessoalmente pelo procurador-geral” —, enquanto um votou contra. Por implicar o namorado de uma das políticas mais mediáticas em Espanha, o caso ganhou inevitavelmente contornos políticos.
O PSOE não vai exigir a demissão de Álvaro García Ortiz, que está no cargo desde 2022 e que foi um nome proposto pelo governo de esquerda da altura (entre socialistas e Unidas Podemos). Em declarações aos meios de comunicação social espanhóis, Pedro Sánchez saiu em defesa do procurador-geral. “Apoiamos a ação do procurador-geral, acreditamos na sua inocência e conta com o aval e o apoio do governo de Espanha”, afirmou o secretário-geral socialista.
Por sua vez, o presidente do Partido Popular (PP), Alberto Núñez Feijóo, já veio a público exigir a demissão do procurador-geral. “Quem se senta no banco dos réus não pode julgar crimes. O procurador-geral deve demitir-se imediatamente. Não pode seguir nem um minuto mais”, defendeu o líder do partido no X.
Es sencillo.
Quien se sienta en el banquillo de los acusados no puede perseguir delitos.
El fiscal general debe dimitir inmediatamente. No puede seguir ni un minuto más. https://t.co/NfnIoVKjJr
— Alberto Núñez Feijóo (@NunezFeijoo) July 29, 2025
Devido ao regime de exceção por ocupar o cargo de procurador-geral, Álvaro García Ortiz não terá de se demitir, a não ser que seja por iniciativa própria. Fontes consultadas pela Europa Press negaram que o responsável jurídico vá deixar o cargo, reiterando a sua inocência e o seu compromisso em continuar a “defender a atuação e a integridade da instituição que representa”.
O Supremo Tribunal espanhol abriu, em outubro de 2024, um processo ao procurador-geral devido à divulgação aos meios de comunicação social de parte de um e-mail trocado entre o Ministério Público e o advogado de Alberto González Amador. Nesse e-mail, o advogado propunha ao Ministério Público um acordo em que admitia, para efeitos de negociação, a prática de dois delitos fiscais, com o objetivo de evitar a pena de prisão.
Ao mesmo tempo, o Supremo Tribunal decidiu arquivar o processo contra a procuradora-geral do Ministério Público de Madrid, Pilar Rodríguez, que era suspeita de ter sido a intermediária entre Álvaro García Ortiz e o advogado do namorado de Isabel Díaz Ayuso.
No que toca ao processo do namorado da presidente da Comunidade de Madrid, a Justiça espanhola pediu, de acordo com documentos consultados pelo El País e publicados esta segunda-feira, uma pena de prisão de três anos e nove meses e o pagamento de uma multa de 448 mil euros para Alberto González Amador. Em causa, estão suspeitas de fraude fiscal de 350 mil euros e falsificação de documentos.
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