Chega para a entrevista no programa Vichyssoise de tote bag ao ombro, com alças laranja e o seu nome gravado. João Maria Jonet conta como foi o processo que levou à sua candidatura como independente à Câmara de Cascais, uma ideia que no início achou “estapafúrdia” e para a qual foi “um bocadinho empurrado”.
Afastou-se do PSD, critica algumas “práticas questionáveis” que viu quando trabalhou para a Junta de Freguesia da Estrela liderada por Luís Newton e que também critica na “sucessão dinástica” que diz estar a preparar-se em Cascais.
É também muito crítico de Luís Montenegro e faz a comparação direta entre o atual primeiro-ministro e o antigo, que está a ser julgado por corrupção. Também vai ao despique com Sebastião Bugalho, pela comparação que sempre se faz entre os dois antigos comentadores que passaram diretamente para o palco político.
No espaço político diz que já se sentiu mais de direita e que hoje, aquilo que diz ter-se habituado a ver na direita liberal são “coisas de extrema-esquerda radical para muita direita”. Garante que não tem “fortuna pessoal nenhuma” que o ajude a pagar a campanha — mas tem “uma tia que tem uma empresa que faz brindes”, e a tote bag que traz ao ombro é “uma doação em género”.
[Ouça aqui a primeira parte da Vichyssoise:]
[Ouça aqui a segunda parte da Vichyssoise:]
Anunciou a desfiliação do PSD num artigo publicado no Observador, mas diz que é de esquerda. Nunca gostou de nenhum líder do PSD e até anunciou que poderia votar em Rui Tavares nas legislativas. A questão é o que é que ainda estava a fazer no PSD?
É uma boa questão. Eu não digo que sou de esquerda porque gosto de me convencer que não sou, mas acho que houve uma alteração do que é que significa ser de direita nos últimos 10, 15 anos que não regista com a maneira como eu vejo ser de centro-direita. Acho que há uma irresponsabilidade fiscal e orçamental na direita para ganhar eleições, um desespero para agradar, que não é o tipo de direita com que eu cresci.
O intuito era esse, que quando o PSD foi fundado isso seria visto como sendo de direita e hoje aquilo que pensa coloca-se à esquerda?
Eu tenho usado várias vezes como graça esta frase, que hoje em dia sou de esquerda contra a minha vontade, porque parece que, hoje em dia, defender mercados livres, responsabilidade fiscal, imigração como vetor de crescimento económico, que são coisas que eu me habituei a ver na direita liberal, são coisas de extrema-esquerda radical para muita direita. A partir do momento em que a direita respeita figuras com a irresponsabilidade populista de Donald Trump, tenho muita dificuldade em identificar-me como sendo de direita. Mas acho que, noutros tempos, seria o mais normal. Isto é uma experiência relativamente normal em muitas pessoas de centro-direita. O Bill Kristol, o ex-chefe de gabinete do vice-presidente Dan Quayle, era muito à direita em 1990 e hoje em dia é membro do Partido Democrata. Não é porque ele tenha deixado de ter aquelas convicções, é porque eles deixaram de ter casa na direita. Quem veja muitas das coisas deste Governo PSD semi-ligado ao Chega, percebe que muitas das coisas que podiam fazer uma pessoa defender o Governo de Pedro Passos Coelho já não estão aqui para 2025.
Está num processo Sousa Franco, portanto.
Nunca me compararia a uma figura tão importante da história do PSD. Mas na sua história inicial, o PSD nem sequer era um partido de direita para muita gente, para a maioria dos eleitos até. Se transportássemos as minhas posições de agora para essa altura provavelmente até estaria melhor no CDS de Freitas do Amaral do que no PSD.
Já disse que “nunca” ouviu “uma ideia” a Luís Montenegro. Esta crítica não é injusta?
