As indicações não poderiam ser melhores. Depois de se ter sagrado vice-campeã europeia dos 1.500 em Pista Coberta no mês de março em Apeldoorn, onde conquistou também a medalha de bronze nos 3.000,  Salomé Afonso continuou a alcançar resultados prometedores nas provas que foi fazendo no verão, da marca que fez em Paris na Liga Diamante em junho que a consolidou como segunda melhor portuguesa de sempre nos 1.500 só atrás de Carla Sacramento (3.59,32, novo recorde pessoal) ao recorde nacional da milha conseguido na Liga Diamante em Londres (4.19,51, quase três segundos a menos do registo que pertencia a Marta Pen), passando pelos 1.59,87 feitos também em julho no meeting de Ordizia que a colocou como segunda atleta nacional a baixar da fasquia dos dois minutos nos 800. O foco estava naquela que seria apenas a segunda participação de sempre em Campeonatos do Mundo, com o sonho de “algo mais” em Tóquio.

Uma semana de sonho e para a história: Salomé Afonso conquista nova medalha no Europeu em Pista Coberta

A qualificação não poderia ter corrido melhor: apuramento tranquilo com 4.07,77 na terceira posição apenas atrás da queniana Nelly Chepchirchir e da polaca Klaudia Kazimierska, boas sensações no Estádio Nacional que outrora coroou Pedro Pablo Pichardo como campeão olímpico (e Patrícia Mamona como vice-campeã olímpica, também em 2021). “Senti-me super bem, super fluida, foi super fácil. Podia ter controlado um pouco mais mas estou muito orgulhosa e muito contente por estas sensações. Consegui usar uma tática diferente por me sentir assim. A prova foi bastante lenta, foram basicamente 700 metros a acelerar, mas nunca senti que estava no limite. Tinha energia para reagir na reta final. De facto, três corridas implicam sempre uma certa gestão. A primeira corrida é a mais difícil, do ponto de vista da gestão de ansiedade. Há atletas que podem surpreender. Na meia-final, é um grupo mais seletivo”, apontara logo no sábado.

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O pior estava para chegar. Numa série que tinha algumas das principais candidatas à final mas também às medalhas, a portuguesa chocou com a alemã Nele Wessel, quase caiu, teve depois de tentar retomar o ritmo de corrida mas não foi além de uma modesta décima posição na sua série, com o tempo de 4.15,08. “Em Bruxelas [Liga de Diamante] caí. Aqui, não caí mas o resultado foi o mesmo. Era uma corrida perfeitamente adequada a mim, às minhas características, mas a quase queda aos 700 metros acabou com tudo. Ainda tentei reagir mas, a partir do momento em que mudei o ritmo, percebi que não teria força para a volta final. Gastei a energia a não cair, a recuperar e a tentar contactar com o grupo. É muito dececionante, estou numa forma excelente e trabalhei muito para estar aqui. Sinceramente, quase preferia ter tido uma corrida perfeita e não passar porque foram melhores…”, lamentou Salomé Afonso após a meia-final.

Salomé Afonso com eliminação frustrante nos 1.500 metros dos Mundiais de atletismo Tóquio2025

A Federação iria apresentar uma reclamação para tentar ainda uma repescagem para a corrida decisiva mas a portuguesa não apresentava grande esperanças no sucesso da mesma. “Se fosse em Roma…”, ainda atirou, recordando os Europeus ao Ar Livre do ano passado. Contudo, essa falta de esperança sofreu uma viragem: a organização decidiu atender a esse pedido, alargando a final a 14 atletas com Salomé Afonso presente e a italiana Marta Zenoni definitivamente desclassificada, por ter sido culpada de provocar esse incidente (a alemã Nele Wessel foi repescada logo depois da prova, a portuguesa teve de aguardar pelo recurso).

Salomé Afonso repescada para final de 1.500 metros dos Mundiais de Atletismo

“Fez-se justiça. Estou muito feliz, muito agradecida e espero poder estar ao nível de toda a ajuda que recebi. Estou mesmo sem palavras. Foi um dia muito desgastante mas agradeço a toda a gente, que foi incansável, nesta tentativa de me recolocar na final. Vou dar o meu melhor na final, espero deixar orgulhosos todos os que tanto me apoiaram neste momento difícil”, destacou em declarações aos meios da Federação, com essa certeza de que iria melhorar ainda mais o resultado na segunda presença em Mundiais depois do 37.º lugar que fizera em Budapeste no ano de 2023 na segunda final com portugueses em Tóquio após a sexta posição de Agate de Sousa na decisão do salto em comprimento na manhã deste domingo (noite no Japão).

Agate Sousa sexta no salto em comprimento dos Campeonatos do Mundo Tóquio2025

Atual 28.ª do ranking mundial da distância, Salomé Afonso tinha o 12.ª melhor registo pessoal entre as 14 finalistas e a décima melhor marca do ano com 3.59,32, numa evolução que a tem aproximado do recorde nacional de Carla Sacramento conseguido em Atenas há quase duas décadas (3.57,71). Mais do que lutar por medalhas, num cenário que na teoria seria impossível, era no tempo que a portuguesa de 27 anos fixava as atenções para voltar a comprovar o bom momento que atravessa na temporada e na carreira, naquele que seria sempre o melhor ano no atletismo. Ficou a faltar apenas novo recorde pessoal, com Salomé Afonso a terminar a final na 12.ª posição com o tempo de 4.00,47 numa prova dominada pelas atletas quenianas que por pouco não conseguiram todo o pódio naquela que foi a sua terceira melhor marca de sempre nos 1.500.

Com uma ponta final verdadeiramente diabólica, Faith Kipyegon, queniana que chegava como tricampeã olímpica e mundial, voltou a ganhar a medalha de ouro com 3.52,15, com a compatriota Dorcus Ewoi a ficar em segundo batendo por larga margem o seu recorde pessoal (3.54,92) e a australiana Jessica Hull, que foi no ritmo de Kipyegon mas acabou por “pagar” por isso, na terceira posição (3.55,16). A também queniana Nelly Chepchirchir também bateu o recorde pessoal mas acabou em quarto com 3.55,25, à frente da norte-americana Nikki Hiltz (3.57,08). A polaca Klaudia Kazimierska conseguiu ser a melhor atleta europeia com o sétimo posto alcançado com o registo de 3.57,95, também um novo recorde pessoal.