Manifestações na cidade de Jacarta espalharam-se para outras cidades indonésias depois do atropelamento de Affan Kurniawan, um motorista que participava nos protestos, por uma viatura policial na noite desta quinta-feira à frente do parlamento do país. De acordo com a ONG Jakarta Legal Aid Institute, que presta assistência jurídica a ativistas do país, cerca de 600 manifestantes na capital permaneciam detidos na quinta-feira.
A contestação nas ruas de Jacarta, de acordo com o New York Times, dura desde segunda-feira, com os manifestantes a exigir exigências melhores condições de trabalho e a rejeitar do aumento salarial aprovado para os parlamentares indonésios, que agora vão ganhar cerca de 12 mil euros).
Esta quinta-feira, uma manifestação convocada por sindicatos e associações estudantis acabou em confrontos violentos com a polícia. Vídeos publicados nas redes sociais mostram Kurniawan parado no meio da rua durante a intervenção das autoridades quando foi atropelado por um carro blindado que andava a alta velocidade. De acordo com uma associação de motoristas, citada pela Reuters, o homem não estava a participar nas demonstrações naquele dia.
???????? A chilling video from Indonesia. Police run over a civilian with their armored vehicle. pic.twitter.com/vcGZJVxN3G
— Antifa_Ultras (@ultras_antifaa) August 28, 2025
Em reação à morte do motorista — que trabalhava para a aplicação indonésia GoJek — os protestos levaram para as ruas da cidade de Jacarta centenas de pessoas esta sexta-feira, entre estudantes, motoristas e outros habitantes da cidade, informou a Reuters, que relatou que os manifestantes “atiravam pedras e gritavam “Asssassino, assassino”.
Segundo a agência, estas manifestações levaram ao fecho antecipado de escolas e a que vários bancos e negócios pedissem aos trabalhadores para trabalharem de casa.
De acordo com a BBC, as autoridades usaram gás pimenta e dispararam canhões de água em direção às multidões que se juntaram, não só na capital, mas também na segunda maior cidade do país, Surabaya. Os manifestantes, segundo a televisão britânica, atiraram cocktails Molotov e fogos de artifício.
Para além de Surabaya e Jacarta, os condutores da GoJek, conhecidos pelos seus casacos verdes, manifestaram-se em outras grandes cidades indonésias, afirmou a Reuters, incluindo Bandung, na ilha de Java e Gorontalo, na ilha de Sulawesi.
O Presidente da Indonésia, Prabowo Subianto, disse na rede social X ter ficado “chocado e desapontado com a ação excessiva dos agentes”.
“Ordenei que o incidente da noite passada fosse investigado de forma completa e transparente, e que os agentes envolvidos fossem responsabilizados. Se for constatado que agiram de forma inadequada e contrária às normas vigentes, tomaremos as medidas mais severas previstas na lei“, escreveu Prabowo na publicação.
Saudara-saudara sekalian,
Saya telah mengikuti perkembangan beberapa hari ini, terutama peristiwa tadi malam, di mana terjadi demonstrasi yang mengarah kepada tindakan anarkis. Juga ada peristiwa di mana seorang petugas menabrak pengemudi ojek online yang mengakibatkan almarhum…
— Prabowo Subianto (@prabowo) August 29, 2025
O chefe da polícia de Jacarta, Asep Edi Suheri, confirmou a detenção do agente da polícia envolvido no acidente fatal, que vai ser investigado pela unidade de Assuntos Internos, para perceber se foram cometidas infrações.
“Tomaremos medidas firmes contra qualquer membro que tenha cometido quaisquer violações ou infrações no incidente desta tarde”, declarou o comandante da polícia à imprensa.
Segundo a BBC News Indonesia, milhares de condutores de mota acompanharam o corpo de Kurniawan pelas ruas da capital até ao lugar do enterro, no cemitério de Karet Bivak, no centro de Jacarta.
Ribuan pengemudi ojol mengiringi jenazah Affan Kurniawan menuju tempat pemakamannya di TPU Karet Bivak, Jakarta Pusat pada Jumat (29/08).
Menurut cerita warga, Affan adalah tulang punggung keluarga. Bagaimana kisahnya? Simak video berikut. pic.twitter.com/wNQFn5PprH
— BBC News Indonesia (@BBCIndonesia) August 29, 2025
No funeral, o condutor Ari Potret contou à Reuters que os seus colegas estavam “profundamente desapontados, especialmente com os responsáveis pela segurança e o chefe da polícia nacional”. “Isto é uma barbárie“, rematou.
A indignação contra o governo indonésio, formado há menos de um ano, tem crescido desde que foi noticiado que o rendimento dos deputados vai aumentar 33% este ano, para uma média de 230 milhões de rupias mensais (12 mil euros), num país onde milhões de pessoas ganham 3% desse valor por um mês de trabalho, de acordo com estimativas do órgão de comunicação social Tempo.
Os sindicatos também exigem reformas nas leis laborais para acabar com a terceirização, isentar trabalhadores de baixa rendimento de impostos e garantir o pagamento de férias, entre outras reivindicações.