Gostava que alguém provasse que estou enganado. Não acho injusto, acho que Luís Montenegro é o produto de uma maneira de fazer política que se instalou no PSD, e no geral no país, em que ter uma ideia é um perigo eleitoral demasiado grande. E, portanto, as pessoas vão crescendo nas concelhias e nas distritais do partido e vão ganhando relevância, tentando ser o máximo de coisas para o máximo de pessoas possíveis e comprometendo-se com o mínimo de ideias. Eu acho que o Luís Montenegro é um grande exemplo disso. Acho que foi colunista, comentador, candidato a primeiro-ministro entre 2019 e 2024 ininterruptamente. O Luís Montenegro é um ótimo porta-voz. Eu acho que foi um excelente porta-voz do PSD até certa altura. Mas os porta-vozes não são propriamente conhecidos por terem ideias da própria cabeça.
Também o chegou a comparar com José Sócrates. São comparáveis?
A comparação que eu fiz tem a ver com a maneira como as pessoas têm muito uma maneira mais simpática de olhar para comportamentos que acham inaceitáveis no partido da oposição e aceitam no seu — e o Pedro Magalhães agora recentemente apresentou uns dados sobre isso. Os comportamentos à volta do caso Spinumviva, se fossem de um primeiro-ministro do PS, causariam escândalo nas hostes do PSD e seriam vistos como comparáveis a José Sócrates. Como são no PSD, tudo é desculpável com base naquele argumento: “Já não se pode ter uma empresa”. Como se um primeiro-ministro pudesse ter uma empresa de lobby. Mas a comparação tem a ver com isso e acho que é justa.
Mas daqui a uns anos vamos poder dizer que afinal Montenegro era igual a Sócrates?
Já podemos dizer agora [que Montenegro é igual a Sócrates], porque na coisa de mentir – e muito – sobre os interesses financeiros que tem enquanto está no cargo já é igual. Agora, se depois é condenado ou não, a comparação não era judicial, a comparação era política: um partidário do PSD está a ser profundamente incoerente quando defende a idoneidade de Luís Montenegro ao mesmo tempo que passou, de 2005 a 2011, a dizer que José Sócrates era um bandido incorrigível.
Os militantes do PSD estão inebriados, de alguma forma de olhos vendados, face a alguém que é parecido a José Sócrates?
Há uma mentalidade de claque e um desespero por estar no poder que não olha a meios. E isso não é o PSD em que eu me revejo. Eu sou mais do PSD do “que se lixem as eleições”.
Tem sido muito vocal com as questões éticas de Luís Montenegro, como continuamos a ver, mas quando trabalhou na Junta de Freguesia da Estrela já eram conhecidos vários casos, com falhas do ponto de vista ético, a Luís Newton. Nessa altura não tinha uma preocupação tão acentuada com a questão ética?
Não tenho dúvidas de que ter trabalhado na Junta de Freguesia da Estrela e ter estado dentro do aparelho do PSD em Lisboa me abriu os olhos para muitos problemas do nosso sistema partidário de que não tinha consciência antes. E uma coisa é uma pessoa ter ideia de acusações, outra coisa é conhecer no terreno. E sei que fui para lá trabalhar já com muitas suspeitas e pé atrás em relação a muitas coisas que se passavam na distrital de Lisboa. E não têm só a ver com Luís Newton, nem pouco mais ou menos. Havia vários grupos com práticas questionáveis e já tinha levantado – e eu tenho um percurso televisivo um percurso de redes sociais que pode ser consultado – essas questões sobre o PSD em Cascais e em Lisboa. E aliás, o Luís Newton sabia isso na altura em que me contratou. Se eu tivesse visto coisas – e se calhar era por isso que havia certas reuniões para as quais eu não era convidado – que apontassem para a ilegalidade, certamente o Ministério Público saberia.
Mas só para a ilegalidade? A questão ética já não era por si suficiente? Disse que quando aceitou trabalhar com ele já sabia de algumas práticas.
