A Urgência de Ortopedia do Hospital de Santa Maria, em Lisboa, vai encerrar durante 19 dias no mês de agosto por falta de médicos, segundo a escala da urgência a que o Observador teve acesso. Na origem do problema estão as férias de muitos dos ortopedistas do serviço, mas também a recusa dos médicos em realizarem mais horas extraordinárias.
Segundo a escala, a urgência de ortopedia está encerrada entre esta sexta-feira, dia 1, e o próximo domingo, dia 3. Abre portas na segunda e terça-feira e volta a fechar na quarta-feira, dia 6. Reabre depois no dia 7 de agosto, quinta-feira, e volta a encerrar entre sexta-feira, dia 8, e domingo, dia 10. Na semana seguinte, estará aberta durante três dias (nos dias 11, 12 e 14) e fechada no dia 13, quinta-feira. Volta a estar encerrada entre sexta-feira e domingo (de 15 a 17 de agosto).
Os períodos de encerramentos repetem-se na segunda metade do mês, com encerramentos previstos sempre entre as sextas-feiras e os domingos e também em vários dias da semana.
Ao Observador, o bastonário da Ordem dos Médicos mostra-se muito preocupado com a falta de resposta na ortopedia e nomeadamente no que diz respeito à área pediátrica. “É com enorme preocupação que olhamos para esta situação. Isto vai ter impacto em toda a ortopedia, que é um dos pilares do serviço de urgência”, diz Carlos Cortes, sublinhando que a falta de médicos “vai ter impacto também na área pediátrica, deixando a descoberto toda a região sul do país”.
“A resposta mais diferenciada na área pediátrica só vai existir em Coimbra”, alerta o bastonário, referindo-se à politraumatologia.
O Observador questionou a Unidade Local de Saúde de Santa Maria sobre o encerramento da urgência de Ortopedia em mais de metade do mês de agosto, mas ainda não obteve resposta.
Recusa de mais horas e extra e férias agravam carências nas escalas
Agosto é tradicionalmente um mês preferencial de férias dos médicos e essa realidade está refletida na escala de urgência de ortopedia do Santa Maria: dos 19 médicos do serviço, apenas cinco não têm férias marcadas no mês que agora se inicia.
Diretor de Ortopedia do Hospital de Santa Maria demite-se devido à falta de médicos
A somar à questão das férias está recusa dos médicos em realizar mais trabalho extraordinário. Pelo menos 12 ortopedistas do serviço apresentaram minutas de escusa à realização de mais horas extraordinárias, o que dificulta o preenchimento das escalas de Ortopedia do maior hospital do país. Por falta de recursos humanos para garantir todas as valências no serviço, o diretor, Paulo Almeida (no cargo desde janeiro) demitiu-se há duas semanas.
O serviço de ortopedia tem vindo, de resto, a perder especialistas, que não tem conseguido repor. No final do verão do ano passado, saíram seis médicos, como admitiu o próprio presidente do Conselho de Administração (CA) da ULS de Santa Maria, Carlos Martins.
Bastonário dos Médicos critica administração do Santa Maria e acusa Direção Executiva de falta de coordenação
O bastonário da ordem dos Médicos reconhece as dificuldades para reforçar as equipas com mais profissionais, mas não poupa críticas à administração do Santa Maria na gestão deste período do ano. “Sabemos que o hospital tem imensas dificuldades nesta área, têm saído muitos médicos do serviço e tem havido uma grande dificuldade em captar ortopedistas para o serviço”, diz Carlos Cortes. “Não está evidente nenhum plano para minimizar esta situação“, vinca ainda o bastonário.
Dois dias depois de ter sido tornada pública a demissão do diretor de serviço, o presidente do Santa Maria, Carlos Martins, garantiu que estava em curso uma reorganização da ortopedia e sublinhou o esforço do hospital para captar mais médicos (isto, numa das especialidades com maior falta de especialistas no SNS). Quando não há resposta de urgência em Ortopedia no Santa Maria, os doentes são encaminhados para outras Unidades Locais de Saúde de Lisboa — nomeadamente para o Hospital de São José.
Perante o fecho da urgência de Ortopedia, que pode comprometer a resposta à população da zona da Grande Lisboa e outras situações de falta de coordenação entre hospitais que permitem assegurar a resposta em determinadas áreas, o bastonário dos médicos critica também o que diz ser a falta de intervenção da Direção Executiva do SNS (DE-SNS).
“Não tenho dúvida de que há uma total falta de intervenção da DE-SNS, sempre elogiei a criação de uma Direção Executiva que conseguisse articular os hospitais e o que temos visto nos últimos meses é que isso não tem acontecido. Em todas as áreas em que a DE-SNS devia ter tido uma intervenção, nomeadamente na Ginecologia/Obstetrícia, nada foi feito“, critica Carlos Cortes, sublinhando que “a DE-SNS tem de acautelar estas situações”, ainda para mais na Ortopedia do Santa Maria, cujas carências no quadro de pessoal médico já são do conhecimento público há pelo menos um ano.
“Devia ter havido intervenção da DE-SNS para minimizar os problemas”, defende o bastonário.
Já no que diz respeito à eventual falta de resposta na Ortopedia pediátrica na zona de Lisboa, a ULS de São José (de que faz parte o Hospital Dona Estefânia, a referência nesta região) garante que “as escalas da urgência de Ortopedia Pediátrica da ULS encontram-se preenchidas na primeira quinzena do mês de agosto”, embora “existam ainda constrangimentos no preenchimento das escalas em alguns turnos da segunda quinzena de agosto”. A ULS São José diz estar “a trabalhar no sentido de ultrapassar” as carências.
Notícia atualizada às 13h40 com as declarações do bastonário da Ordem dos Médicos
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