Quase todos os candidatos na frente da corrida, blocos de equipas bem definidos numa parte final que tinha uma inclinação suficiente para que o bloco da frente chegasse com apenas 25 corredores, muitos nomes que na etapa inaugural tinham andado à procura de um espaço para a vitória a descaírem quando as dificuldades aumentaram. A segunda tirada da Volta a Espanha, com chegada a Limone Piemonte, mostrou que a edição deste ano pode trazer problemas e/ou oportunidades a qualquer momento entre um pelotão descrito por João Almeida como “nervoso”. Entre todos os chefes de fila, imperou aquele que é mais favorito: Jonas Vingegaard. No entanto, nem tudo correu bem para a Visma-Lease a Bike apesar do triunfo do dinamarquês.

Uma demonstração de força no sprint para ficar com a vermelha: Jonas Vingegaard vence segunda etapa da Vuelta

Por um lado, e antes de entrar na roda de Giulio Ciccone para chegar a uma vitória que parecia ser difícil perante as características do italiano, o “comboio amarelo” sofreu uma queda que deixou algumas marcas em Vingegaard e levou mesmo à desistência de Axel Zingle, que fazia a sua primeira grande volta mas não passou do segundo dia. Por outro, e durante a noite, um dos camiões dos mecânicos da equipa foi assaltado, com várias bicicletas a desaparecerem sem ideia do que possa ter acontecido. “Os nossos mecânicos estão a trabalhar duro para garantir que a equipa está totalmente preparada para a terceira etapa. A polícia também já lançou uma investigação em relação a este incidente”, anunciou a equipa na manhã desta quarta-feira.

“Foi um final muito duro e a subida aconteceu de forma tão rápida que foi complicado andar na roda. Achei que não conseguiria bater o Ciccone mas acabei por conseguir. Ainda tinha algumas dores no cotovelo pelo momento da queda mas fui melhorando durante a parte final da etapa e terminei sem sentir qualquer mazela. Quando temos uma vitória ao nosso alcance não podemos deixar fugir mas ainda estamos longe de Madrid, veremos durante a corrida se é bom ou não manter a camisola vermelha”, comentou Vingegaard.

Já João Almeida, que à semelhança dos principais nomes tinha passado de forma despercebida na primeira etapa, tentou evitar o “corte” para perder apenas os segundos de bonificação mas ainda cedeu dois segundos aos quatro da frente (Vingegaard, Ciccone, David Gaudu e Egan Bernal), terminando na quinta posição a segunda tirada e subindo a 12.º lugar da geral a 12 segundos da camisola vermelha num grupo onde estavam também Thomas Pidcock, Jai Hindley, Santiago Buitrago, Ben O’Connor, Mikel Landa ou Lorenzo Fortunato, ente outros, além do companheiro de equipa Juan Ayuso. A estratégia de ir na roda de Pidcock foi uma boa jogada do português mas acabou por sair gorada porque o britânico não fez o que muitos esperavam.

“Foi um dia duro. Um bocado caótico, a chuva apareceu na parte final, com quedas e muita gente nervosa. Mas consegui estar a salvo na frente, numa boa posição, para dar o melhor. Depois, no final, demos tudo o que tínhamos mas os outros foram mais fortes. No fim, eu e o Juan Ayuso fomos a toda a velocidade, juntamente com o Marc Soler, e acho que estivemos bem juntos, entre os mais fortes. Vamos continuar em força. Foi menos um dia em que se poderia perder a Vuelta e que conseguimos acabar são e salvos. É bom estar de regresso à Vuelta e às corridas mas claro que estes primeiros dias são sempre um choque para o corpo. No entanto, vamos dando no nosso melhor e tentando continuar a evoluir”, apontou o português da Team UAE Emirates, que antevia nova jornada de dificuldades entre San Maurizio Canavese e Ceres.

“A etapa de amanhã [segunda-feira] é um pouco perigosa. Há que ser cauteloso, ter cuidado com os nosso rapazes e ficar numa boa posição para a parte final porque existem algumas curvas no final da etapa. Vai ser épico”, referira na antecâmara da tirada de 139 quilómetros que trazia já média montanha com uma segunda categoria em Issiglio e uma chegada a subir a Ceres que colocava Mads Pedersen como favorito se a Lidl-Trek conseguisse agarrar na tirada depois da montanha mas com várias interrogações à mistura que até podiam fazer com que uma fuga ambiciosa conseguisse vingar num cenário limite de um pelotão “partido”.