Sim, já sabia que havia coisas questionáveis na maneira como se geria o PSD em Lisboa. Eu não participei delas e critiquei-as internamente. Eu tive alguns anos no PSD.
Isso também podem dizer muitos dos ministros e atuais dirigentes do PSD sobre o Luís Montenegro. Também não participaram em nada.
Não sei se podem. Acha que não criticaram? Pelo menos nas reuniões do Conselho Nacional o que eu vi foi um longo e forte aplauso mas eu estive em conselhos distritais do PSD e não foi essa a minha atitude.
Criticar internamente então é suficiente, do seu ponto de vista, para validar essa participação?
Mudei a minha perspetiva de há seis anos para cá – quando me inscrevi no PSD – até agora, na medida em que deixei de acreditar que é possível mudar o PSD por dentro. O PSD está demasiado comprometido com o poder para ser capaz de ser mudado por dentro, mas tentei. E tentei aprender como é que funcionavam as estruturas para conhecer melhor como é que as podia desmontar.
Foi esse raciocínio que também teve quando depois participou na candidatura de Jorge Moreira da Silva à liderança do PSD que tinha como diretor de campanha Carlos Eduardo Reis que era suspeito no processo Tutti Frutti?
Participei na campanha bem antes de haver diretor de campanha. E conhecendo as suspeitas que existem sobre o Carlos Eduardo Reis é uma pessoa com quem eu gostei de trabalhar e que, do ponto de vista da experiência política da organização do partido, me mostrou muitas coisas que eu achei importantes para perceber melhor o partido. O que critico no partido, critiquei na altura e continuo a criticar, é tratarem-se os cargos públicos como maneira de usar meios para fazer campanha. Isso faz-se em todos os partidos em Portugal, infelizmente. É triste, mas é verdade. Eu saí da Estrela precisamente porque percebi, no início de 2021, que alguém que trabalha numa autarquia num ano eleitoral trabalha para a campanha e não para a autarquia em que está a trabalhar. Não me identificava com isso e por isso saí. Agora, não me arrependo das minhas experiências e acho que me ajudaram a perceber bem como é que os partidos de poder em Portugal funcionam e a perceber bem o que é que eu quero mudar. Se não tivesse criticado por fora, tinha criticado com muito menos conhecimento de causa.
Costuma dizer que não é Sebastião Bugalho. Apesar de nunca ter sido jornalista, também passou de comentador televisivo a candidato. É um Bugalho 2.0?
Somos diferentes ideologicamente. Somos diferentes em termos de percurso. Não é propriamente comparável fazer uma candidatura à minha terra, independente, com um ano antes de antecedência, sendo uma coisa que eu já tinha declarado antes. Ou seja, não fui para o comentário pelo comentário. Fui para o comentário depois de ter participado ativamente na política e com a intenção de voltar a fazê-lo. Portanto, nunca fui com a expectativa de ser isento. Disse muitas vezes, no meu comentário, que era militante do PSD, quando fazia comentário de política nacional, que já não faço desde que sou protocandidato, que era militante do PSD.
Não disfarçava ambições políticas.
Sim, não andei a… acho que isso é diferente. Fazer um percurso de comentador profissional, uma espécie de árbitro do sistema político e depois entrar na política poucos meses depois de dizer que isso não faria sentido nenhum, é diferente de uma pessoa já estar a avisar o telespetador: olha, eu participo da política, eu estou interessado. Eu sou um político. Eu costumo dizer que o comentário é um bocadinho o pousio dos políticos. Ficam ali à espera. E é diferente, não fui por vários partidos, não sou cabeça de lista de um partido não usei isto como plataforma de lançamento até porque nunca falei muito de Cascais no meu comentário.
Foi isso que Sebastião Bugalho fez? Utilizou essas plataformas para se lançar na política, é isso? E de forma escondida?
