À saída do funeral de Carlos Dâmaso, o ex-autarca de Vila Franca de Deão que morreu a combater um incêndio, Marcelo Rebelo de Sousa falou aos jornalistas quanto à atuação do Governo neste período — em particular a postura da ministra da Administração Interna, Maria Lúcia Amaral.
“Admito que quem acaba de chegar há dois meses esteja a descobrir os problemas e as respostas a dar”, afirmou, assumindo ainda assim que “é natural que as pessoas queiram respostas imediatas”.
Questionado se essa inexperiência justifica a reticência da ministra em responder às perguntas dos jornalistas, Marcelo retorquiu “isso também se aprende”. “Eu próprio aprendi”, acrescentou, lembrando que as críticas de que ele e o Governo foram alvo após os fogos de 2017 foram “muito mais violentas”.
Adiantando que compreende ser fundamental comunicar à população, Marcelo afirma que “nem sempre quem está perante situações de sufoco é capaz de perceber isso e responder em conformidade”.
Quanto aos problemas operacionais sentidos na última semana, considerou que “a reflexão é inevitável” e que deve ser feita por todos.
“São muitas, muitas, muitas as instituições que estão a trabalhar em conjunto, é um esforço muito grande, mas certamente chegaremos a conclusões de como trabalhar em conjunto. Relativamente a 2017 e a Pedrógão, aprendeu-se uma parte, mas ainda se vai aprender muito mais”, declarou.
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Dessa “grande reflexão” houve mudanças, mas oito anos depois a conclusão a que se poderá chegar é que “não foram suficientes e que há coisas em que é preciso ir mais fundo”.
O Presidente da República fez questão de lembrar que, até agora, tem tido “o cuidado de ouvir e não falar muito” porque ainda há fogos em curso no país, mas admitiu partilhar do apelo feito pelo presidente da Câmara da Guarda, Sérgio Costa, que pediu um pacto de regime contra os fogos.
“É fundamental que todos façam o melhor em conjunto para encontrar um sistema que vá aprendendo com as lições, e já há muitas lições que podemos aprender”, assegurou.
E exemplificou, dizendo que se aprendeu que “era importante preservar o mais possível vidas humanas e evitar os mortos e os feridos que houve em 2017, mas, infelizmente, há exceções dramáticas”.
Da tragédia de Pedrógão, o país também aprendeu que é preciso prevenir mais, “mas isso significa que é preciso trabalhar mais ao longo de todo o ano”, acrescentou.
“Aprendeu-se uma parte, até agora, felizmente, não tivemos 100 mortos, mas basta haver um morto, nas circunstâncias como esta, para fazer refletir no sistema e para o futuro”.
Marcelo Rebelo de Sousa adiantou que todos concordam que, terminada esta época de incêndios, “há reflexões a fazer, porque se aprende, e há coisas a mudar e a melhorar para que isto não se repita”.
“Portanto, não é este o tempo ainda — ainda hoje acabei de saber que há operacionais em estado grave na sequência do incêndio do Sabugal — passada esta fase, é evidente que é fundamental refletir”, afirmou.
O chefe do Estado revelou que, nos seus mandatos, “as coisas mais dolorosas” que viveu foram a pandemia e os fogos “em 2016, depois 2017, que foi horrível, 2018 e 2019”.
Carlos Dâmaso, de 43 anos, foi a primeira vítima mortal dos incêndios deste ano, e morreu enquanto combatia o fogo que deflagrou na aldeia vizinha de Pêra do Moço e avançava em direção a Vila Franca do Deão.
O corpo carbonizado do empresário agrícola foi encontrado ao final da manhã de sexta-feira, numa das suas propriedades, junto à sua terra natal.
Carlos Dâmaso presidiu à Junta de Freguesia de Vila Franca do Deão, no município da Guarda, durante 12 anos, tendo sido eleito pelo PS, e era novamente candidato à freguesia local nas autárquicas de 12 de outubro, mas desta vez pela coligação PG-PELA Guarda – NC/PPM, do atual presidente da Câmara, Sérgio Costa.
Era casado e deixa uma filha de 11 anos.