Não fosse um vídeo e a morte de Bano Bibi e o seu namorado ficaria no silêncio das centenas de crimes de honra que todos os anos mancham a justiça paquistanesa. As imagens mostram três carros, várias pessoas, à luz do dia, no deserto próximo de uma capital provincial e uma mulher com um hijab (véu islâmico) no tom acre do terreno. Dão-lhe um Corão para a mão e ela diz, numa língua local, uma frase enigmática para quem a vai assassinar, o irmão mais novo: “Caminha comigo sete passos e depois podes disparar. Só me podes matar, nada mais do que isso”. Depois vira-se, afasta-se uns metros, é atingida por três tiros à queima-roupa, cai no chão. Ouvem-se mais tiros e depois há um homem ensanguentado morto ao seu lado. A seguir vários homens disparam para os dois corpos.
O crime foi cometido em março nos arredores de Quetta, capital do Baluchistão, uma das mais importantes províncias do Paquistão. Mas só quatro meses depois a polícia deteve 13 pessoas, incluindo a mãe de Bano e um chefe tribal, e uma onda de indignação varreu o país que continua a permitir que a lei das tribos se imponha à lei nacional.
O vídeo, cuja veracidade foi verificada pela Reuters e a Associated Press, as agências de notícias britânica e dos Estados Unidos da Améric,a foi partilhado nas redes sociais e amplamente divulgado — ativistas dos direitos humanos referem que 240 milhões de pessoas o terão visualizado, antes de ter sido apagado.
E foi então que a sociedade civil, os políticos e a polícia reagiram. Bano Bibi e Ehsan Ullah Samalani teriam uma relação amorosa condenada pelos costumes do Baluchistão, conta o jornal paquistanês TheNews. E o jirga, conselho tribal tradicional que emite ordens extrajudiciais, terá ordenado que fossem mortos, pois tinha desonrado a comunidade, envergonhado a família, violado as regras. Um crime de honra, portanto. Apesar de serem ilegais desde 2016, a Comissão de Direitos Humanos do Paquistão reportou pelo menos 405 casos em 2024, a maioria envolvendo mulheres assassinadas por familiares que alegavam estar a defender a honra da família. Como o caso de Bano: a execução coube a Jalal Satakzai, o irmão mais novo, que a polícia ainda não conseguiu deter.
Pior sorte teve a mãe: depois de, num vídeo, que também se tornou viral, ter pedido a libertação do chefe tribal e de outros sob custódia policial, oi também detida. Gul Jan Bibi contou que os assassinatos foram cometidos por familiares e anciãos locais, com base em “tradições baluches com séculos de antiguidade”, e não por ordem do chefe tribal. “Não cometemos nenhum pecado, a Bano e o Ehsan foram mortos de acordo com os nossos costumes”, defendeu, acrescentando que a filha, que tinha três filhos e duas filhas, o mais velho de 16 anos, tinha fugido com Ehsan Samalani e regressado 25 dias depois.
Police have arrested mother of victim Bano Bibi — after she confessed in a viral video to killing her daughter pic.twitter.com/dCRBaEceEZ
— Azaad English (@azaad_english) July 24, 2025
O chefe do governo provincial, Sarfraz Bugti, mostrou-se indignado com o crime “desumano”, de que teve conhecimento em meados de julho, e exortou a polícia a agir com urgência para encontrar os culpados. Na rede social X, o líder afirmou que iriam ser usados os procedimentos legais para garantir que todos os envolvidos neste “crime hediondo” fossem condenados.
کل سوشل میڈیا پر خاتون اور مرد کے قتل کی وائرل ویڈیو کا فوری نوٹس لیتے ہوئے بلوچستان پولیس کو کاروائی کے احکامات جاری کئے تھے۔ ویڈیو میں مقتولین کی شناخت ہو چکی ہے، واقعہ عید سے چند دن قبل کا ہے۔ ریاست کی مدعیت میں دہشت گردی کا مقدمہ درج اور ایک مشتبہ قاتل گرفتار ہو چکا ہے، قانون…
— Sarfraz Bugti (@PakSarfrazbugti) July 20, 2025
Sarfraz Bugti afirmou que este era um caso exemplar e prometeu desmantelar os tribunais tribais que operam fora da lei. Uma medida que tem sido reclamada pela sociedade civil paquistanesa. Ainda no último sábado de julho, dezenas de pessoas juntaram-se nas ruas de Quetta para demonstrar apoio às constantes vítimas dos crimes de honra, exigindo o fim destes sistemas de justiça paralela.
Nas redes sociais, os paquistaneses têm partilhado a hashtag #JusticeForTheCouple e #StopHonourKillings.
یہ کیسی غیرت ہے جو بغیرت ہے؟
کل بلوچستان کی مٹی ایک بار پھر شرمندہ ہو گئی۔#غیرت_کے_نام_پر_قتل#بلوچستان#انصاف_دو#انسانیت_شرمندہ_ہے#StopHonourKillings#JusticeForTheCouple pic.twitter.com/bwqqJl52ny— Saqib (@the_saqib) July 20, 2025
No entanto, o advogado de direitos civis Jibran Nasir, em declarações à agência de notícias Reuters, defendeu que as ações do governo são mais de “performance do que de justiça”, estão “a dar resposta ao momento viral” e não a garantir que a lei é cumprida. Segundo Nasir, as autoridades só estão dispostas a agir após 240 mil pessoas terem visto o vídeo: “O crime ocorreu meses atrás, não em segredo, mas perto de uma capital provincial”.
“A viralidade é uma espada de dois gumes,” disse Arsalan Khan, antropólogo cultural e professor que estuda género e masculinidade. “Pode pressionar o Estado a agir, mas o espetáculo público também pode funcionar como estratégia para restaurar a ghairat — a honra familiar percebida — aos olhos da comunidade.”
Em vez de aplicar a lei, o governo passou o último ano a enfraquecer o sistema judicial e até a considerar a reativação dos jirgas nas antigas áreas tribais, denunciou Khan, citado pela Reuters. “É a inação do poder executivo — e o mais vergonhoso é que isso recai sobre as mulheres no Baluchistão,” concluiu o especialista.
Por seu turno, o Conselho de Ideologia Islâmica do Paquistão, órgão consultivo do governo, descreveu o crime como “anti-islâmico” e pediu que os suspeitos sejam julgados por terrorismo, que é, de facto, a acusação que impende sobre 11 dos detidos, avança o Pakistan Today.
O Paquistão só ilegalizou os crimes de honra em 2016, após o assassinato da influencer Qandeel Baloch pelo irmão porque estava a “desonrar” a família e os seus valores. Antes destas alterações, os culpados poderiam ser libertados com o perdão da família da vítima.
De acordo com um relatório da organização não governamental Aurat Foundation, 232 pessoas foram mortas em nome da honra na província do Baluchistão nos últimos 6 anos. Desde o início do ano, já 33 pessoas foram mortas por este crime, incluindo 19 mulheres e 14 homens, segundo o Daily Ausaf.
A indignação com o caso de Bano e Ehsan também chegou ao parlamento paquistanês. A comissão dedireitos humanos condenou os homicídios e apelou à ação contra os responsáveis do jirga e os deputados alertaram ainda que a impunidade dos sistemas de justiça paralela pode levar a novos atos de violência semelhantes.
No entanto, ativistas e analistas estão descrentes na ação política, dizendo que a indignação pública dificilmente se manterá. “Agora há barulho, mas como sempre, vai desaparecer,” avisou Jalila Haider, advogada de direitos humanos em Quetta. “Em muitas zonas, não há autoridade legal, nem aplicação da lei. Apenas silêncio”, lamentou.