Acho que há uma cultura de fazer isso dissimuladamente que eu não acho boa. Seria bom – mas as pessoas não levam bem – um bocadinho de honestidade inicial, de não dar tantas entrevistas a dizer desta água não beberei e depois beber. Mas não acho isso propriamente criticável, acho que ele cresceu nessa cultura e eu também. E ele tem toda a legitimidade, é uma pessoa inteligente e tem toda a legitimidade e capacidade para participar da política e eu gosto que pessoas inteligentes e capazes como ele participem da política. Agora, gostava que não existisse esta dissimulação e este brio esquisito pela profissão de comentador. Comentador não é uma ocupação, é uma coisa que se faz enquanto se faz outras coisas, não há uma coisa com um código deontológico.
Falou de si próprio como protocandidato, quantas assinaturas é que lhe faltam para ser um candidato a sério?
Neste momento, oficialmente faltam 600. Começámos a recolha a 25 de junho, no meu lançamento de candidatura, e já temos 3.429 na última contagem que foi da noite de anteontem. Estou bastante tranquilo que até o dia 18 de agosto teremos as 600 que faltam e tranquilo de que vamos apresentar listas, que é também o outro passo complicado porque é um concelho que precisa de muitos membros efetivos de listas e portanto também muitos termos de candidatura agora para assinar além das assinaturas.
Soube-se que tentou um acordo com o PS para Cascais, o que é que falhou?
Muito simples. Fui convidado pelo Partido Socialista para conversar, eu acho que faria sentido uma solução abrangente da oposição em Cascais para haver a necessária rotatividade. É o meu valor mais básico na política que não faz bem a partido de nenhum — PS, PSD, PCP, estarem 24 anos no poder como está o PSD, agora acho que se cria uma espécie…
Mas se fosse Joana Balsemão ou Batista Leite já não avançava e era o PSD que ficava lá na mesma.
Sim, acho que fazia sentido a renovação interna do PSD idealmente porque me revia nisso e acho que seria um corte brutal. Mantendo-se o mesmo partido, acho que seria um corte brutal. Porque isto depois tem a ver com grupos internos. Não têm nada a ver os primeiros 10 anos desta coligação com António Capucho, depois é quando o grupo de Carlos Carreiras toma conta do partido. E, portanto, uma tentativa de reaproximar o PSD dos valores que lhe permitiram reconquistar a Câmara em 2001, a mim atraía-me. Mas tenho consciência que a minha candidatura tem fragilidades pela minha idade e por isso é que a minha lista também terá isso em consideração.
Mas porquê? Por não ter ainda muita experiência ou porque acha que há um preconceito em relação a si por causa da sua idade?
Não tenho experiência para sozinho estar a dizer “sim senhor”, mas acho que ninguém governa sozinho. Acho que com 27 anos dizer que “vou governar a terceira câmara mais rica do país com um orçamento de 400 milhões e está tudo bem, confie em mim”, acho que não é o ideal e por isso é que vou procurar ter uma lista que reforça essa capacidade de gestão e essa experiência camarária e tenho nomes para isso que não vou anunciar já, mas que…
Vai pescar também outros grupos internos do PSD?
Sim. Posso dar essa garantia de que terei pessoas que já participaram em executivos camarários anteriores do PSD em Cascais. Percebendo que este processo de sucessão de Carreiras ia resultar nesta lógica dinástica de escolher o presidente da concelhia do PSD — só porque controla o aparelho o suficiente para se autoindicar como candidato — e de eu achar que é uma pessoa que não tem todas as características necessárias para ser presidente da Câmara, o que eu procurei primeiro fazer foi garantir que o próximo presidente da Câmara seria uma pessoa com experiência, visão e capacidade. Para dar o salto qualitativo que Cascais precisa e ter as preocupações com os temas que a coligação nos últimos 15 anos tem ignorado. Ao não conseguir convencer essas pessoas que referi, nomeadamente o Ricardo e a Joana, e ao sair o Miguel [Pinto Luz] – que eu acho que é uma pessoa que apesar de ter algumas discordâncias comigo em relação à visão que tem para Cascais tem visão estratégica e em quem eu confiaria que seria um bom presidente da Câmara – fui um bocadinho até empurrado. As pessoas disseram “estás a tentar convencer-nos tanto, porque é que não vais tu?” E eu, apesar de ter este pé atrás e de ter achado a ideia estapafúrdia ao início, foi-se montando uma coisa que faz sentido, uma equipa que faz sentido e que era preciso haver uma alternativa porque em Cascais essa alternativa não existe.
