O Hospital de Santa Maria está a lidar com constrangimentos no serviço de urgência de Traumatologia. O Observador sabe que, diariamente, há doentes encaminhados para outras Unidades Locais de Saúde de Lisboa por incapacidade do hospital para dar resposta a todos os doentes que recorrem àquele serviço.

É mais uma dificuldade para o maior hospital do país, que no último mês viu os tempos de espera nas urgências a chegar a 15 horas.

“Imagine que chega ao hospital com uma fratura exposta. Passa primeiro pelo gabinete de Ortopedia, para depois ser encaminhado para outro hospital. Como cidadão, é muito preocupante”, diz fonte próxima do processo. Na semana passada, esta situação aconteceu “todos os dias”.

Em esclarecimentos por escrito ao Observador, o Hospital de Santa Maria garante que a resposta aos utentes é prestada “na maioria dos dias do mês”, sem especificar quão regular são as falhas neste serviço. A direção hospitalar confirma os constrangimentos e refere que, para solucionar as dificuldades no serviço, há uma articulação com a Unidade Local de Saúde de São José nos dias em que não é possível receber doentes na urgência de Traumatologia.

“O Conselho de Administração da ULS Santa Maria, que tomou posse em fevereiro do ano passado, assumiu a reestruturação do Serviço de Ortopedia como uma das prioridades institucionais, tendo alterado a direção do serviço, em funções desde 2019, e aberto um processo para nomeação de um novo diretor”, acrescenta o hospital.

O Santa Maria adianta ainda que, “nas próximas semanas”, o serviço de Ortopedia vai ser reforçado com três novos médicos. Sem apresentar prazos ou datas, a direção do hospital refere que estão em curso negociações para a contratação de mais especialistas.

A situação no Santa Maria acontece numa altura em que também outros hospitais do SNS estão debaixo de fogo. O hospital Amadora-Sintra está a enfrentar problemas no serviço de Cirurgia, uma situação que levou a ministra da Saúde a reunir-se com o Conselho de Administração do hospital — que, entretanto, apresentou a demissão. Mas foram as palavras de Ana Paula Martins, referindo-se a um hospital “degradado”, em contraste com a situação anterior, que levaram a diretora do serviço de Infecciologia a publicar um artigo de opinião no Observador em que defende uma intervenção urgente e direcionada do Ministério da Saúde no serviço de Cirurgia do hospital.

ULS Amadora-Sintra – a resposta que evitei dar

FNAM atira à ministra Ana Paula Martins, SIM destaca a falta de atratividade da carreira para reter jovens especialistas

Tanto a Federação Nacional dos Médicos (FNAM) como o Sindicato Independente dos Médicos (SIM) confirmam que o Hospital de Santa Maria está sem urgência de Traumatologia há, pelo menos, um mês.

Ao Observador, Joana Bordalo e Sá, presidente da FNAM, assegura que “o problema não é novo, mas ter-se-á agravado nos últimos 2 ou 3 meses”. E Maria João Tiago, secretária-regional do SIM na região de Lisboa e Vale do Tejo, conta que a situação “dura há um mês ou mais”.

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Joana Bordalo e Sá caracteriza a situação como “inaceitável”, principalmente por se tratar do “maior hospital do país”. E não poupa nas críticas à atual ministra da Saúde, ex-presidente do Conselho de Administração da ULS Santa Maria entre dezembro de 2022 e janeiro de 2024. “Isto reflete bem o estado em que o Santa Maria ficou depois da presidência de Ana Paula Martins”.

A presidente da FNAM lembra que “o Ministério da Saúde é também responsável por nada fazer para resolver a situação”, explicando que a falta de clínicos está na origem da incapacidade de resposta daquele serviço de urgência: “É por falta de médicos ortopedistas”, frisa.

Os sindicatos dos médicos concordam na solução para as atuais dificuldades. Do lado do SIM, Maria João Tiago destaca que “os profissionais vão saindo” por falta de atratividade na carreira médica e pela demora nos concursos. “Como não têm sido atempados, os jovens especialistas facilmente saem porque querem resolver a sua vida, e não ficar na incerteza”, remata.

[artigo atualizado às 10h30 desta quinta-feira, com a resposta do hospital de Santa Maria]