A Iniciativa Liberal assegura que não quis apoiar João Maria Jonet como candidato à Câmara Municipal de Cascais por não lhe “reconhecer a idoneidade necessária e por não representar as ideias liberais” do partido, frisando que o informou “desde o primeiro momento”. Os liberais asseguram que Jonet lhes acenou com lugares e levantam dúvidas sobre o orçamento eleitoral do candidato independente e a “origem” do mesmo.

Em reação à entrevista na Vichyssoise, no Observador, em que Jonet referiu que a IL considerou que o independente podia ter uma candidatura vencedora (a IL “dizia ‘nós não sentimos que conseguimos fazer uma alternativa vencedora, precisamos saber se a tua é e se a nossa militância estaria aberta a isso'”) e que tanto no PS como na IL “o aparelho acabou por se sobrepor ao interesse de fazer uma construção alternativa à Cascais”, os liberais afastam-se dessas versões, deixando claro que foi Jonet que procurou a IL e insistiu para que houvesse um apoio.

“Nos últimos meses, o próprio [Jonet] tem-nos pedido insistentemente que reconsiderássemos a nossa posição, chegando a prometer-nos lugares elegíveis na vereação, na assembleia municipal e em juntas de freguesia, como se a IL Cascais estivesse disponível para se vender a troco de cargos“, escreve fonte oficial núcleo da IL Cascais em declarações ao Observador.

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Mais do que isso, em conversas a que o Observador teve acesso, João Maria Jonet insistiu várias vezes para que a IL lhe desse apoio ao longo dos últimos meses. Há mensagens que vão desde “convence lá o teu partido a apoiar-me” até a referências que dão conta de que os números das sondagens são um “forte argumento” para que as conversas prosseguissem.

Numa das conversas, João Maria Jonet chega mesmo a sublinhar que, caso a IL recue na ideia de candidatura própria, dá garantias de “um lugar de vereação” e mais lugares elegíveis nas juntas e assembleias municipais.

Ainda relativamente à entrevista no Observador, a IL recorda que Jonet afirmou que o partido “coloca os presidentes das concelhias como candidatos à câmara municipal” — quando diz que PS e IL “acabaram a apresentar em lugares muito cimeiros os seus dirigentes locais”  — garantindo que essa “informação é falsa“, já que “o candidato da IL, Manuel Simões de Almeida, não era membro da Iniciativa Liberal no momento do convite para encabeçar a candidatura, não é presidente da concelhia da IL, nem tão pouco membro do seu grupo de coordenação”.

A Iniciativa Liberal de Cascais confirma também que ouviu Jonet “de boa-fé” no dia 7 de outubro de 2024, “sem assumir qualquer compromisso”, e tendo “deixado claro” que “não havia, à partida, interesse em estabelecer qualquer tipo de colaboração“.

“Jonet comunicou-nos a sua intenção de avançar com uma candidatura independente, por considerar que, face à provável candidatura de Nuno Piteira Lopes, existiria margem para uma vitória sua — algo de que sempre fomos céticos. Acrescentou ainda que, antes de tomar qualquer decisão final, pretendia angariar entre ‘300 a 500 mil euros'”, explicam os liberais, frisando que o orçamento levantou de imediato dúvidas.

Segundo referem os liberais, o valor apresentado por Jonet era “superior ao total das despesas de todos os partidos que concorreram em Cascais em 2021, que, no conjunto, declararam gastos de cerca de 387 mil euros”, sugerindo que “ninguém angaria tais montantes ‘a troco de nada'” e questionando “a quem seriam pedidos esses fundos” e “em troca de quê”.

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Nas mesmas declarações, a IL acrescenta também que “João Maria Jonet confirmou que criou, juntamente com o seu diretor de campanha, a Associação Respirar Cascais” e acusando de ter sido omitida “qualquer ligação” ao candidato, por se afirmar que “este esforço cívico acreditava que João Maria Jonet seria a única pessoa capaz de mudar o concelho”. Desta forma, a IL Cascais conclui: “Agora sabemos que esta associação foi criada pelo próprio de forma a simular um apoio das bases do concelho a favor da sua candidatura.”

