Em semana de apresentação de resultados no setor da aviação, os três grupos europeus que são, até ver, os mais fortes candidatos à privatização da TAP, tiveram a oportunidade de renovar o seu interesse na operação.
Ainda sem conhecerem o caderno de encargos, os dirigentes da Lufthansa, Air France KLM e IAG foram confrontados com a pergunta inevitável. A resposta foi positiva, mas acompanhada de uma série de salvaguardas.
“Não é surpresa nenhuma que todos os principais players da aviação na Europa baseados em Londres, Paris e Frankfurt estão a olhar para isso (a TAP é a das poucas companhias de bandeira europeia que ainda não entraram num processo de consolidação)”, afirmou o presidente executivo do Lufthansa Group. Carsten Spohr sublinhou que o processo tem conhecido avanços e recuos e lembra o aviso que fez no trimestre anterior: “vai demorar mais tempo do que as pessoas pensam”.
O diploma que define a venda de uma fatia de 49,9% (minoritária) na companhia portuguesa foi aprovado há três semanas. O Governo manifestou a intenção de que a privatização da TAP possa ficar concluída no prazo de um ano, mas ainda não há caderno de encargos, cuja publicação foi sinalizada para acontecer ainda no mês de julho. Primeiro é preciso que o decreto-lei seja promulgado pelo Presidente da República. Apesar de alguma demora, não parece existir no Governo o receio de que Marcelo possa travar a operação, como fez em 2023 ao mandar para trás um decreto-lei de privatização que previa a venda de até 100% da companhia.
Enquanto espera pelo avanço da TAP, a Lufthansa, diz o seu presidente, está contente em focar-se na ITA. “Não há pressa do nosso lado”. A empresa alemã adquiriu uma participação minoritária na companhia italiana herdeira da Alitalia que deverá apresentar este ano lucros pela primeira vez, o que é atribuído às sinergias entre as duas empresas. A estratégia da Luthansa para a ITA está neste momento mais focada na rentabilidade do que na expansão.
A Air France KLM “mantém o interesse”. Mas apesar de estar convicto de que o negócio será positivo independentemente das condições que vierem a ser fixadas por Portugal e pela Comissão Europeia (no quadro das regras da concorrência), o presidente executivo também deixou o aviso. Se a operação não for boa para o grupo e para a margem do grupo e se “houver muito risco em torno do negócio, obviamente não estamos interessados”, disse Benjamim Smith.
O grupo já tomou uma decisão sobre outra operação de consolidação em cima da mesa que envolve a Air Europa, a segunda empresa de aviação espanhola que está à procura de um investidor desde a pandemia. “Chegar a uma posição maioritária era extremamente importante para nós e isso não parece ser possível, por isso parámos todas as discussões com a Air Europa”, afirmou o presidente executivo do grupo.
Não é para já claro se o mesmo obstáculo na TAP — onde o Governo só quer vender nesta fase 49,9% — poderá também enfraquecer o apetite da Air France KLM na empresa portuguesa. Mas se deixou cair a Air Europa, o grupo está ainda a digerir outra aquisição — o investimento na SAS, que começou por ser minoritário, mas que deverá chegar aos 60% até 2026, se houver aprovação regulatória.
A IAG, dona da Bristish Airways e da Iberia, saudou o lançamento da privatização da TAP. A declaração foi feita esta sexta-feira, dia em que foram conhecidos os resultado do grupo, mas através de um porta-voz. “Se os termos forem adequados, acreditamos que a TAP poderá ter sucesso enquanto parte do modelo distintivo e comprovado da IAG”.
A mesma fonte destaca como pontos positivos deste grupo a solidez financeira para investir em frota e novos combustíveis e o “sucesso” da integração da Aer Lingus irlandesa na IAG.
Até agora ainda não houve mais manifestações públicas de interesse pela TAP, sendo que o Governo abriu a porta a investidores não europeus com a venda de uma posição minoritária, mas todos os concorrentes têm de ter na liderança um grupo de aviação de dimensão relevante que possa atuar como parceiro estratégico. Há a intenção de realizar uma segunda fase de privatização na qual o Estado perderá a maioria do capital, mas não tem calendário.
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