Mas há pouco disse que criou o acordo com o PS para haver essa alternativa. Não fica curta a sua candidatura no sentido de tentar ter uma alternativa vencedora?
Sim, preferia que o espaço não estivesse partilhado. Falei com todos os partidos do arco democrático – às vezes, a convite deles; outras por desafio meu. Falei com Livre e PAN, mas sempre achei que não havia [compatibilidades] ideológicas suficientes com o meu movimento e comigo. Falei, porque conheço há muito tempo o presidente da Iniciativa Liberal de Cascais, e a IL dizia “nós não sentimos que conseguimos fazer uma alternativa vencedora, precisamos saber se a tua é e se a nossa militância estaria aberta a isso”. É sempre complicado a militância estar aberta a um comentador, porque um comentador vai forçosamente dizer mal de todos quando comenta todos e, portanto havia, ali alguns anticorpos. Teria feito sentido um entendimento independente com a Iniciativa Liberal, um bocadinho ao estilo do Rui Moreira, mas isso nunca interessa realmente às máquinas dos partidos. Nas máquinas dos partidos as pessoas tiram senha e, portanto, não querem estar a ser passadas à frente por um movimento independente e o partido depois não quer perder a subvenção, não quer perder o peso relativo na CCDR, não quer perder várias coisas. E isso foi o que aconteceu na conversa com a IL e com o PS. A conversa esbarrava sempre neste meu pedido que é: “Eu quero que seja um movimento independente os partidos se quiserem depois participam do movimento independente”. O PS não esteve aberto a isso e a IL também não. Ambos acabaram a apresentar em lugares muito cimeiros os seus dirigentes locais e, portanto, o que me faz sentir é isso: o aparelho acabou por se sobrepor ao interesse de fazer uma construção alternativa à Cascais, que eu preferia que estivesse menos espartilhada. Mas vamos à luta e nessa luta um dos eixos principais é a questão da habitação.
[Horas depois do crime, a polícia vai encontrar o assassino de Issam Sartawi, o dirigente palestiniano morto no átrio de um hotel de Albufeira. Mas, também vai descobrir que ele não é quem diz ser. “1983: Portugal à Queima-Roupa” é a história do ano em que dois grupos terroristas internacionais atacaram em Portugal. Um comando paramilitar tomou de assalto uma embaixada em Lisboa e esta execução sumária no Algarve abalou o Médio Oriente. É narrada pela atriz Victoria Guerra, com banda sonora original dos Linda Martini. Ouça o segundo episódio no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music. E ouça o primeiro aqui]
Nos eixos principais da candidatura a Cascais inscreve a habitação. “É tempo de travar o avanço do luxo inútil que serve poucos e construir com prioridade para quem cá vive. A habitação deve regressar às mãos de quem realmente precisa dela.” Isto é quase “a terra a quem trabalha”. Pretende limitar o investimento privado em Cascais?
