Foram dias de sonho. Na sexta-feira, Salomé Afonso alcançou a medalha de prata nos 1.500 metros dos Europeus de Pista Coberta. No domingo, Salomé Afonso alcançou a medalha de bronze nos 3.000 metros dos Europeus de Pista Coberta. Em cerca de 48 horas, na semana passada, a atleta de 27 anos não só chegou aos melhores resultados da carreira como se tornou a primeira portuguesa de sempre a trazer duas medalhas da competição.
O que aconteceu em Apeldoorn, porém, começou em Sacavém. Salomé Afonso começou por experimentar o futebol, acompanhada pelo irmão gémeo, passou algum tempo no basquetebol e só depois se entregou ao atletismo. No Sporting, foi campeã nacional dos 300, 400, 800 e 1.500 metros até à desilusão dos Jogos Olímpicos de Tóquio, onde não passou das eliminatórias.
Em 2022, já depois de deixar os leões para treinar com Rui Silva e abdicando do curso de Medicina, acompanhou o namorado Isaac Nader e mudou-se para Espanha para trabalhar com Enrique Pascual, o treinador mais medalhado da Península Ibérica. De lá para cá, baixou dos quatro minutos nas meias-finais dos 1.500 metros dos Jogos Olímpicos de Paris, bateu os recordes nacionais dos 800 metros e dos 10 quilómetros e subiu duas vezes ao pódio nos Europeus de Pista Coberta. Tudo porque, como diz quem a conhece bem, “corre por gosto”.
▲ Nos 1.500 metros de Apeldoorn, Salomé Afonso ficou à frente da britânica Georgia Bell, medalha de bronze, e apenas atrás da francesa Agathe Guillemot, que conquistou o ouro
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O futebol, o basquetebol e, só depois disso, o atletismo
A história de Salomé Afonso está a escrever-se nas pistas, mas a verdade é que até poderia ter começado nos relvados. Natural da zona de Sacavém, a dez quilómetros de Lisboa, a agora atleta cresceu em conjunto com um irmão gémeo, João, que é jogador profissional de futebol e representa atualmente o Clube Futebol Benfica. Muito incentivados pelos pais, praticaram desporto desde muito novos e foi em conjunto que entraram nas camadas jovens do futebol do Sacavenense.
“Conheço a Salomé desde muito nova. Tive a felicidade de a conhecer quando com dez, 11 anos, quando ingressou no Sacavenense. Na altura tentou entrar no futebol, ainda fez umas tentativas e tinha muito jeito, mas o futebol feminino há 17 anos não tinha a expressão que tem hoje. Acabou por não se sentir à vontade, era a única menina numa equipa onde também jogava o irmão gémeo”, conta-nos Paulo Condesso, atual presidente do Conselho Fiscal do clube que é amigo da família e era, na altura, o responsável pelo futebol de formação.
Para Paulo Condesso, mesmo sendo muito nova, já era possível perceber que Salomé Afonso tinha “aptidões fantásticas para o desporto”. “Claro que tinha de ter êxito, sempre foi uma miúda muito dedicada e trabalhadora. Não havia outra hipótese. Se achava que ia ter o sucesso que está a ter? Pelo trabalho, sim. Em termos de trabalho era uma miúda fantástica”, acrescenta, revelando que também experimentou o basquetebol antes de se render ao atletismo e entrar no Sporting.
Com dois filhos exclusivamente dedicados ao desporto, entre o atletismo e o futebol, é natural imaginar que a paixão pelas modalidades poderá ter surgido através dos pais. Paulo Condesso confirma e sublinha que tanto o pai como a mãe de Salomé Afonso sempre demonstraram “muito interesse” em que os gémeos praticassem desporto, garantindo que a atitude do casal sempre foi positiva e nunca de exigência desmesurada face aos dois filhos.
