Não vale mesmo a pena arriscar a colocação das palavras etapa, Volta a Espanha e tranquila na mesma frase este ano. Porquê? Parece que não vai mesmo acontecer e a terceira tirada esta segunda-feira tornou-se mais um exemplo disso mesmo. Era mais curta, tinha uma subida não muito acentuada na parte final, acabou por virar uma autêntica batalha ganha de forma surpreendente por David Gaudu a Mads Pedersen pela forma como fez a última curva de forma perfeita para ficar na frente e com Jonas Vingegaard a segurar in extremis a camisola vermelha da liderança com o mesmo tempo do francês da Groupama AG2R mas vantagem nos critérios de desempate, nomeadamente na posição de entrada na meta na etapa inaugural.

Depois da multa, João apanhou um susto mas saiu “intacto”: Gaudu bate Pedersen ao sprint, Vingegaard segura liderança, português sobe a 11.º

“As quedas foram-me prejudicando durante a época. Caí no Tirreno-Adriático com uma fratura no punho, o que me obrigou a parar durante três semanas. Depois no Giro voltei a sofrer uma queda e já não consegui ir ao Tour. O final estava mais desenhado para as características do Pedersen mas esta manhã pensei que por ser um bom puncheur poderia ter hipóteses de ganhar. Quando comecei a ver que o Pedersen estava a iniciar o sprint antes da curva desafiei todos os meus limites e fui feliz”, comentou depois da etapa que o deixou a oito posições da camisola vermelha. Porquê? Aquilo que nesta altura separava o francês da liderança era o facto de acabar a primeira etapa com chegada a Novara em 49.º contra o 41.º posto de Vingegaard (que, também no final da terceira etapa, colocou em causa uma manobra do gaulês para conseguir chegar à frente).

Da parte de João Almeida, sobrou sobretudo a classificação. Nem tudo correu bem na estratégia da UAE Team Emirates, que a certa altura da subida em Ceres deixou de estar na cabeça do pelotão como acontecia com Visma, Red Bull-Bora ou Lidl-Trek, o português chegou mesmo a ficar mais longe dos companheiros a determinada fase, Juan Ayuso também perdeu apoio mas, no final, os ataques dos principais concorrentes à vitória final não foram suficientes para provocar um “corte” nos tempos, com o 28.º lugar do corredor de A-dos-Francos a permitir uma subida à 11.ª posição da geral a 16 segundos de Vingegaard (ou seja, perdendo apenas os quatro segundos da bonificação pelo terceiro posto do dinamarquês na etapa). Ainda assim, aquilo que sobrou é a tensão que se vai sentindo no pelotão numa fase em que ninguém quer ficar para trás.

Agora, todos teriam de fazer um reset para novo dia com desafios diferentes mas as mesmas dificuldades. Naquela que era a última tirada sem passar por Espanha, com o início em Itália (Susa) e chegada em França (Voiron), e ao contrário do que se passara na véspera, as zonas de montanha com segundas categorias iam aparecendo logo no arranque da tirada antes de um final plano propício para os sprinters (não foi por acaso que Jasper Philipsen abdicou da luta pela vitória em Ceres) numa ligação com mais 75 quilómetros do que na véspera (206,7km) que tinha uma desnível acumulado grande mas concentrado na primeira metade. Ou seja, não era uma tirada para os principais favoritos mas os principais favoritos podiam mexer com a tirada.

Logo a abrir, a fuga voltou a ser constituída por cinco corredores e tinha um nome em comum com a saída da véspera, Sean Quinn (EF Education), a que se juntavam Louis Vervaeke (Soudal Quick-Step), Joel Nicolau (Caja Rural), Kamiel Bonneu (Intermarché) e Mario Aparicio (Burgos). O espanhol da Burgos até chegou a ser de forma virtual o líder da prova mas a notícia era outra, quase a “abafar” o trabalho da fuga: depois de Carlos García Pierna, da Burgos, Valentin Paret-Peintre, que ocupava a décima posição da geral, desistiu por doença, num golpe que se estendia às ambições de Mikel Landa pela Soudal Quick-Step, que perdia aquele que seria o braço direito nas subidas depois do grande triunfo que teve no Mont Ventoux.

A fuga chegou a ter uma vantagem superior a três minutos, numa fase em que houve quase um pacto entre o pelotão para abrandar o ritmo de corrida, e as decisões nas montanhas ficaram repartidas pela fuga, com Louis Vervaeke a bater Joel Nicolau e Sean Quinn no Col de Montgenèvre depois de Nicolau (que conseguiu assegurar a camisola da montanha) ter batido Louis Vernaeke e Mario Aparicio na passagem por Exilles. Em Lautaret, aí, Quinn conseguiu descolar mais cedo e passar em primeiro com 20 segundos de avanço em relação aos outros elementos da fuga. Estava cumprida a primeira fase da etapa a subir, estava na hora de começar o trabalho do pelotão que, sem necessidade de forçar tanto o ritmo como já se viu antes, conseguiu colar aos fugitivos ainda com mais de 90 quilómetros para a meta, apesar da resistência que Aparicio ia mostrando, tendo Lidl-Trek, Alpecin-Deceuninck e Israel Premier Tech como principais protagonistas.