Sem mais informações sobre a multa de 200 francos aplicada pela organização a João Almeida e mais cinco corredores (Marcel Camprubi, Valentin Paret-Peintre, Magnus Sheffield, Lukas Nerurkar e Léo Bisiaux) por “modificações ao número de identificação”, algo que segundo o Ciclismo Atual poderá ter surgido pela colocação do dorsal numa bolsa de plástico dentro da camisola em vez de estar do lado de fora da camisola, a partida real foi dada depois de alguns contratempos técnicos com bicicletas e com um grupo de quatro fugitivos a tentar a sua sorte desde início entre Sean Quinn (EF), Alessandro Verre (Arkéa), Patrick Gamper (Jayco), e Luca van Boven (Intermarché) com a Lidl-Trek a controlar o andamento do pelotão de perto, com vantagens inferiores a dois minutos à procura das condições para Mads Pedersen.

Os quilómetros passavam sem grandes mexidas, as nuvens ficavam cada vez mais carregadas e negras a meio da tirada, o que fazia adivinhar uma segunda metade que era tudo menos plana com uma dificuldade extra para todos os corredores. O que mudava nesta fase? A Lidl-Trek deixou de forçar o ritmo e permitiu que a fuga, que a 75 quilómetros do final perdeu Patrick Gamper, ganhasse um avanço superior aos 2.30 minutos, sendo que também Luca van Boven não aguentou a subida e deixou o grupo da frente reduzido a Alessandro Verre e Sean Quinn (que era então camisola vermelha virtual). Mais à frente, a 55 quilómetros do final, uma curiosidade em relação ao sprint especial que valia pontos: Vinagegaard ainda tentou ir buscar segundos, Ciccone também espreitou a oportunidade, Mads Pedersen chegou à frente e ganhou.

Começava a aproximar-se a hora das decisões, com a Lidl-Trek a vir para a frente de vez aumentar o ritmo do pelotão para deixar a diferença para os fugitivos cada vez mais curta para Sean Quinn (40 segundos), o único resistente entre os quatro corredores que protagonizaram a fuga do dia. Aguentou até onde conseguiu, foi de vez “apanhado” a 20 quilómetros do final, altura em que as principais formações iam começando a preparar a chegada com uma ligeira subida, técnica e com uma curva apertada que fazia com que a colocação se tornasse a chave do triunfo que tanto poderia cair para um sprinter como para um puncheur pelo traçado.

Jasper Philipsen foi dos primeiros a “desligar” da etapa, optando por guardar forças para a etapa desta terça-feira, as principais equipas continuavam a tentar aproveitar todas as curvas para se colocarem melhor para a chegada a Ceres entre UAE Team Emirates, Red Bull-Bora ou Visma-Lease a Bike, entre outras, que também iam complicando a tarefa da Lidl-Trek de Mads Pedersen. A subida começava a deixar alguns corredores para trás, não tanto pelas características mas pela velocidade que se fazia sentir na frente tendo a Movistar agora na frente, a própria Emirates estava numa situação menos tranquila a comparar com a Visma, que voltou a colocar Campenaerts a forçar para Jorgenson agarrar e motivar de forma inevitável “cortes” na chegada.

Juan Ayuso estava sozinho, João Almeida deixou de estar atrás da equipa e perdeu-se no grupo, a Emirates ia sair sempre como principal derrotada mas a maior surpresa estava ainda para chegar, com David Gaudu, da Groupama, a conseguir bater Mads Pedersen com uma fantástica viragem na última curva pela vitória com Vingegaard na terceira posição e Ciccone logo no quarto lugar num top 10 onde entraram também Jordan Labrosse (Decathlon AG2R), Aular Orluis (Movistar), Santiago Buitrago (Bahrain), Egan Bernal (Ineos), Bjorn Koerdt (Picnic PostNL) e Jai Hindley (Red Bull-Bora). João Almeida ainda conseguiu ser o melhor da UAE Team Emirates com a 28.ª posição à frente de Juan Ayuso (35.º) e uma notícia que permitiu suspirar de alívio: as primeiras indicações apontavam para que não perdesse tempo no “corte”, algo que nas últimas imagens mais gerais antes de tudo ficar centrado na frente parecia um cenário possível.

Apesar de todas as contas, Vingegaard conseguiu segurar a vermelha, ficando com o mesmo tempo na geral do que David Gaudu e oito segundos de avanço sobre Ciccone. Egan Bernal fica no quarto posto a 14 segundos, seguindo-se um grupo com Thomas Pidcock, Jai Hindley, Santiago Buitrago, Matteo Jorgenson, Juan Ayuso e Valentin Paret-Peintre, que fecha o top 10 a 16 segundos do dinamarquês à frente de nomes como João Almeida (11.º), Sepp Kuss, Ben O’Connor, Marc Soler, Mikel Landa ou Lorenzo Fortunato.

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