“Apesar de se queixar dos jogos políticos do PSD, cria uma Associação Respirar Cascais para simular um apoio público das bases do concelho à sua candidatura, com a clara intenção de enganar os cascalenses”, criticam os liberais. No seguimento, os liberais consideram que “fica por explicar a origem e o destino dos 300 mil euros orçamentados pelo candidato”.

No rol de críticas a Jonet, o núcleo da IL de Cascais argumenta que o candidato se apresenta como “independente, mas rodeia-se de pessoas influentes do chamado centrão, que por um lado mostram a sua fragilidade em termos de currículo, e por outro, colocam em causa a sua independência” os liberais asseguram que a proposta eleitoral “não apresenta um alinhamento ideológico, sendo uma manta de retalhos dos apoios que reuniu ao longo do tempo”.

Além de considerarem um “comportamento claramente antidemocrático” que Jonet tire “partido da sua posição como comentador para obter vantagens como candidato”, os liberais também defendem que “o percurso na Junta de Freguesia da Estrela, como assessor de Luís Newton, [com] envolvimento no caso Tuti-Fruti, demonstra um elevado grau de confiança política entre os dois, o que torna pouco provável não ser conhecedor dos jogos políticos realizados”.

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IL faz “desmentido longe da realidade dos factos”, acusa Jonet

Já ao final da tarde deste sábado, João Maria Jonet respondeu às acusações dos liberais num longo comunicado publicado no X. O candidato independente começa por desafiar a IL: “Liberais: e que tal debatermos Cascais?”, lançando-se depois a “esclarecer” alguns dos pontos da notícia avançada pelo Observador.

“Apesar de ter dito numa entrevista ao Observador que tinha feito o primeiro contacto com a Iniciativa Liberal e que tinha procurado uma solução de consenso; que não tinha sido possível pela vontade da IL ter uma candidatura própria protagonizada quase exclusivamente pelos seus dirigentes, a IL vem fazer um desmentido longe da realidade dos factos”, começa por atirar o candidato a Cascais.

Jonet acusa a IL Cascais de preferir “insistir em comentários sobre a única candidatura independente em Cascais do que em assinalar e debater os problemas e soluções para o futuro”, e de “disparar” contra si “como se não tivessem perguntado quais é que estaria disposto a acordar numa candidatura conjunta”.

Segundo o independente, “a conversa evoluiu para aí porque os próprios admitiram que programaticamente não parecia haver grandes divergências”, e que “as questões seriam algumas reservas da militância local” em relação a si.

Jonet diz que a IL “não viu problema em trocar posições em listas por coligações em sítios em que tem muito menos identificação ideológica com o candidato, como Vila Nova de Gaia. Ou em Lisboa, ou no Porto”. E vai mais longe, ao afirmar que “tal como o CDS, a IL vai seguindo o caminho de se tornar um apêndice do PSD, mais preocupado em manter o partido grande no poder do que em fazer uma oposição séria e construtiva”.

João Maria Jonet continua a defender a sua posição, ao contar que a IL “recebeu uma mensagem sobre lugares em listas porque puxou o tema. E como na sondagem que lhes enviei aparecíamos mais fortes juntos, aquilo que referi foi que juntos conseguiríamos eleger mais vereadores e deputados municipais (uma evidência que não tem problema nenhum)”.

Sobre o orçamento que suscitou dúvidas na IL, Jonet diz que “esse montante traduzia-se em reconhecer que a Câmara Municipal gasta milhões em comunicação institucional, o que na prática tem potencial para tornar o candidato da AD num competidor desleal, apesar desses valores não virem obviamente discriminados nos orçamentos de campanha daquela coligação…”. Revela que a sua candidatura independente “terá um orçamento a rondar 1/10 do valor inicialmente previsto (para uma lista conjunta)”.

O candidato termina a resposta “acerca de um assunto de bastidores políticos, certamente pouco ou nada interessante para os cascaeneses” a acusar a IL de se estar a tornar “num partido igual a outros”, e a lamentar a quebra de confiança. “Deturpa e enlameia para manter as coisas como estão”, sublinha. Sobre as mensagens a que o Observador teve acesso, refere que lhe parece “inqualificável que a Iniciativa Liberal tenha disponibilizado ao Observador as nossas conversas privadas, acerca de negociações iniciais, sem o meu consentimento”.