Pelo menos três equipamentos culturais municipais lisboetas — Cinema São Jorge, Teatro do Bairro Alto e LU.CA – Teatro Luís de Camões — estão a exibir mensagens de apoio à Palestina, como forma de protesto perante o “silêncio generalizado” sobre a guerra em curso em Gaza. As ações, sabe o Observador, partiram de trabalhadores dos equipamentos, na sequência de uma carta aberta lançada a 11 de setembro nas redes sociais intitulada “Se a morte cala, a Cultura grita. Cultura contra o Genocídio”.
“A nossa intenção é mobilizar o setor cultural em relação a este silenciamento que tem havido em relação à questão da Palestina”, diz Beatriz Vasconcelos, assessora de comunicação cultural e uma das promotoras da carta aberta, ao Observador.
As ações no Teatro do Bairro Alto (TBA) arrancaram esta quarta-feira, 17 de setembro, após a estreia da peça Coro dos Amantes, de Tiago Rodrigues, que marcou o início da temporada naquele teatro. No momento dos aplausos, foi projetado no pano do cenário a mensagem: “Cultura contra o genocídio”, ao lado de uma bandeira palestiniana. Numa nota sonora escutou-se um apelo para que “todo o setor cultural se una e assine a carta aberta: se a morte cala, a cultura grita, Palestina livre”. A equipa do teatro também está a trabalhar com t-shirts em que se lê “Genocídio não é cultura”, testemunhou o Observador esta sexta-feira.
▲ A mensagem projetada esta sexta-feira no Teatro do Bairro Alto, em Lisboa, após a peça "Coro dos Amantes", de Tiago Rodrigues
Também esta sexta-feira, 19 de setembro, a sessão de abertura do festival de cinema QueerLisboa contou com a projeção da mesma imagem no ecrã, antes do filme Plainclothes (2025), de Carmen Emmi. Segundo apurou o Observador, a mensagem será exibida em todas as sessões do festival naquela sala de espetáculos.
Também no LU.CA – Teatro Luís de Camões, teatro com programação dedicada às crianças e aos jovens, os ecrãs do foyer exibem desde esta sexta-feira o seguinte texto: “Pudesse um teatro servir de abrigo para todas as crianças…”, num grafismo com os tons da bandeira palestiniana (preto, verde, branco e vermelho). A mensagem no ecrã, adequada ao público visitante, continuará a ser emitida diariamente.
▲ No LU.CA – Teatro Luís de Camões, teatro com programação dedicada às crianças e aos jovens, os ecrãs do foyer exibem uma mensagem adequada ao público visitante
“Apelamos a que a comunidade cultural portuguesa se faça ouvir”
“Seguindo o mote dos trabalhadores dos portos de Génova, Barcelona e de Veneza, assim como do movimento estudantil em Nápoles, consideramos que o setor cultural português tem de se manifestar abertamente pela Palestina e em apoio à Global Summud Flotilla”, lê-se na carta lançada na última semana por “um grupo informal de trabalhadoras e trabalhadores do setor cultural português que se indigna com a não tomada de posição do Governo Português face ao Genocídio em curso que Israel está a levar a cabo em Gaza e recusa compactuar com o silêncio generalizado”.
Os promotores são, em grande parte, trabalhadores da Lisboa Cultura (antiga EGEAC, a empresa municipal de cultura da Câmara Municipal de Lisboa), que gere equipamentos como o Teatro do Bairro Alto, o Cinema São Jorge e o LU.CA – Teatro Luís de Camões.
“Apelamos a que a comunidade cultural portuguesa se faça ouvir, que tome uma posição pública e inequívoca em relação à crise na Palestina. Pedimos que se manifestem em solidariedade com o povo palestiniano, exigindo o cessar-fogo, o fim imediato do genocídio e o respeito pelos direitos humanos fundamentais de todas as pessoas que habitam naquela região”, continua o texto.
Na carta, que desde que foi colocada em circulação somam assinaturas de pessoas ligadas ao setor, mas também de figuras da sociedade civil, apela-se a que “antes, durante ou depois dos espetáculos, concertos, inaugurações, apresentações ou conversas falem do genocídio que Israel está a cometer em Gaza e da ação humanitária que pretende quebrar com o cerco marítimo existente desde 2007 e levar alimentos e assistência médica tão urgente neste momento”. Os autores vão mais longe: “Se os barcos forem intercetados ou atacados, estamos disponíveis para tentar a paralisação do setor — mesmo conscientes das consequências diretas que tal poderá trazer a um setor tão precário como o cultural. E apelamos também aos sindicatos que considerem a hipótese de nos apoiar ao lançar um pré-aviso de greve”.
As ações levadas a cabo esta semana, apurou o Observador, têm sido organizadas pelas equipas dos equipamentos culturais sem o envolvimento das direções. “Não é uma altura para não falar. E por mais que as direções não estejam a ter uma tomada de posição oficial, não é uma tomada de posição da instituição, quero acreditar que reconhecem a necessidade deste tipo de ações”, diz Beatriz Vasconcelos.
Esta não é a primeira vez que trabalhadores da Lisboa Cultura se manifestam com o que denunciam ser um “branqueamento do genocídio na Palestina”, exigindo que a cultura não seja usada para ocultar violência e apelando à resistência cultural. Já em 2024 os trabalhadores da empresa municipal protestaram depois de Carlos Moedas, presidente da CML, ter cedido o Cinema São Jorge à Embaixada de Israel para celebrar a criação do Estado de Israel. Na altura, os trabalhadores entregaram um abaixo-assinado “exigindo que a empresa tomasse uma posição clara e pública sobre o genocídio em curso na Palestina”. Em junho, voltaram a protestar lembrando que “até hoje, esse apelo ficou sem resposta”.