Acima de tudo, vai ter mais exigência. Exigência em termos paisagísticos e ambientais. Há alguns atentados ambientais, como o caso do empreendimento na Quinta da Marinha, que matou 1.100 pinheiros mansos numa zona adjacente ao Parque Natural. Para mim, não faz sentido licenciar esse tipo de obras. Estaria limitado, do ponto de vista de não bloquear excessivamente o acesso da população ao mar, e estaria limitado no sentido em que Oeiras pratica e que muitas cidades europeias praticam: não permitir a promotores que façam o que quiserem em Cascais sem darem garantias de casas que possam ser usadas para a habitação, pelo menos a custos controlados. E tenho alguns casos chocantes em Cascais, de construção em zonas em que a câmara teria todo o interesse em atualizar a oferta de habitação para a classe média, e que não o faz. Há um exemplo paradigmático, é o Bairro dos Pescadores, no centro de Cascais, que é uma zona perfeita para pescadores, e agora vai ter uns lofts à frente. É uma descaracterização de Cascais na qual não me revejo. Não quer dizer que eu não quero atrair esse investimento, quer só dizer que eu quero ser mais exigente com ele.
Quer pôr os investidores em sentido?
Quero pôr os investidores em sentido, porque ao contrário de quem está na Câmara agora e faz reuniões internas de Câmara a apresentar-se como futuro presidente de Câmara, quero garantir que estou na Câmara porque estou preocupado com Cascais, e não estou na Câmara como trampolim e como alavanca para as minhas campanhas futuras e para os meus cargos futuros. Como eu quero garantir isso, como eu acho que não vou precisar da Câmara para me projetar – projetado eu já estou, vou precisar é de não ter buracos à porta de casa da minha mãe – o que eu estou interessado é em ser um bocadinho mais exigente com os investidores. E acho que uma máquina partidária que precisa de controlar 30% do PSD, que precisa de projetar ministros, que precisa de inventar presidentes de concelhia que têm que ser vendidos como presidentes de Câmara, precisa de ter muito dinheiro dentro da Câmara. Portanto, não vai olhar a meios para aceitar investimento porque precisa que a Câmara tenha muito dinheiro, precisa que a Câmara seja uma máquina muito grande. Eu quero que a Câmara seja uma máquina mais eficiente e que trabalhe primeiro para Cascais e não para os partidos.
Há outro ponto que importa muito a Cascais, que é a questão da mobilidade, a proximidade da Lisboa ganha uma relevância grande. Há muita gente que usa também o comboio, que é um assunto com vários anos de discussão, já agora sabe qual é o custo do bilhete entre Cascais e o Cais do Sodré?
É 2,40€. Eu tenho passe, mas sei o preço do bilhete.
Está certo. Falhou por 5 cêntimos, mas está mais ou menos no certo. Que solução é que têm também para a linha de Cascais?
Não tenho carro, portanto, essa coisa é daquelas coisas que eu tenho que saber. O PSD tem muita mania de, quando se aproximam as eleições, propor coisas absurdas, estapafúrdias para a linha de Cascais. Agora, deste ano, já houve a coisa de enterrar a linha, já houve a coisa de uma parte da linha passar para a gestão da Câmara. Eu acho que esta lógica de capelinhas na área metropolitana de Lisboa tem que acabar. Para já porque passa por três concelhos, forçosamente tem que ser uma solução a três. E depois, nós não temos sequer o sistema de bicicletas integrado, que é uma coisa absurda, e que a Câmara podia fazer. Na lógica dos comboios, não há muito que a Câmara possa fazer na prática. O serviço tem piorado também por causa das obras, demora agora mais tempo, em média 43 minutos, a chegar de Cascais ao Cais do Sodré, e demorava 38 num comboio rápido. Isso tem a ver com as obras e as obras estarem demoradas. A Câmara não pode fazer muito em relação a isso. O que tenho defendido neste tema é que um residente de Câmara, com o meu perfil, com um perfil mediático próprio e com um perfil independente, vai ser muito mais capaz de ser reivindicativo junto do Governo central para melhorar as condições da linha de Cascais, do que um presidente de Câmara que seja também um dirigente abaixo na cadeia alimentar do primeiro-ministro.