“O pai é uma pessoa muito compenetrada, ao contrário dos pais que agora estamos habituados a ver no mundo do futebol. É uma pessoa muito consciente, com os pés na terra. Nunca o vi levantar a voz, nunca o vi criticar o filho ou os outros, pelo contrário. Sempre deu um apoio muito grande. Sempre incentivou muito os filhos à prática desportiva, sem querer que eles fossem Ronaldos. Sem objetivos de transformar os filhos em super-atletas, nunca foi esse o objetivo deles. Acabou por ser uma consequência da forma de estar dos pais”, indica o dirigente, que recorda Salomé Afonso como “uma miúda muito pacata, talvez um pouco mais extrovertida do que o irmão”.
Pouco depois das curtas experiências tanto no futebol como no basquetebol, em 2011, entrou no atletismo do Sporting pela mão do Professor José Fonseca, nome sonante da formação leonina durante vários anos. Não demorou a dar nas vistas, principalmente nas provas de longa duração, e em 2013 já era campeã nacional juvenil dos 300 metros. Em 2014 foi novamente campeã nacional, agora nos 400 metros em pista coberta, e no mesmo ano integrou a equipa do Sporting que conquistou o Campeonato Nacional de Atletismo em pista coberta e a equipa que conseguiu um histórico segundo lugar na Taça dos Campeões Europeus de Atletismo.
▲ Em Paris, nos Jogos Olímpicos, ficou chocada ao perceber que tinha conseguido baixar da marca dos quatro minutos na meia-final dos 1.500 metros
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Sem descurar os estudos, mas também sem deixar de apostar no atletismo como grande prioridade, os feitos acumularam-se: foi campeã nacional dos 800 metros em pista coberta e ao ar livre em 2015, 2017 e 2018, campeã nacional dos 1.500 metros em pista coberta em 2016 e 2019 e em 2020 revalidou novamente os dois títulos. Ao longo de todo esse percurso, durante praticamente uma década, teve Carlos Silva ao lado como treinador e diretor técnico dos leões.
“Acompanhei toda a fase de formação. Era uma rapariga com boa conversa, era sempre muito agradável conversar com ela porque era muito expressiva”, explica o treinador ao Observador, recordando que o gosto de Salomé Afonso pelo atletismo sempre foi evidente. “A dada altura, quando era juvenil, disse-lhe: ‘Tu gostas mesmo de correr. Se há coisa que se vê quando se olha para ti e que dá gosto a um treinador é que corres por gosto'”, lembra.
A “crença pessoal de se superar” que a levou para Espanha
Carlos Silva recorda uma jovem atleta “um pouco exuberante na intensidade”, com necessidade de “ter paciência” para preparar as futuras etapas. “Acho que é qualquer coisa intrínseca, ela tem gosto pela realização. Gosta de se realizar no que faz, gosta de ser uma pessoa com êxito no que faz, trabalha muito para isso e o desporto é algo que a motiva. Tem um grande gosto pelo desporto, um grande prazer pela prática desportiva, e depois liga isso a uma crença pessoal de se superar. Tem de fazer muito bem tudo aquilo que faz”, detalha o treinador, que tem atualmente 54 anos.
O técnico dos leões orientou Salomé Afonso até 2019 e ao Campeonato da Europa Sub-23 desse ano, altura em que a atleta rompeu a ligação para integrar “um grupo de trabalho mais específico” – algo que, garante Carlos Silva, não beliscou a relação de “amizade” que mantêm até hoje. Apurou-se para os Jogos Olímpicos de Tóquio, onde não foi além das eliminatórias dos 1.500 metros, e deixou o Sporting para começar a trabalhar com Rui Silva, o antigo atleta olímpico que foi dos leões para o Benfica em 2016 e acabou por sair também dos encarnados em 2019.
Quem também era treinado por Rui Silva, contudo, era Isaac Nader – atleta filho de pai marroquino e mãe portuguesa com quem Salomé Afonso namora há vários anos. Quando o treinador comunicou aos dois que iria abandonar o grupo de trabalho, no verão de 2022, não foi preciso esperar muito para perceber que a solução seria conjunta.
