O astronauta norte-americano Jim Lovell morreu esta sexta-feira aos 97 anos, avançou a NASA. Em comunicado, a agência espacial dos Estados Unidos da América recorda o comandante da missão lunar Apollo 13 e membro da tripulação de algumas das viagens mais conhecidas na história espacial. James “Jim” Lovell é considerado um dos astronautas mais viajados da NASA durante a sua primeira década de operações e um dos rostos que “ajudou a forjar o caminho histórico dos EUA no Espaço”.

“A NASA envia as suas condolências à família do capitão Jim Lovell, cuja vida e trabalho inspiraram milhões de pessoas ao longo de décadas. O caráter e a coragem inabalável de Jim ajudaram a nossa nação a chegar à Lua e transformaram uma potencial tragédia num sucesso do qual aprendemos muito. Lamentamos a sua morte, ao mesmo tempo que celebramos as suas conquistas”, escreveu a agência.

Jim Lovell foi uma das principais figuras em quatro missões distintas, de dois programas espaciais. A primeira vez que entrou num foguetão da NASA foi a bordo do Gemini 7, o 20.º voo tripulado em torno da órbita da Terra e apenas o 12.º feito nos Estados Unidos. Esteve no Espaço durante 14 dias e percorreu o planeta mais de 200 vezes. A segunda viagem foi a última deste programa que precedeu o histórico Apollo, que tinha em vista a chegada à Lua.

Em 1968, integrou a equipa que embarcou na Apollo 8, a missão que foi inédita em duas vertentes distintas: foi a primeira vez que se abandonou a órbita terrestre e, ao mesmo tempo, foram os primeiros a circundar a Lua. A primeira aterragem no satélite só viria no ano seguinte, a bordo do Apollo 11, mas foi uma viagem crucial na corrida espacial entre os Estados Unidos e a União Soviética.

No que deveria ter sido a terceira alunagem — e a primeira na carreira de Jim Lovell —, depois de dois grandes sucessos, a viagem foi tudo menos tranquila. Em abril de 1970, o astronauta estava prestes a tornar-se no quinto homem a caminhar na superfície da Lua. Contudo, a caminho do objetivo, uma frase que ficou cunhada como tendo saído da boca de Lovell, ficou eternizada para a memória de qualquer entusiasta espacial: “Houston, we have a problem!”

Apesar de a frase dita por Lovell não ter sido retratada exatamente como foi dita na adaptação da missão Apollo 13 para o grande ecrã de Hollywood, o problema na aeronave traduziu-se perfeitamente no filme homónimo. Um dos tanques de oxigénio explodiu a caminha da Lua. A probabilidade de os tripulantes sobreviverem aos quatro dias seguintes era extremamente baixa, estando em condições frias e difíceis e essencialmente a aeronave milionária acabou por se converter num bote salva-vidas.

Foi um grande “estrondo” cerca de 90 segundos após a descolagem e já a mais de 321.000km de distância da Terra. “Sabíamos que estávamos em grandes, grandes sarilhos”, chegou a admitir Lovell numa entrevista à NASA. No decorrer do acidente, os astronautas a bordo ainda demoraram até diagnosticarem o problema, o que terá sido “o momento mais assustador” de toda a aventura. Quando perceberam que era uma fuga de oxigénio, entenderam que “não tinham soluções para regressar a casa”.

Sem condições e mais perto da Lua do que da Terra, a NASA alterou o objetivo da missão. Era suposto pousarem na superfície lunar, muito à semelhança do que tinha feito a equipa de Neil Armstrong, Buzz Aldrin e Michael Collins. Contudo, dadas as situações, a nova missão era apenas a sobrevivência. Assim, tiveram de racionar o oxigénio que rapidamente escapava do shuttle, bem como água e eletricidade. Em quatro dias, deram uma volta à Lua e ajustaram a trajetória para apontar de volta para a Terra.

“Aquilo que eu quero que as pessoas se lembrem é que, de certa forma, [a missão] foi um grande sucesso”, recordou Jim Lovell numa entrevista em 1994. Admite que em termos dos objetivos do programa, “não alcançaram nada”, mas foi um “sucesso” em termos de “demonstrar as capacidades dos funcionários da NASA”.  Depois deste episódio que se inscreveu eternamente na história da exploração espacial, Lovell confessou que o encarou como uma lição de vida. “Já não me preocupo com crises”, afirmou, referindo que cada vez que tinha um problema, relativiza e pensa que “poderia ter morrido em 1970″, mas que”continuava a respirar”.

Porém, mantém que da sua longa carreira enquanto astronauta permaneceu “um arrependimento”. O infortúnio da missão Apollo 13 tornou-se num grande sucesso ao terem sobrevivido todos os membros da tripulação, mas Jim Lovell manifestou-se desiludido por nunca ter tido a oportunidade de realizar uma caminhada lunar. O Presidente Bill Clinton, 25 anos depois do acidente e quando atribuiu a Medalha de Honra do Espaço a Lovell, disse que apesar de ter “perdido a Lua”, recebeu em troca algo mais importante: “o respeito e a gratidão dos americanos”.

Ainda que desiludido, reconhece que o falhanço teórico da missão deu-lhe ainda uma maior satisfação. “Chegar à Lua, se tudo correr bem, é como seguir um livro de receitas. Não é muito complicado. Mas se alguma coisa corre mal, é aí que se distinguem os homens dos rapazes”, contou à Associated Press em 2004. Desta forma, James “Jim” Lovell não ficou esquecido entre os vários astronautas que acabaram por caminhar na Lua, mas será para sempre lembrado como aquele que sobreviveu quando todas as probabilidades indicavam o contrário.

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