A PSP registou 3.734 casos de filhos que agrediram pais no primeiro semestre deste ano. Os dados, revelados pelo Público, mostram que a violência filioparental surge como a “relação mais frequente entre agressor e vítima”, embora a evolução estatística dos últimos dois anos se mantenha estável.

A contabilização mais rigorosa só foi possível graças à mudança na forma como a PSP regista os casos. Até há bem pouco tempo, todas as denúncias de violência doméstica eram registadas sem distinção do tipo de relação entre a vítima e o agressor. Agora, esta informação é assinalada de forma clara. “O modo de busca foi apurado. Começámos a perceber que esta situação estava a ganhar expressão e sentimos a necessidade de obter números concretos“, explicou a comissária Patrícia Firmino ao jornal, sublinhando que a ausência de detalhe dificultava a perceção da verdadeira dimensão do problema.

Segundo a PSP, este tipo de violência — enquadrada no crime de violência doméstica — não se concentra numa faixa etária específica, existindo agressores e vítimas de várias idades. “Para que seja considerado violência filioparental é necessário que haja coabitação entre ascendentes e descendentes e que os pais ou substitutos sejam vulneráveis pela idade, doença, deficiência, gravidez ou dependência económica”, esclareceu Patrícia Firmino.

A responsável nota, ainda, que situações de fragilidade dos progenitores, combinadas com a sobrecarga de filhos cuidadores ou com dependências destes, potenciam crimes. “Muitos filhos recorrem à violência porque querem ficar com os rendimentos dos pais, frequentemente para sustentar vícios associados ao jogo, drogas ou álcool”, acrescentou ao Público.

Contudo, apesar da mudança na forma como a PSP regista as queixas, ainda não é possível refletir totalmente este tipo de crime nos Relatórios Anuais de Segurança Interna (RASI), que agregam também os dados da GNR. “Até que o mecanismo esteja afinado, é natural que haja discrepância“, admitiu a comissária Patrícia Firmino. Já a Associação Portuguesa de Apoio à Vítima (APAV) alerta para a necessidade de criar critérios uniformes — para Carla Ferreira, técnica da associação, “as diferenças metodológicas estão a comprometer a leitura correta da violência doméstica em Portugal”.