E não criticou muito Miguel Pinto Luz, portanto esse canal continua aberto para diálogo, caso seja necessário.
Atenção, não quero fazer uma campanha destrutiva, e não a vou fazer. Dou-me bem com estas pessoas. Elas estão um bocadinho viciadas no seu poder, e acho que isso não é bom e não lhes faz bem. A maneira como o PSD usa Cascais, e usou particularmente nos 7 anos em que o PSD não teve poder nenhum no continente, inchou a Câmara de uma maneira, e as pessoas que lá estão viciaram-se em usar o poder político para fazer crescer o poder partidário, em que eu não me revejo. Mas eu tenho boa relação com estas pessoas, e portanto diria que terei capacidade para trabalhar com elas. Agora, quero um comboio melhor, e quero um comboio ligado ao interior do concelho, e acho que isso vai exigir ambição nos transportes públicos em Cascais, que são a minha segunda maior prioridade.
Houve uma polémica em que era oferecido um euro a quem recolhesse assinaturas para a sua candidatura, demarcou-se dessa ideia que disse que era de um apoiante seu. Esse apoiante ainda está na campanha e isso não revelou falta de controlo sobre as pessoas que vão colaborando consigo?
Claro que está e eu admito que uma campanha independente tem muitas pessoas com inexperiência política. Até das coisas bonitas das campanhas independentes é que vêm muitas pessoas que nunca participaram na política antes, e portanto aqui foi um caso de excesso de voluntarismo. Não é ilegal, é importante dizer isso. Seria ok se o fizessem, mas eu não gosto dessa perceção porque até agora todas as pessoas que recolheram assinaturas para mim – e já estamos no terreno das centenas – fizeram-no voluntariamente, e a perceção de que as pessoas estariam lá pagas não é uma coisa que eu quero. Portanto, isso foi uma mensagem que foi mandada para um grupo.
Quem é que está a financiar a candidatura? Outdoors? Site? Saquinho de pano?
O saquinho de pano… tenho uma tia que tem uma empresa que faz brindes, então estamos aqui a falar de uma doação em género. Os outdoors são uma coisa cara, mas tenho um acordo com a pessoa que faz, porque já a conheço há alguns anos. E é um acordo relativamente normal para funcionar através da subvenção. Ou seja, a pessoa está a confiar que eu vou ter as assinaturas e que vou ter um resultado que lhe pague, mas acho que com as sondagens… É como quando se pede empréstimos ao banco usando sondagens. É uma coisa normal no financiamento partidário. Eu planeio ter transparência no financiamento partidário, o meu mandatário financeiro, que é o António Castro Henriques, vai ter essa preocupação e vamos querer apresentar contas transparentes não só da candidatura, que ainda não há conta de campanha, porque para isso é preciso haver um NIF de campanha. Há uma conta do mandatário financeiro comigo. Mas também, uma contabilidade transparente da associação que eu criei antes em outubro, da associação Respirar Cascais, que encomendou, por exemplo, as sondagens que eu já publiquei na ERC. Acho que estamos a fazer as coisas de forma transparente.
Está a pôr também da sua fortuna pessoal.
Eu não tenho fortuna pessoal nenhuma.
Disse que foi sondado por Pedro Campilho para se candidatar à Junta de Freguesia de Campo de Ourique, depois disso o próprio Pedro Campilho disse que foi o João Maria que lhe ligou e ainda acrescentou que não o conhecia “de parte nenhuma” e que não tinha sondado “para nada”. Quem é que está a mentir?
Eu, de facto, contactei o Pedro Campilho, portanto essa parte não é mentira, como contactei uma série de pessoas do PSD/Cascais para saber quem é que teria interesse em participar…
Mas tinha dito, à revista Sábado, que foi sondado para ser o candidato à Junta de Freguesia de Campo de Ourique, primeiro através de Pedro Campilho e depois de Gonçalo Lage.
