Nove candidatos dos principais partidos políticos, ou com o apoio de alguns deles, vão disputar as próximas eleições autárquicas para a Câmara Municipal de Setúbal, num cenário de imprevisibilidade quanto ao vencedor.

A ascensão do Chega, força política que venceu as últimas eleições legislativas no concelho de Setúbal, e a candidatura independente da ex-presidente do município, Maria das Dores Meira, empresária, de 68 anos, que, entretanto, se desfiliou do PCP, são dois fatores que dificultam as previsões sobre o resultado eleitoral.

A recandidatura do psicólogo e atual presidente da Câmara Municipal de Setúbal, André Martins (PEV), de 72 anos, que promete “continuar o projeto de desenvolvimento” que a CDU (coligação PCP/PEV) tem vindo a pôr em prática nos últimos mais de 20 anos, já era esperada no seio da principal força política autárquica do concelho, mas a candidatura independente de Maria das Dores Meira poderá levar alguns dos votos que lhe garantiram a vitória eleitoral de há quatro anos.

Maria das Dores Meira, de 68 anos, promete regressar com a forma de trabalhar que lhe valeu três vitórias consecutivas no município sadino, agora sob o lema “Setúbal de Volta” e, desta vez, com o apoio do PSD, apesar da oposição da estrutura local daquele partido.

“Sou candidata porque Setúbal não pode estar entregue ao populismo dos que governaram o município e deixaram Setúbal na bancarrota”, disse Dores Meira na apresentação da candidatura, em que também defendeu a ideia de que o concelho “está parado no tempo” desde que deixou a presidência da câmara, em 2021.

“Mudar Setúbal” é o lema da candidatura de Fernando José (PS), de 52 anos, licenciado em Direito e atual vereador na autarquia sadina, que, entre outras promessas, anunciou a intenção de viabilizar um conjunto de 20 medidas, em que se incluem um “passe social gratuito, mais habitação social, mais investimento e a construção de novos equipamentos culturais e desportivos no concelho”.

A habitação, a criação de uma polícia municipal e de um sistema de videovigilância em espaços públicos são, por sua vez, prioridades do candidato do Chega, António Cachaço, de 50 anos, empresário natural de Setúbal que desenvolve a atividade na área dos painéis solares e que foi a escolha do partido para substituir a ex-deputada do PSD Lina Lopes, que liderava uma candidatura independente apoiada pelo Chega retirada no mês de agosto.

Lina Lopes justificou a decisão com uma alegada “campanha difamatória e tentativas de chantagem” de que estaria a ser vítima nas redes sociais, assegurando que a retirada da candidatura não significava o reconhecimento das “falsas acusações” que lhe eram dirigidas e que precisava de se concentrar na defesa do seu “bom nome e honra pessoal”.

“Acelerar Setúbal” é o lema do candidato da IL, Flávio Lança, de 49 anos, economista, que defende a necessidade de mais investimento, requalificação de escolas e melhoria dos transportes no concelho.

Atrair mais investimento e criar emprego, melhorar os transportes públicos, reforçar a limpeza, requalificar escolas, apoiar o tecido empresarial e o comércio local e assegurar uma gestão municipal ética, digital e eficiente, são outras prioridades do candidato da Iniciativa Liberal.

Já o Livre aposta no argumentista e profissional na área da comunicação André Dias, de 30 anos, como candidato à presidência da Câmara Municipal de Setúbal, com a promessa de ser “uma alternativa de esquerda, verde e de progresso” para fazer do concelho “um exemplo nacional de como viver numa cidade sustentável e acessível a todas as pessoas”.

“Setúbal pelas Pessoas” é o lema da candidatura da historiadora Daniela Rodrigues, de 32 anos, cabeça de lista do Bloco de Esquerda, que elegeu como temas centrais do programa autárquico em Setúbal a “habitação, saúde, mobilidade, ambiente e o direito ao espaço público”.

Por sua vez, a atual deputada municipal do PAN, Mariana Crespo, de 42 anos, psicóloga, é agora cabeça de lista do partido nas eleições para a Câmara Municipal, tendo como objetivo mínimo a manutenção da atual representação daquela força política, que tem apenas um eleito na Assembleia Municipal.

O ADN aposta na candidatura do empresário e guarda prisional Cláudio Fonseca, de 52 anos, atual vogal da freguesia de São Sebastião eleito pelo Chega em 2021, mas que passou a independente há cerca de dois meses.