Já depois de ir aos Mundiais de Atletismo de Oregon sem treinador, Isaac Nader falou com os responsáveis do atletismo do Benfica no sentido de encontrar uma alternativa de orientação que o potenciasse. Por indicação do empresário, a escolha aparentemente óbvia recaiu em Enrique Pascual, o treinador mais medalhado da Península Ibérica e antigo braço-direito de Fermín Cacho e Abel Antón, campeões olímpicos e mundiais em provas de meio-fundo. Nesta altura, já ciente de que Salomé iria sempre acompanhar Isaac, o casal pesou as condicionantes.
▲ Ao lado de Isaac Nader, o namorado, que conquistou a medalha de bronze nos 1.500 dos Europeus de Pista Coberta
A primeira era automática: para trabalhar com Enrique Pascual, teriam de se mudar para Soria, um município com 40 mil habitantes, perto de Valladolid, de onde o treinador é natural e onde orienta o grupo. A segunda implicava que Salomé Afonso congelasse a matrícula em Medicina, na Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Nova de Lisboa, onde entretanto já estava a frequentar o segundo ano. Por fim, a terceira obrigava a que os dois, sem reservas, abdicassem de outras fontes de rendimento e se dedicassem por completo ao atletismo.
Nenhuma das três os parou. Salomé Afonso e Isaac Nader mudaram-se para Espanha e foi já sob a orientação de Enrique Pascual que a atleta quebrou o recorde nacional dos 1.500 metros, que não era renovado há 15 anos, e fez a melhor marca nacional dos 10 quilómetros, na São Silvestre da Amadora. Nos Jogos Olímpicos do ano passado, em Paris, chegou mesmo às meias-finais dos 1.500 metros e ficou em 13.º lugar ao baixar da marca dos quatro minutos – o terceiro melhor resultado português de sempre na distância, apenas atrás de Carla Sacramento, que foi sexta em Atlanta-1996 e décima em Sydney 2000.
“Já lhe disse a ela e a treinador, ao Enrique, que o melhor que ela fez foi ir embora. Neste momento está no melhor sítio do mundo”, atira Carlos Silva, que garante não ter ficado surpreendido quando soube da notícia. “Fiquei contente. Fiquei muito contente quando soube que iam embora para ficar nas mãos dele. Portugal não está preparado para empurrar estes atletas, é ao contrário, os atletas é que puxam pelo país. Lá há outra mentalidade, o sistema empurra-os”, acrescenta o treinador.
Salomé Afonso assinou pelo Benfica no passado mês de outubro, juntando-se a Isaac Nader não só na vida e no grupo de trabalho como também no clube, e a verdade é que não demorou meio ano a atingir os melhores resultados da carreira. Nos Europeus de Pista Coberta do passado fim de semana, na cidade neerlandesa de Apeldoorn, a atleta de 27 anos conquistou a prata nos 1.500 metros e o bronze nos 3.000 metros, tornando-se a primeira portuguesa de sempre a alcançar duas medalhas na competição.
“Há a libertação de: ‘Fogo, finalmente’. Eu sabia que isto estava a chegar”, confessou depois de arrecadar a medalha de prata na distância que é agora a sua grande especialidade. “É um mix de ‘Não acredito que sou medalha de prata’ com ‘Acredito sim, porque trabalhei muito’. Desde que comecei com o Enrique que o processo mudou 360º. Há muito que eu sabia que podia fazer este tipo de resultado. Se acreditar em mim, se for relaxada, se for eu mesma, podia sair uma coisa interessante. E consegui. Já esperava há muito tempo”, sublinhou, reconhecendo que entrou para a final com a ideia de que era “uma das favoritas às medalhas”.
Logo depois de cruzar a meta no segundo lugar e ainda sem saber que conquistaria outra medalha dois dias depois, correu para assistir à prestação do namorado, que acabaria por ficar com o bronze também nos 1.500 metros. Juntos na vida, no treinador, no clube – e agora também nos pódios.