Sim. Ou seja, eu disse “Pedro Campilho, quer conversar comigo? Vamos ali à Sacolinha do Bairro do Rosário.” Fomos os dois. Foi num local público, portanto até há-de haver testemunhas. Nessa conversa, essa pessoa que não me conhece de lado nenhum fez-me uma conversa indescritível sobre como tinha sido muito amigo do meu avô, que já morreu, e que não queria que o meu nome fosse enlameado e não queria que eu corresse riscos desnecessários e queria muito que eu fosse integrado dentro do partido. E eu percebi que vinha com um recado e percebi a manipulação emocional que ali estava. Portanto é mentira que ele não me conhecesse de lado nenhum. Já conhece a minha família há algumas gerações. E o que ele me propôs, a coisa para que ele me sondou inicialmente, foi para a Assembleia Municipal de Cascais. Disse: “vais agora para a Assembleia, integramos-te aqui e fazes um caminho”. Eu não mostrei interesse e ele, no meio desta conversa emocional, disse uma coisa que foi “esta conversa não vai sair daqui”. Eu, no máximo, ia comentar com o António Capucho, que fez a ligação, a meu pedido, porque eu queria falar com pessoas do PSD Cascais mais antigas, para ver se estavam descontentes ou não. Eu fiz muitas conversas. Eu sou protocandidato desde setembro, portanto eu já falei com muita gente. Como já sabia uns truques e para despistar esse facto da conversa não sair dali, eu nessa conversa disse que isso não aceitava, mas que vivia nos Prazeres e que a Assembleia Municipal não aceitava, mas, se calhar, Campo de Ourique. Depois o Gonçalo Lage, uma semana depois, veio falar comigo, eu fui ao Parlamento conversar com ele, e ele veio perguntar se eu estava a falar a sério.
Vamos acelerar. O PSD deve eleger o PS como parceiro único e preferencial?
No geral, na governação, acho que o PSD deve escolher partidos responsáveis, portanto, o PS ou qualquer outro que não chegue ao Bloco de Esquerda.
Álvaro Santos Pereira é uma boa escolha?
Acho que sim, não sou especialista em economia, mas fico muito contente que o Luís Montenegro nomeie um apoiante de Jorge Moreira da Silva, não é comum.
Rui Moreira faz parte da sua comissão de honra em Cascais. Vai retribuir esse apoio nas presidenciais?
Teria de avaliar as candidaturas presidenciais. Gosto do Rui Moreira, mas teria de avaliar as várias candidaturas. Ainda não decidi quem é que vou apoiar.
Não aplica a reciprocidade. Marques Mendes tem hipóteses contra o almirante?
Está tudo em aberto. Não estou a planear, até porque divide e não é prioritário até as eleições autárquicas, tomar uma posição sobre as presidenciais, mas gosto de Luís Marques Mendes e não conheço ainda o suficiente do almirante para cogitar votar nele.
Vamos então avançar para a fase do Carne ou Peixe, em que o convidado tem de escolher uma de duas opções. Preferia ser ministro num governo liderado por Carlos Moedas ou Jorge Moreira da Silva?
Jorge Moreira da Silva.
Preferia ter como frase de campanha aquela famosa da sua tia Isabel Jonet, “não podemos comer bifes todos os dias”, ou “não podemos ter a vila cheia de bifes”?
Não tenho nada contra os bifes em nenhuma das suas formas, enquanto consultor de comunicação, que já fui, era melhor a segunda do que a primeira.
Preferia perder Pote, Hulmand e Trincão ou ter um programa semanal a dois com o Sebastião Bugalho?
Claro que preferia ter um programa semanal a dois com o Sebastião Bugalho. Mas acho que ele não aceita e que os outros aceitam muito mais rápido sair.
Como presidente da Câmara era convidado por um conselho de Estado na cidadela de Cascais preferia que fosse com Marques Mendes ou António José Seguro?
É tramado, mas Marques Mendes.