Os britânicos Peter e Barbara Reynolds, de 80 e 76 anos e detidos há oito meses pelos talibãs no Afeganistão, foram libertados esta sexta-feira. A notícia foi avançada pela imprensa britânica, que adianta que o processo contou com a mediação do Qatar.

A Sky News revelou que o casal, que viveu no Afeganistão durante quase duas décadas e fundou uma organização ligada à educação, chegou esta sexta-feira à capital qatari, Doha. Segundo a BBC, viajaram primeiro para o país que mediou a libertação para exames médicos e vão seguir depois para o Reino Unido.

O Qatar esteve envolvido em negociações com as autoridades talibãs duraram vários meses, em coordenação com o Governo britânico e a família dos Renyolds, disse à Reuters um responsável uma fonte qatari.

Peter e Barbie (como é conhecida), que também têm cidadania afegã, foram detidos pelo Ministério do Interior talibã no dia 1 de fevereiro deste ano. Regressavam à sua casa na cidade de Bamiyan, no centro do país quando foram impedidos de seguir viagem sob a justificação de não possuírem a documentação necessária. Estavam acompanhados por um intérprete local e por uma colega norte-americana, Faye Hall, que também foram detidos. Hall acabaria por ser libertada em março, mas a detenção do casal prolongou-se e nesse mesmo mês os dois foram transferidos para uma prisão de segurança máxima em Cabul.

Peter e Barbie casaram em Cabul em 1970. Ao longo dos últimos 18 anos lideraram a Rebuild, uma associação que fundaram na área da educação e que garantia nomeadamente programas educacionais para mães. A BBC refere que a instituição foi aprovada pelos talibãs quando o grupo armado recuperou controlo do Afeganistão em 2021.

Numa declaração breve à Sky News, à chegada ao aeroporto de Cabul, Peter Reynolds sublinhou que estavam agradecidos. “Fomos muito bem tratados. Estamos desejosos de ver os nossos filhos”, disse por sua vez a mulher. “Estamos desejosos de regressar ao Afeganistão, se pudermos. Somos cidadãos afegãos”, acrescentou.

Os motivos da detenção do casal nunca foram divulgados pelas autoridades talibãs. Fontes próximas do caso chegaram a adiantar à AFP que “vários livros religiosos (não islâmicos)” foram encontrados na sua casa, constituindo durante um tempo a principal alegação em análise. Terão sido confiscados pelo menos 59 livros. Contudo, o porta-voz do Ministério da Administração Interna afegão, Abdul Mateen Qani, disse à agência que a investigação passou a incidir sobre “a legalidade da aquisição da cidadania”.

“A coisa mais próxima do inferno que consigo imaginar”. Casal britânico está detido há mais de 120 dias pelos talibãs

Durante os oito meses de detenção os familiares do casal foram alertando para a situação precária. “A minha mãe tem 75 anos e o meu pai quase 80, [ele] precisa de medicação para o coração depois de ter sofrido um pequeno derrame. Eles só estavam a tentar ajudar o país que amavam. A ideia de estarem presos porque estavam a ensinar mães com filhos é absurda“, sublinhou a filha, Sarah Entwistle ao Sunday Times. Também Faye Hall, libertada cinco meses antes do casal, alertou que Peter e Barbie estavam “literalmente a morrer na prisão” e que “o tempo estava aa acabar” para os libertar.

Um responsável da embaixada do Qatar na capital afegã garantiu à Reuters que asseguraram que os Reynolds estiveram em condições “confortáveis” durante as negociações e também detenção. “Ao longo dos oito meses de detenção — durante os quais foram mantidos em grande parte separados — a embaixada qatari em Cabul providenciou apoio crítico, incluindo acesso aos seus médicos, a entrega de medicação e comunicação regular como a sua família”, afirmou.

Na sequência da libertação de Peter e Barbie o porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros do Afeganistão sublinhou que os Reynolds “violaram as leis afegãos”, sem especificar. Acrescentou que o país “não vê questões sobre cidadãos de uma perspetiva política ou transacional”.