A Câmara Municipal de Setúbal, que é governada por maiorias comunistas desde 2001, tem atualmente um executivo camarário constituído por uma maioria relativa de cinco eleitos da CDU, quatro do PS e dois do PSD. A CDU não tem, no entanto, maioria na Assembleia Municipal.

PS, CDU, Chega e independente apoiada pelo PSD acreditam na conquista do município

As eleições autárquicas em Setúbal vão realizar-se num cenário político inédito em que os candidatos da maioria CDU, André Martins, do PS, Fernando José, e a independente Dores Meira, apoiada pelo PSD, se mostram confiantes na conquista do município.

O Chega, que apresenta António Cachaço como cabeça de lista, tem apenas representação na Assembleia Municipal, mas também acredita que poderá surpreender e conquistar a presidência do município sadino, com base na vitória eleitoral que alcançou no concelho de Setúbal nas últimas eleições legislativas, em que obteve 18.825 votos (27,28%).

O PS, que se mostra confiante num regresso ao poder no município sadino sob a liderança do atual vereador Fernando José, foi o partido que venceu as primeiras eleições autárquicas em Setúbal (1976) após a revolução de abril de 1974, mas perdeu a autarquia para a APU (Aliança Povo Unido), coligação liderada pelo PCP, em 1979.

O então presidente do município sadino, Francisco Lobo (PCP) garantiu a reeleição em 1982, mas o PS, com o apoio do PSD, reconquistou a Câmara de Setúbal para os socialistas sob a liderança de Manuel Mata Cáceres, que foi reeleito mais três vezes (1989, 1993 e 1997), numa altura em que ainda não havia a atual limitação legal a um máximo de três mandatos consecutivos.

Carlos de Sousa, atual mandatário do candidato do PS, Fernando José, foi decisivo para a reconquista do município sadino para a coligação PCP/PEV em 2001, e garantiu a reeleição em 2005, mas acabou por renunciar ao mandato, a pedido do PCP, partido de que, na época, ainda era militante, tendo sido substituído no cargo pela então vereadora da CDU Maria das Dores Meira.

A agora candidata independente à Câmara de Setúbal viria a ser confirmada no cargo nas eleições autárquicas de outubro de 2009, tendo sido reeleita em 2013 e 2017, sempre com maiorias absolutas.

Nas eleições autárquicas de 2021, Maria das Dores Meira já não se recandidatou, por já ter cumprido três mandatos consecutivos, mas a CDU, liderada pelo atual presidente do município sadino, André Martins (PEV), manteve a maioria.

O concelho de Setúbal, com 230,33 quilómetros quadrados e uma população superior a 124 mil habitantes, tem uma forte componente industrial, com destaque para grandes empresas como a Lisnave, a Secil e a Navigator, esta última uma das maiores exportadoras nacionais.

O turismo cultural, de lazer e de natureza também é cada vez mais importante no município, graças a um conjunto de monumentos requalificados nas últimas décadas, com destaque para o Convento de Jesus/Museu de Setúbal, ex-líbris da cidade, Museu do Trabalho Michel Giacometti e Fórum Municipal Luísa Todi, e para a baía do Sado, espaço privilegiado para a prática de diversos desportos náuticos, da qual se pode ter uma visão ampla a partir da Fortaleza de São Filipe.

O Parque Natural da Arrábida e Reserva Natural do Estuário do Sado, a que se junta a existência de uma comunidade residente de golfinhos-roazes no estuário do Sado, e as praias de Albarquel, Galapos, Figueirinha e Portinho da Arrábida, junto à serra da Arrábida, bem como o conhecido Mercado do Livramento, são outros elementos que têm contribuído para o desenvolvimento turístico da cidade e do concelho de Setúbal.

A gastronomia e os vinhos da região constituem outro fator de diferenciação positiva, que ajudam a atrair cada vez mais turistas nacionais e estrangeiros para o concelho inserido na Península de Setúbal, região com o rendimento per capita mais baixo da Área Metropolitana de Lisboa.

A criação das NUT II e III da Península de Setúbal, aprovada por Bruxelas no passado mês de janeiro, abre caminho à atribuição de mais fundos comunitários para o desenvolvimento do concelho, que poderá beneficiar de investimentos com maior comparticipação financeira da União Europeia já no próximo Quadro Comunitário de Apoio. As eleições autárquicas realizam-se a 12 de outubro.