Aparicio já não conseguiu mais mas a Burgos tinha outra carta para lançar: Sinuhé Fernández. Num dia que ficou marcado pela desistência de Carlos García Pierna, a formação espanhola continuava a lançar cartas e mais cartas para se mostrar nesta quarta etapa que se despedia de Itália e estava a caminho de França, tendo agora na frente um corredor que já tinha tentado ser protagonista na segunda tirada. Foram pouco mais de 40 quilómetros na frente, a partir daí o grupo voltou a ficar todo junto mas sem que as principais equipas fossem mostrando especial interesse num dia que estava destinado para a luta entre sprinters.

A menos de 50 quilómetros da meta, era altura de abastecer e de pensar no que poderia acontecer. Era aí que entroncavam várias possibilidades, sobretudo olhando para aquilo que seria a ideia de Vingegaard. O líder dinamarquês voltava a admitir no início da tirada a possibilidade de deixar a camisola vermelha nesta fase, tendo em conta tudo aquilo que isso depois envolve em termos de protocolo e “não descanso”. A isso juntava-se um outro ponto: a seguir à etapa, todas as equipas viajavam de avião para a Catalunha, com a etapa desta quarta-feira a ser realizada em Figueres, o que não dava grande margem em termos de voos. Mais: a quinta tirada trará um contrarrelógio por equipas, sendo que, na possibilidade de David Gaudu ficar na liderança, a Visma-Lease a Bike partiria à frente da Groupama mas não perdia de vista o objetivo de rodar atrás da UAE Team Emirates, podendo guiar-se pelos marcadores de João Almeida, Ayuso e companhia.

O favoritismo recaía na Visma, as potenciais surpresas poderiam vir da Groupama ou da Lidl-Trek, entre outras, a formação mais em “risco” era a UAE Team Emirates, até pela imagem deixada no Paris-Nice onde a passagem pelo circuito de Magny-Cours foi um dos pontos mais baixos da equipa (João Almeida iria terminar na sexta posição da geral numa prova ganha por Matteo Jorgenson mas aqueles 42 segundos que foram perdidos contribuíram para que a decisão ficasse entre Visma, Red Bull-Bora e Ineos). Também por isso, seria natural que a chegada a Voiron não tivesse um trabalho particular por ninguém da equipa, até tendo em conta esse contrarrelógio por equipas que era precedido pela viagem de avião esta terça-feira. Antes, num dos pontos de interesse, Gaudu ainda se tentou envolver na luta pelos segundos das bonificações em Noyarey mas Mads Pedersen levou a melhor sobre Ethan Vernon e Jake Stewart.

A seguir a esse momento, Bruno Armirail, da Decathlon AG2R, arriscou também a fuga para a vitória num dia de chegada em território francês sem que se percebesse ao certo o objetivo pretendido tendo em conta que equipas como a Lidl-Trek ou a Alpecin-Deceuninck não dariam margem para os seus sprinters falharem a decisão da etapa. Chegou a ter mais de 50 segundos de vantagem com o pelotão ainda a controlar, acabou por ser neutralizado antes de uma zona mais técnica a 15 quilómetros da meta, começaram também aí as lutas pela melhor colocação para o troço final antes de uma queda a dez quilómetros que levou Jay Vine de novo ao chão mas que “poupou” todos os favoritos entre a irritação de George Bennett, que também caíra antes e ficou com uma ferida bem visível no joelho. Estava na hora da verdade, com Vingegaard a “abdicar” da confusão e da vermelha (ao contrário de Gaudu) e Ben Turner, o gigante inglês da Ineos, a bater Jasper Philipsen em mais um sprint em que Mads Pedersen voltou a ficar longe de lutar pelo triunfo na etapa.

Contas feitas, Ben Turner ganhou com 4.50.14, o mesmo tempo da dupla da Alpecin-Deceuninck, Jasper Philipsen e Edwars Planckaert. Ethan Vernon (Israel-Premier Tech), Jenthe Biermans (Arkéa), Mads Pedersen (Lidl-Trek), Fabio Christen (Q36.5 Pro Cycling Team), Orluis Aular (Movistar), Guillermo Thomas Silva (Caja Rural) e Nicolò Buratti (Bahrain) fecharam o top 10 no dia em que houve mesmo mudança na camisola vermelha, com David Gaudu a entrar bem mais à frente de Jonas Vingegaard e a ficar com a liderança com Giulio Ciccone na mesma em terceiro a oito segundos e Egan Bernal a 14”. No restante top 10, que deixou de contar com Valentin Paret-Peintre por doença, entram a 16 segundos da liderança Thomas Pidcock, Jai Hindley, Santiago Buitrago, Matteo Jorgensen, Sepp Kuss e Juan Ayuso, com João Almeida na mesma em 11.º porque entrou apenas no 44.º posto. Ayuso foi o 54.º, o que faz com que, em caso de triunfo da UAE Team Emirates no contrarrelógio com 16 segundos de avanço, o espanhol seja líder… por um ponto.